Jack White apanha martelo e pregos e começa a talhar pequenos buracos em um pedaço de madeira. Com uma corda de aço e uma garrafa de Coca-Cola, arquiteta uma espécie de guitarra artesanal de uma corda só. O captador e a caixa de força ligam o artefato a um amplificador. Pronto. ''Quem disse que você precisa comprar uma guitarra?'', pergunta.
O início do documentário ''A Todo Volume'' dá a dica do que esperar nos próximos 100 minutos: guitarras, guitarras e mais guitarras. Dirigido por Davis Guggenheim (de ''Uma Verdade Inconveniente''), o filme conta com a participação de três guitarristas de diferentes gerações, cada qual com seu estilo e maneira de encarar o instrumento: Jimmy Page, do Led Zeppelin, The Edge, do U2, e Jack White, de White Stripes, Raconteurs e Dead Weather.
Um encontro entre as três feras é agendado para um estúdio em Hollywood. No cenário gigantesco, amplificadores, efeitos e um toca-discos estão perto dos sofás e do pequeno palco montado para que o trio mostre um pouco de seu estilo conversando através do instrumento. ''A minha voz sai pela guitarra'', diz The Edge em certa tomada em Dublin, na Irlanda. O guitarrista do U2 explica como tenta passar o som que ouve na sua cabeça para o amplificador. Como faz sofrer seu técnico, que a todo momento está ao seu lado conduzindo uma orquestra de pedais e efeitos.
Jimmy Page é filmado em Londres. Cercado de vinis, mostra os sons que o influenciaram na vida. Um dos momentos mais divertidos é quando coloca ''Rumble'', de Link Wray, no toca-discos e começa a fazer uma espécie de ''air guitar'' com os braços. Sorrindo, diz: ''Isso é demais. Olha como ele usa o vibrato do amplificador depois da segunda parte''.
Já Jack White está no Tennessee quando a equipe de filmagem chega ao seu território. O cantor está no meio do deserto, com bois e vacas o observando. White conta como odeia efeitos e faz uma ode ao som orgânico da guitarra. Quando perguntado sobre o encontro com os outros dois músicos, ele responde: ''Acho que vamos trocar muitos socos''.
Durante um ano, o diretor Davis Guggenheim se desdobrou durante as três cidades carregando sete câmeras. Tudo para que passagens como a cena em que The Edge mostra as fitinhas cassete de ''Josua Tree'' (álbum de 1987 do U2) que originaram composições como ''Where the Street Have no Name'' fossem captadas da maneira mais natural possível.
Cenas da infância, da adolescência e do estrelato de cada guitarrista recheiam as histórias deliciosas que cada um conta sobre a relação duradoura com o instrumento. White mostra sua guitarra preferida e que correu por dez anos os shows do White Stripes. ''É uma das mais vagabundas que você pode comprar. Eu gosto disso. De lutar com o instrumento, de fazer com que ele se renda a mim. Seria muito fácil comprar a melhor guitarra do mundo.'' White transforma todas as suas guitarras como se fosse um artesão.
Para The Edge, o melhor é mexer com efeitos e diferentes tipos de textura - cada música do U2 recebe efeitos e ajustes diferentes vindos do seu arsenal.
No encontro em Hollywood, cada um fala de suas influências e de como chegou ao instrumento. Também apresentam uma música de sua banda e são acompanhados pelos outros parceiros. No final, tocam e cantam ''The Weight'', hino do grupo The Band.
Muito mais do que um documentário restrito aos experts do instrumento, ''A Todo Volume'' conta de forma poética e divertida a história do ser humano por trás dele. Imagens, sons e palavras atravessam os tempos com elegância e harmonia. A guitarra merecia um documentário como este.

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