O SENHOR DAS TELAS
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de dezembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
O Ano Novo abre em estado de graça. Pelo menos para o cinema mundial, que está comemorando o advento de uma obra que já nasce clássica por antecipação. A partir de 1º de janeiro chega a 365 telas brasileiras - no Paraná em salas de Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Curitiba - e de mais algumas dezenas de países ''A Sociedade do Anel'', adaptação da primeira parte de ''O Senhor dos Anéis'', a caudalosa, magnífica novela épica e mítica que é best seller desde sua primeria edição, nos anos 50. Já indicado para o Globo de Ouro, o filme desponta com força como candidato a vários Oscar. E pelo menos um, o de adaptação de obra literária, já estaria justo, líquido e certo nas mãos dos roteiristas.
Há meio século, um professor de Oxford, estranhamente batizado como John Ronald Reuel Tolkien, escreveu uma não menos estranha novela ambientada numa imaginária Terra Média. Esta região aparecia transformada num lugar lendário, povoado por seres fantásticos das mais variadas espécies. Na história havia também um anel, dois magos, legiões de criaturas monstruosas e uma batalha suprema entre o Bem e o Mal. Tudo escrito em uma linguagem própria de Tolkien, de sua condição de investigador de línguas antigas e desaparecidas, o que imprimiu ainda maior ressonância à obra. J.R.R. Tolkien publicou os três volumes de ''O Senhor dos Anéis'' (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) entre julho de 1954 e outubro de 1955. Desde essa época, a obra não apenas se converteu em fenômeno paraliterário com poderosas influências na cultura popular (gênero fantástico-esotérico, jogos, musical), como segue fascinando e entusiasmando as novas gerações.
Um dos que maior impacto receberam depois de mágica jornada de leitura ininterrupta durante longa, inesquecível viagem de trem foi o neo-zelandês Peter Jackson, obcecado realizador de cinema fantástico e fanático confesso do universo de maravilhas criado por Tolkien. Eleito pela produtora New Line para levar adiante a versão cinematográfica, o apaixonado mas não menos cerebral Jackson tomou nos ombros a tarefa hercúlea de rodar simultaneamente as três partes de ''The Lord of the Rings''. Com cerca de U$ 300 milhões de dólares para gastar, montou uma espécie de estúdio doméstico próprio capaz de criar todo tipo de efeitos especiais - a WETA, menos sofisticada que a ILM de George Lucas mas tão eficiente quanto - e carregou para os confins da Nova Zelândia uma enorme companhia de atores e técnicos, além de contar com centenas de especialistas de seu próprio país. A primeira claquete foi em outubro de 1999, e 274 dias depois as filmagens de toda a trilogia estavam concluídas: as partes restantes ficam respectivamente para dezembro de 2002 e 2003.
Ao contrário da confusa e fracassada adaptação animada surgida nos Estados Unidos em 1978 pelas mãos de Ralph Bakshi, esta versão de ''O Senhor dos Anéis'' assinada por Jackson é fiel reflexo do texto, ainda que transparecendo alguma liberdade - consequência natural da extensão do projeto, que deve ter insuflado ânimos para que todos os elementos e personagens (e, é claro, suas motivações) do original fossem desenvolvidos. É total a entrega e o compromisso dos muitos atores, conhecidos ou emergentes, enquanto o impressionante recorte físico da Nova Zelândia, aqui e ali retocado digitalmente, também desempenha papel notável.
No delicioso prólogo de nove minutos de ''A Sociedade do Anel'' é narrada a criação do Anel Único pelo maligno Sauron, ''O Senhor Obscuro de Mordor'', há milhares de anos. A jóia lhe foi tirada, junto com seu dedo, pelo rei humano Isildur de Gondor. No fim do prólogo, o hobbit Bilbo Bolsin encontra acidentalmente o anel. Sessenta anos depois, Bilbo comemora seus 111 anos e desaparece com o anel. Mas por insistência do mago Galdalf, acaba entregando o objeto a seu sobrinho Frodo. A essencia do mal que está na jóia dá a quem a tiver o poder de corrupção, mas Frodo é o único ser capaz de levar o anel e destruí-lo no Monte do Destino. Para isso é formada a Sociedade do Anel, composta por hobbits, humanos, elfos e o mago Gandalf. Mas as forças do mal tentam a todo custo impedir o resgate do anel para entregá-lo novamente a Sauron, que pretende escravizar todos os povos da Terra Média. Em essencia, ''A Sociedade do Anel'' trata disto, do milenar duelo pelo poder, isto que assistimos dairiamente pelas esquinas calcinadas do planeta.
Realizado com inteligência, imaginação, paixão e grande destreza, ''A Sociedade do Anel'' revela o diretor Jackson tão obstinado, detalhista e criador quanto o escritor Tolkien. O que surpreende positivamente no projeto filmado, entre tantas boas surpresas, é o que se poderia chamar de respeitoso desentranhamento. Os legionários de Tolkien não têm nenhum ponto depreciativo a se apegar, enquanto quem está chegando agora a este mundo fantástico tem razões de sobra para buscar a livraria mais próxima. Como diretor, co-produtor e co-roteirista, Peter Jackson fez tudo com a finalidade de servir à história, buscando realçar a textura de sua realidade. Isto inclui um sem número de detalhes, como personagens falando línguas especialmente criadas até a plantação, um ano antes das filmagens, de vegetação própria da área habitada pelos hobbits. A propósito, fundamental foi também o cuidado com esses personagens. ''A Sociedade do Anel'' não é um drama psicológico como o acurado estudo feito por Jackson há seis anos em ''Almas Gêmeas''. Frodo, Gandalf & companhia são seres míticos, embora dotados de certa complexidade própria da natureza humana. Balancear estas nuances, ter a capacidade de percepção, dar substância, consistência e autenticidade a dezenas de protagonistas num épico milionário de ação e aventura - este o feito de um diretor a celebrar.
Há muito mais a saudar, como o elenco de nomes veneráveis como Ian McKellen, Ian Holm e Christopher Lee, aliados a gerações mais recentes como Elijah Wood, Liv Tyler e Vigo Mortensen, Cate Blanchett. Ou ainda, boa parte dos interessantes efeitos especiais não produzidos por computador, mas gerados por peritos em miniaturas. Afinal, é possível ficar duas horas e cinquenta e oito minutos de olhos grudados na tela, em honra do puro encantamento.


