Luiza Dantas/Carta Z NotíciasBenvindo Siqueira: inspiração veio do personagem psicótico de Anthony Hopkins, em ‘‘O Silêncio dos Inocentes’’Benvindo Siqueira não quer mais que riam às suas custas. Disposto a provar que é um ator completo, e não apenas um humorista, aceitou o convite do diretor Walter Avancini para interpretar Zé Bedeu, o principal vilão de ‘‘Mandacaru’’, novela que estréia amanhã, às 21h30, na Manchete. Segundo Benvindo, essa é a maior oportunidade que terá de mostrar às pessoas o seu talento dramático. ‘‘Esse papel vai me permitir obter um maior desenvolvimento como ator’’, garante Benvindo.
Mas não são poucas as dificuldades que Benvindo vai ter pela frente. Mesmo seguindo à risca as dicas de Avancini, o ator tem perdido o sono para encontrar a melhor forma de dar vida a um vilão autêntico. ‘‘Não vou poder esboçar um sorriso na novela’’, reclama.
Gargalhar é uma das coisas que Benvindo mais gosta de fazer. Tanto, que, através dos espetáculos de humor, como ‘‘O Dia em que o Brasil Tomou Doril’’ e ‘‘Um Brasil de Risadas’’, Benvindo acabou sedimentando a carreira. Apenas há alguns anos, o ator começou a trabalhar em tevê, com personagens como Bafo de Bode, em ‘‘Tieta’’, na Globo, e Lupicínio, na novela ‘‘Tocaia Grande’’, da Manchete.
Aos 50 anos, Benvindo reconhece que era um idealista e resistiu mais que devia a ingressar na tevê. ‘‘Acho que fui o último dos moicanos’’, exagera o ator. A resistência foi um dos efeitos colaterais das atividades políticas na juventude. ‘‘Fui comunista literalmente de carteirinha’’, diz em tom de autocrítica.
Para fazer o Zé Bedeu, de ‘‘Mandacaru’’, Benvindo se inspirou no personagem Hannibal The Cannibal, feito por Anthony Hopkins em ‘‘O Silêncio dos Inocentes’’. E, apesar de estar sendo monitorado de perto por Avancini para não relaxar com o personagem, já prepara alguns cacos para colocar na boca do personagem. E deixa claro que não pretende ser ofuscado: ‘‘Serei um vilão tão demoníaco quanto sedutor’’, avisa Benvindo.
Você já teve uma postura radical contra a tevê. O que o levou a aceitar um personagem em Mandacaru?
Benvindo Siqueira - Se eu não tivesse sido um sonhador, como Dom Quixote - com o radicalismo de só querer fazer teatro -, a minha carreira como ator teria adquirido uma ressonância bem maior. Por causa dessa postura, recusei inúmeros papéis e apareci pouco em novelas. Hoje, reconheço que mudei essa postura e larguei de ser burro. O problema é que eu era engajado em política. Fiz movimento estudantil e fui comunista de carteirinha. Mas companheiros meus, como Francisco Milani e Dias Gomes, já estavam na tevê muito antes de eu me render. Acho que fui o último dos moicanos. E só aceitei participar dessa novela porque o Avancini é um diretor extremamente competente e faz um trabalho sempre muito bom. O motivo básico, porém, é que peguei um bom personagem, que me dará chances de mostrar ao grande público que não sei apenas arrancar gargalhadas.
Você topou fazer um vilão para provar isso?
Benvindo Siqueira - Na verdade, sempre será muito difícil as pessoas não rirem de mim. Até porque, com essa cara que eu tenho... Mas o cangaceiro Zé Bedeu vai me possibilitar usar recursos interpretativos que vão além dos que utilizo em shows humorísticos que faço pelo País afora.
Que recursos são esses?
Benvindo Siqueira - A maior dificuldade que vou ter é que o Zé Bedeu é um sujeito que não ri nunca. Segundo o Avancini, ele é um sujeito que não pode mexer um músculo do rosto. Nesse momento isso é até bom, porque estou terminando um tratamento dentário e sorrir seria desastroso. Terei também de demonstrar naturalidade em todos os momentos, porque o meu personagem mata as pessoas como quem vai ali no bar da esquina e toma uma cachacinha. Tudo com a maior naturalidade.
Quais são as características básicas do personagem?
Benvindo Siqueira - Assim que o Avancini me convidou, foi tratando logo de me passar uma lista com uns 30 itens que corresponderiam à personalidade do Zé Bedeu. O personagem é cruel, malvado e não sorri em hipótese alguma. Procurei me inspirar no psicótico personagem do Anthony Hopkins no filme O silêncio dos inocentes. Mas o Bedeu também não é uma pessoa com rompantes emocionais. O interessante é que, mesmo sem poder sorrir, o Zé tem uma profunda alegria de viver.
