O SENHOR DA VANGUARDA
Aos 85 anos, completados hoje, as homenagens não param. Reconhecido e saudado como pioneiro e vanguardista que trouxe uma nova forma de ouvir, sentir, pensar e fazer música no Brasil, o professor, esteta, músico, maestro e compositor Hans Joachim Koellreutter ainda consegue esbanjar vitalidade como poucos: mantém a regularidade de sua agenda indo a eventos, participando de palestras e dando cursos. Atualmente prepara a criação de uma ópera baseada no romance modernista Macunaíma de Mário de Andrade e dá um curso de Estudos Comparados entre Pintura e Música, o qual aceita convites para ministrá-lo em qualquer lugar que o chamarem.
Nascido em Freiburg, na Alemanha, fronteira com a Suíça, logo entrou em choque com sua família conservadora e contra sua vocação para a música, principalmente porque seus ideais éticos e estéticos não correspondiam com o que esperavam dele.
Fugindo do nazismo, chegou ao Brasil em 1937, graças a ajuda de um casal de diplomatas brasileiros, cuja mulher era admiradora de música moderna. Aqui, lavou vidros para empresas, morou em favela, intoxicou-se com chumbo onde trabalhava e foi preso como suspeito de espionagem nazista durante o governo Vargas, vítima de uma confusão burocrática. Trouxe em sua bagagem não só as partituras de música medieval (inéditas, até então, por aqui), mas um pensamento musical radicalmente diferente da pesquisa de música folclórica e dos sons nacionalistas que se faziam na época, propondo uma criação em que o som é tratado como matéria, como massa, mensurável, passível de cortes, podendo ser alterado, modificado em suas leis harmônicas, melódicas e tonais, causando um enorme estranhamento no meio musical, que via suas concepções como expressão de uma política de degenerescência cultural (Camargo Guarnieri in Carta Aberta aos Músicos e críticos do Brasil, 1950). Enfim, uma revolução.
O fato é que a música atonal (método de composição que utiliza a totalidade dos recursos cromáticos) e o dodecafonismo (sistema baseado no uso de doze sons da escala cromática) causam impacto até hoje, e o professor Koellreutter foi e tem sido um dos que ajudaram a ampliar seu limite enquanto linguagem, criando inter-relações com a música oriental e incluindo sons afro-brasileiros na música erudita de vanguarda.
Como professor e agitador cultural fundou o Grupo de Música Viva em 1938, cujo compromisso era com o desconhecido, o contemporâneo e a renovação. Fundou em 52 a Escola Livre de Música, em São Paulo, e foi um dos diretores da Escola de Música da Universidade da Bahia, no fim da década de 50 - uma das experiências mais radicais do ensino de arte, até hoje, no Brasil.
Tocou e lecionou na Europa, Ásia e EUA. Ensinou composição no Centro Internazionale di Música de Milão e no Instituto Internacional de Música de Darmstadt, Alemanha, onde estudaram Stockhausen, Berio e Boulez, por exemplo. Participou de congressos internacionais em Praga e na Suíça, com outros músicos de vanguarda, como Jonh Cage. Além disto, recebeu da fundação Ford bolsa para estudar em Berlim (62) e atuou em Nova Délhi, Tóquio e Rio de Janeiro como diretor do Instituto Goethe.
Deu aulas e formou maestros, compositores, pianistas, músicos populares e eruditos tais como Tom Jobim, Tom Zé, Cláudio Santoro, Diogo Pacheco, Isaac Karabitcheviski e Guerra Peixe, por exemplo.
Três preceitos básicos orientam sua atividade didática: 1) não há valores absolutos, só relativos. 2) não há coisa errada em arte, o importante é inventar o novo. 3) não acredite em nada que o professor diz, em nada que você ler e em nada que você pensar; pergunte sempre por quê?
Seu pensamento e suas reflexões sobre música, arte e cultura continuam desencadeando processos e influenciando principalmente o modo de pensar das pessoas que tomam contato com o trabalho que o professor desenvolve. Segundo ele, o choque entre as idéias é gerador de consciência, pois é daí que pode surgir o elemento integrador capaz de superar o dualismo entre os opostos.
Para ele, o respeito aos pensamentos adversos e o debate das idéias podem dar ao homem um sentido maior de liberdade; O debate é a parte mais humana e criativa que existe em nós, costuma dizer. Deste modo, toma alguns conceitos da física e da filosofia, como a visão holística (Holos = Todo) do mundo e seus fenômenos, incorporando-os à sua linguagem artística, didática e musical.





