O ser humano em estudo
Divulgação/Josoé de CarvalhoCena de El ExperimentoDamanthal: um espetáculo para sacudir o espectador, segundo o diretor Javier Margulis (abaixo)O SER HUMANO EM ESTUDO
O grupo argentino La Barraca traz ao Filo um espetáculo que mostra a dor do ser humano transformado em cobaia
Jackeline Seglin
O ano é 1900. Instituto Damanthal em Szcezcin, na Polônia. Alfred Damanthal tira das ruas membros de uma mesma família, oferecendo-lhes abrigo e alimento. Em troca, essas pessoas terão que se transformar em cobaias em suas investigações científicas. Trata-se de uma viagem às zonas escuras do cérebro. Um abastecimento seletivo de informações.
O espetáculo, que será apresentado a partir de hoje no Festival Internacional de Londrina - às 19 e 21 horas, no Núcleo I -, é um retrato do horror que pode provocar no espectador um grande impacto visceral. El Experimento Damanthal, do grupo argentino La Barraca, é baseado na história de Alfred Damanthal, um cientista contemporâneo de Freud e Jung, que estudava o cérebro de seres humanos. Vivos!
Aconselhado para quem tem estômago forte, a montagem trata de valores fundamentais como o respeito pela vida humana, compaixão e a solidariedade, tudo isso desrespeitado por um perverso sistema de valores. É de minha responsabilidade testemunhar com minha visão de mundo a crueldade da espécie; de deixar o testemunho da carne faminta, humilhada e mutilada nas guerras do homem do último século, relata o diretor, Javier Margulis.
Em entrevista à Folha 2, Margulis explica que a montagem aborda aspectos da coletividade como um todo. O tema tem a ver com isso. O Experimento é uma maneira de ver o problema humano, que é algo que nos preocupa, diz ele.
A proposta do diretor é, sobretudo, mobilizar o espectador. Ele, que é uma pessoa do mundo, com o qual não podemos nos comunicar por estar adormecido. O horror e a violência não surpreendem mais. O espetáculo tenta sacudir o espectador, comunica.
O diretor detalha que a finalidade é comover e desestruturar o olhar passivo: O objetivo é chamar a atenção sobre o escabroso destino a que somos submetidos.
A história da montagem do La Barraca foi baseada em fragmentos de escritos do cientista Alfred Damanthal, encontrados sob os escombros do seu Instituto. Em 1910, um incêndio na Biblioteca Nacional de Szcezcin destruiu vários prédios do quarteirão, incluindo o Damanthal. Nenhum dado confirmou se o cientista se encontrava no local no momento da tragédia.
A linguagem utilizada por Javier Margulis é o que se pode chamar de teatro de imagem. Trata-se de uma interação de várias linguagens - a música, as palavras, a luz, o espaço, os gestos, as cores e a situação do homem no espaço. Cria-se uma inter-relação que possa ser conectada com o imaginário do espectador, observa.
Margulis salienta também a importância do uso desta linguagem em cena. O texto, narrado em off, é constituído de relatos simultâneos que contam trechos da vida de Damanthal. É inevitável que no desenvolvimento da cena surja no espectador a vontade de compreender racionalmente os fatos observados. O maior desafio desta proposta consiste em evitar estimular qualquer intenção de justificar os fatos, insistir na inutilidade de querer uma lógica racional no desenvolvimento desses fatos e incitar a participação criativa do espectador na construção da totalidade, avisa Margulis.
Esta experiência, segundo o diretor, não requer ser compreendida no sentido habitual, mas deve estimular o imaginário do espectador da mesma forma que nas artes plásticas, na música ou na poesia.
Neste espetáculo, a platéia também está sujeita a experimentos. Mas não há necessidade de preocupação. O grupo diz respeitar a posição de voyeur que o espectador ocupa.
Com base em experiências anteriores, o ator Nestor Roo relata que o público dificilmente sai do teatro do mesmo modo que entrou. Segundo ele, em Buenos Aires os espectadores ficaram muito impressionados com a apresentação. O que acontece é que a gente se conecta com coisas do passado, ou simplesmente com o que vemos no palco, e isso nos sensibiliza, comenta. O espetáculo causa reações variadas: às vezes a platéia fica imobilizada e sequer aplaude o fim da apresentação.
El Experimento Damanthal, montado há quatro anos, tem 50 minutos de duração. Em Londrina, o grupo fará duas apresentações por dia (às 19 e 21 horas).
El Experimento Damanthal, com o grupo La Barraca, da Argentina. Hoje, amanhã e sábado, às 19 e 21 horas, no Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243). Direção: Javier Margulis.





