No trecho onde é navegável, o São Francisco tem papel fundamental para o sertanejo. As gaiolas, que levam povo, mercadorias e animais de uma cidade a outra, recorrem às carrancas, para que tenham boa viagem. Figuras mitológicas esculpidas na proa das barcaças, as carrancas, também chamadas de cabeças-de-proa, são legítimas manifestações da arte popular. Os barqueiros acreditam que as esculturas espantam ao maus espíritos.
Abaixo da cidade de Juazeiro, na Bahia, um longo trecho encachoeirado marca a passagem do planalto para planície. Situam-se aí as cachoeiras de Paulo Afonso, com 80 metros de altura e a de Itaparica.. O aproveitamento do potencial hidrelétrico é significativo. A usina de Três Marias e Paulo Afonso, das mais conhecidas, abastecem de energia elétrica o Nordeste. Contudo, nenhuma usina é mais célebre de que a de Sobradinho, a barragem que tem em alguns pontos até 30 quilômetros de largura.
Sobradinho, usina construída na Bahia a partir do salto que tem o mesmo nome, ‘‘cumpriu a profecia do beato que dizia que o sertão iria virar mar’’ e mereceu letra e música, ficando renomada nacionalmente. As cidades baianas de Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, situadas há centenas de anos dos dois lados das margens do São Francisco, foram alagadas. ‘‘O povo foi-se embora com medo de se afogar’’, mas reconstruiu as cidades longe do alcance do grande lago que formou.
O beato, do qual fala os compositores Sá e Guarabira na canção, é Antônio Conselheiro, que parece ter previsto a construção de Sobradinho. Os caiçaras que vivem do que pescam no rio ainda temem a segunda parte da profecia do beato: ‘‘dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão’’. (M.B.)

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