O homem de dois sambas num dia só. Herivelto Martins (1912-1992) tinha as suas razões para compor com tanta facilidade. Em tudo, o compositor colocava um pedaço de vida. ''Eu sou um compositor de muita obra, mas é tudo dor de cotovelo. Até na música de Carnaval, sou sentimental.''
É um Herivelto totalmente à vontade e que abre o peito para contar e cantar a própria trajetória que a Biscoito Fino mostra em DVD. O programa ''Ensaio'', da TV Cultura, foi gravado em 1990.
''Transformação'' é uma das 21 músicas do DVD. Nela surge da poeira levantada pelos seus versos sob a fúria da discussão amorosa, uma mulher que era a própria inconsciência de pecado.
No mesmo dia, o compositor viu um grupo de comadres falando mal da desafeta: Dalva, a estrela de sobrenome Oliveira, com quem viveu uma paixão conflituosa. Mais um motivo para compor. Em ''Cabelos Brancos'', ele um recado: ''Não falem desta mulher perto de mim/ Não falem pra não lembrar minha dor''.
Quatro músicas do DVD trazem parcerias de Herivelto com Benedito Lacerda, que além de dividir a autoria de ''Acorda Escola de Samba''; ''Caboclo Abandonado''; ''A Lapa'' e ''Palhaço'', também era protetor do compositor.
Outros parceiros estão no repertório. Entre essas amizades, Dunga em ''Odete''; David Nasser, no clássico ''Atiraste uma Pedra''; e Marino Pinto, na música ''Segredo'', uma das suas composições mais conhecidas.
De um pedaço de vida, Herivelto fazia miséria pela facilidade de ter nas mãos uma nova composição. Foi assim que escreveu a marcha ''Da Cor do Meu Violão'', que marca o início da sua trajetória de compositor.
Ele conta que tinha uma namorada de origem negra e que o pai, Félix Martins, não concordava com o namoro. Toda vez que alguém chegava em sua casa, o pai do compositor falava que a namorada dele era da cor do violão de Herivelto. Pronto: deu samba.
Herivelto subiu o morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, e lá a sua alma de compositor ficou aos pés da ''Ave Maria no Morro'', uma das suas mais belas músicas. ''Eu tinha na mente cantar o morro de todo jeito. Um dia vi uma cena no morro... uma capela... pobres se ajoelhando. Fiz uma música que seria a 'Ave Maria dos Pobres''', lembra Herivelto, que morreu aos 80 anos.
Aos que sabem o que é uma paixão, ainda bem que existiu Herivelto para revelar em ''Segredo'' que, no amor, não se deve comentar o passado. ''Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois (...)Segredo é para quatro paredes.''
Mas é em ''Atiraste uma Pedra'', que Herivelto expõe todas as feridas do coração. ''Atiraste uma pedra/ No peito de quem/ Só te fez tanto bem/E quebraste um telhado/Perdeste um abrigo/Feriste um amigo/(...) Atiraste uma pedra/Com as mãos que essa boca/Tantas vezes beijou.''
Pery Ribeiro, filho de Herivelto com Dalva de Oliveira, faz uma participação especial no programa e declara ter sido um privilégio ser filho do compositor que sabia enaltecer, com suas músicas, uma coisa chamada vida.

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