O que você achou mais difícil nesses primeiros dias de gravação?
Benvindo Siqueira - Ter de manter uma naturalidade e postura de quem está passeando. Só que tem um probleminha. Tenho de vestir três calças, como faziam os cangaceiros. Como eles não tomavam banho, quando se sujavam, jogavam uma calça fora. Além disso, uso duas perneiras de couro, camisa, paletó, três bolsas, sete cabaças, uma rede amarrada no corpo, um revólver 38 e um fuzil de 15 quilos nas costas. Devo carregar comigo, no mínimo, uns 20 quilos. Quando dá vontade de mijar é uma desgraceira. Até eu tirar as três calças, já me mijei todo. Mas o pior mesmo é na hora de montar os cavalos.
Por quê?
Benvindo Siqueira - Cavalo para mim não passa é de uma besta. Como nunca tinha montado na minha vida, pedi para o Avancini um pangaré bem mansinho e fui procurando ganhar intimidade com o bicho, conversando com ele. Perguntava se ele fazia análise, se gostaria de fazer um seguro saúde e também ficava dando milho para ele comer. Cheguei a fazer um mês de equitação. Mas na hora de montar, estou tão fantasiado e cheio de peso que é preciso dois homens para me ajudar. O meu maior medo ainda é cair do cavalo. Se isso acontecer, estouro a coluna com o peso do fuzil e ainda corro o risco da arma disparar e eu levar um tiro no meio das pernas.
Por ser o principal antagonista, o Zé Bedeu deve cometer uma série de atrocidades...
Benvindo Siqueira - Com certeza. Ele anda com um colar de orelhas humanas penduradas no pescoço e durante a novela vai decapitar a cabeça de vários personagens, cortar a língua fora, tirar o bucho dos inimigos e fazer o sangue jorrar adoidado. Mas ele sempre vai assassinar os inimigos com a naturalidade de quem pechincha tomates na feira.
O diretor Walter Avancini foi muito criticado em ‘‘Xica da Silva’’ pelo excesso de cenas de crueldade. Em ‘‘Mandacaru’’ não deve ser diferente. O que você acha disso?
Benvindo Siqueira - Sinceramente, eu viro o rosto para o lado quando são exibidas aquelas cenas de Xica em que um personagem aparece tirando o olho do outro, por exemplo. Mas não acho que isso tenha sido apelativo. Naquela época, os negros eram torturados demais mesmo. A imagem da Escrava Anastácia, cultuada como uma santa no Brasil, tem sempre uma mordaça. Agora, em ‘‘Mandacaru’’ - como a história abrange histórias violentas em que cangaceiros viviam se atracando -, as cenas de violência devem ser grandes e até mesmo chocantes. Mas não acho que a novela será apelativa.
O que é apelativo na tevê?
Benvindo Siqueira - O fato é que o diretor usou um recurso que deu certo. Tanto que a novela deve chegar ao fim com 20 pontos de audiência. Para mim, apelativo é sentar em casa no sábado à tarde e ver a Xuxa perguntando para o Ronaldinho se ele gosta mais de nhanhar de frente ou de costas.
Você acredita que em ‘‘Mandacaru’’ haverá muitas cenas de sexo e até de homossexualismo?
Benvindo Siqueira - Seria muito engraçado eu ter um caso com o Tirana. Ele até que é um cangaceiro bonitinho.... O fato é que não acho nada descartável. Como no meio do futebol, ou das Forças Armadas, no período do cangaço os homens andavam em bandos e não me espantaria se eles se curtissem sexualmente. Sabe que você até me deu uma idéia? Logo numa das minhas primeiras cenas, eu levo um tapa do ator Victor Wagner, que interpreta o Tirana. E, segundo o roteiro, não vou poder reagir. Não estou gostando nada disso. De repente, vou jogar um olhar meio dúbio em direção ao Victor. E se o Avancini não perceber, é capaz de ir ao ar...
Mas o Avancini tem fama de disciplinador...
Benvindo Siqueira - É verdade, e, por isso, estou estudando cada detalhe das instruções dele. Mas ele já me deu liberdade para criar alguns cacos. Já trabalhei também com o Zeno Wilde, que é o autor de ‘‘Mandacaru’’. Numa conversa recente, o próprio Zeno me disse que achava difícil escrever repentes para um cara que viveu durante anos no Nordeste e domina relativamente bem esse tipo de linguagem, como é o meu caso. Se for possível, lá pela metade da novela, vou improvisar algumas palavras ou frases.

mockup