‘‘Passam os anos e aquele adolescente volta ao circo, agora como adulto, e sai de lá mais empolgado que as crianças. O circo nunca morre.’’ A frase é do artista italiano Orlando Orfei, proprietário de um dos maiores circos do mundo, que está em turnê pelo Brasil e agora chega a Londrina, para uma série de apresentações que começam hoje, às 20h30, na Avenida Leste-Oeste.
Em entrevista à Folha2, Orlando Orfei falou da vida e da tradição circenses, das memórias, da história de sua família e, claro, do espetáculo. Aos 78 anos, Orfei já não é mais o homem que exalta a platéia na locução do espetáculo. Mesmo assim, não deixa de apresentar aquele que é considerado o mais belo número, a fonte dançante, e fazer o encerramento. ‘‘Eu fui o criador da locução no circo. E já fui o melhor nisso. Agora deixo que os outros façam por mim. É uma função cansativa demais’’, afirma.
Este homem do circo tem muita história para contar. São tantos anos no picadeiro... Quantos? ‘‘Cento e setenta’’, brinca ele. ‘‘Sou a quinta das sete gerações da família Orfei.’’ Ele relembra que o Circo Orfei nasceu pelas mãos de um padre, Paulo Orfei, numa cidadezinha perto de Roma. ‘‘Ele era músico e deixou a batina para ser concertista. Foi para o Conservatório de Ferrara e lá conheceu uma jovem da família Massari, uma das mais importantes da cidade. Os dois acabaram fugindo e foram morar numa comunidade cigana. Nasceu aí o Circo Orfei. Isso foi em 1825.’’
Orlando acredita que os Orfei são a família circense em atuação mais antiga do mundo. E, se depender dos herdeiros, a tradição vai alcançar várias outras gerações. Quatro dos filhos estão trabalhando com ele no circo: dois na administração, uma relações públicas e um artista, Mário, que é mágico e domador de elefantes. As outras duas filhas, gêmeas, moram com a mulher de Orfei no Rio de Janeiro. A família tem ainda os netos: no total são 11. O pequeno Juliano, um palhacinho de apenas cinco anos, já pisa no picadeiro e fala três idiomas: italiano, português e espanhol.
O Circo Orfei percorreu o mundo. Orlando conta que passou por muitos países, mas não quis trabalhar na América do Norte. ‘‘Me chamaram muitas vezes, mas nunca tive vontade.’’ Em compensação, fez espetáculos em outros lugares. Ele lembra da vez em que se apresentou em Teerã (Irã), onde o pessoal do circo ficou preso depois de uma confusão das autoridades. ‘‘Foram dois meses de fome e medo de sermos linchados. Foi o momento mais trágico do Circo Orlando Orfei.’’
Ele ainda conta que teve um derrame cerebral 12 anos atrás. ‘‘Quando voltei a trabalhar com os leões e tigres, lembro do discurso que fiz: talvez os meus movimentos não sejam tão perfeitos, mas eu reagi. Com horas e horas de fisioterapia, eu estou aqui. Isso é uma mostra de que na vida a derrota está só no nome, não existe para os que gostam de trabalhar’’.
Aliás, trabalho é coisa que não falta para os artistas do picadeiro. ‘‘O artista de circo tem 10 anos de sacrifício e preparação para apenas seis minutos de apresentação. Quando o circo é bom, o público pode ver o espetáculo mais lindo da Terra. Nome se faz com gabarito, força e seriedade.’’
Na opinião de Orfei, a tradição circense está mais viva do que nunca. Para ele, o circo se mantém forte em todo o mundo. ‘‘Foi o primeiro espetáculo da humanidade, em praça pública, com gente em volta dos saltimbancos. Tem gente que diz que o circo está morrendo. Mentira; o circo hoje é muito mais forte.’’
Ele acredita que a televisão, por exemplo, nunca poderia prejudicar uma apresentação ao vivo. Seria a mesma coisa que comparar um jogo de futebol assistido na TV àquele visto de perto no campo. ‘‘Assistir a um espetáculo pela TV é como beijar uma linda mulher por telefone’’, diz.
A paixão pelo circo, segundo Orfei, é tão forte, que viver longe do picadeiro torna-se impossível para muitos artistas. ‘‘O circo é lindo com aquele cheiro de serragem, com o palhaço com a cara enfarinhada. O circo clássico nunca morre.’’
O artista garante que o espetáculo que será mostrado pelo Circo Orlando Orfei nunca foi visto em Londrina. ‘‘É diferente. Tem muita gente alegre, entusiasmada, que faz o espetáculo ser ágil e envolvente. Não tem picadeiro vazio. É o sistema do nosso espetáculo. São 2h20 de espetáculo contínuo - como um todo, e não só com números separados.’’
O show promete ser completo, com 27 atrações variadas, como o número de acrobacias dos romenos; a argentina de nove anos que faz contorcionismo; a única domadora de tigres do Brasil; ursos polares, e gatos amestrados. ‘‘Fui considerado um dos domadores mais cotados do mundo. Mas que segredo encontrou este homem (um russo) para domar gatos?’’, indaga.
Orfei completa que o circo tem ainda trapezistas, palhaços, malabaristas, ginastas aéreos, animais (elefantes, leões, panteras, ursos brancos, cachorros e gatos) e o grande número de encerramento - apresentado por ele há 30 anos: a fonte dançante, o único do tipo no mundo. ‘‘Quando mostrei este número num espetáculo que fiz no Vaticano, para o papa João XXIII, ele me disse: Esta é uma coisa espiritual.’’ Orfei relembra também uma frase de seu amigo pessoal, o cineasta Federico Fellini: ‘‘este número materializou a música’’. Mas, como é a tão famosa atração? Orfei diz que é difícil explicar, só assistindo. ‘‘É inesquecível, com certeza. Um número considerado o mais poético e lindo do mundo.’’
O Circo Orlando Orfei forma hoje uma grande família. São 190 pessoas, entre artistas, operários, motoristas e mecânicos, mais os agregados (filhos, avós e outros parentes), totalizando 250 moradores. A família não reúne somente italianos, mas abrange russos, romenos, alemães, argentinos, colombianos, holandeses e dois brasileiros, um malabarista e um palhaço.
Orlando Orfei se apresentou em Londrina pela primeira vez em 1968, dentro de um ginásio de esportes. ‘‘Foi a minha primeira turnê pelo Brasil. Vim a Londrina depois de fazer o Festival Mundial do Circo, no Maracanãzinho (Rio)’’, lembra. A atual turnê do Circo Orfei pelo Brasil começou há cerca de dois anos, passando por Foz do Iguaçu, Curitiba, Goiânia, Belém, São José do Rio Preto e, agora, Londrina. Faltam ainda São Paulo, Rio e Belo Horizonte.
De volta à cidade depois de 10 anos, a grande trupe promete um belo espetáculo. ‘‘Eu não vim da última vez, estava na Itália. Passei por aqui há 20 anos. Hoje a cidade está muito bem. Dá a impressão de ser uma das cidades mais ricas do Brasil. Linda! Linda, Londrina! Espero encontrar também o mesmo público receptivo’’, avisa. O circo permanecerá na cidade por três semanas.

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