Alguns críticos, como Luiz Carlos Merten (O Estado de S.Paulo) foram incisivos - ‘‘O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel’’, megaprodução do neo-zelandês Peter Jackson, inagura o cinema do século 21. Outros, como Inácio Araújo (Folha de São Paulo), consideraram o filme uma grande farsa - apenas um arsenal de efeitos especiais em uma história muito distante de qualquer lógica aparente. ‘‘Quem estará certo?’’, indagam os leitores e os espectadores da adaptação do universo mágico de J.R.R. Tolkien.
Resolver essa questão nos obriga a uma primeira pergunta essencial - qual o objetivo do cineasta Peter Jackson ao contar por meio de imagens toda a saga de hobbits, elfos, anões e demônios criada pelo escritor inglês? Ele queria aprofundar-se nesse universo, mostrá-lo por meio de experimentos na linguagem cinematográfica ou atender as exigências do público?
Após o contato com as três primeiras horas de uma adaptação que irá render mais dois episódios, a proposta do cineasta e roteirista já está clara - Jackson quer entreter a platéia; oferecer uma história repleta de reviravoltas, surpresas, desafios... e de muitos efeitos especiais.
A segunda pergunta imposta a qualquer investigação estética se refere ao resultado do autor - ‘‘‘O Senhor dos Anéis’’ consegue entreter o público? Bem, nesse aspecto, Jackson tem seu grande mérito. As platéias se envolvem com o mundo criado pelo cineasta e nem percebem as três horas que se transcorrem.
Então é um bom filme, raciocina o leitor... Aqui reside o ponto de divergência de boa parte da crítica mundial. Entreter determinado público por meio de efeitos especiais implica necessariamente qualidade estética? Não, pois Jackson se vale dos aspectos mais superficias de uma obra de arte, que são seus artifícios técnicos, para conquistar uma massa que pretende apenas se anular em uma sala de cinema. Exceto os aficcionados pela saga de Tolkien, a maior parte dos espectadores se encanta com a história, torce para que a trupe consiga destruir o anel que permite o domínio do mundo, mas... após alguns dias, a trama já não causa nenhum efeito no público. O filme serve como uma distração de si mesmo a partir dos meios mais fáceis de se prender a atenção de alguém - o tecnicismo apelativo que impede a reflexão e a magia, que berra seu poderio e exige olhadelas rápidas, sem compromissos.
Esse comentário não exclui do tecnicismo qualquer possibilidade estética. Basta revermos ‘‘Fantasia’’, de Walt Disney, ou os primeiros filmes de George Meliés, para percebermos que a magia do cinema, o ilusório de uma história, se fundamenta principalmente naquilo que se conta, e não no processo (ou nos meios) por que se conta alguma história. Sob esse raciocínio, percebe-se que Inácio Araújo acerta ao apontar em ‘‘O Senhor dos Anéis’’ uma máquina destruidora de qualquer inteligibilidade que possa haver na platéia. O filme segue uma fórmula pronta já ansiada pelo grande público, assim como ‘‘Hannibal’’, ‘‘Gladiador’’, ‘‘Chocolate’’ e outras grandes produções com sucesso de público. Luiz Carlos Merten também tem razão pois os padrões impostos por ‘‘O Senhor dos Anéis’’ serão aqueles seguidos fielmente pela grande indústria cinematográfica no século 21. A indústria, ao contrário do que acontecia na primeira metade do século 20, não oferece mais nenhuma possibilidade de reflexão ou de um bom retrato da ordem caótica que nos cerca. Os musicais da Metro, os grandes westerns, os policiais noir, os dramas realistas, as comédias sofisticadas - todos esses gêneros criados pelo cinema de entretenimento em Hollywood já não existem mais. E nem podem existir. É essa a nova ordem cinematográfica - os artifícios técnicos de uma história devem ser mais importantes que seu conteúdo ou o modo de contar essa história. Como se um pobre homem em uma fogueira, ao contar uma história para os companheiros ao lado, tivesse de se fixar mais nos apelativos meios que gritassem a atenção da reduzida platéia. A história, o modo como ela é trasmitida, não interessaria mais.
Conclui-se portanto que ‘‘O Senhor dos Anéis’’ evidencia a morte de um elemento essencial em qualquer sociedade - a catarse. Essa descoberta estética, que Aristóteles definia como um momento de revelação de uma verdade ao decorrer da narrativa, não é mais necessária. Pois o senhor da história, da trama, da narrativa, da fantasia... enfim, o senhor do cinema, são os artifícios falsos que iludem uma platéia já ilusa em sua nulidade.

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