O SELVAGEM CORAÇÃO DA VIDA
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de dezembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
A partir do momento que os homens nascem, tem início a espera pela morte. Longa ou curta, trata-se de uma espera pontuada por um marco fixo, o dia do nascimento. A cada aniversário, a vida manifesta sua determinação em seguir adiante.
Algumas pessoas, por força do destino ou pelo vento da coincidência, acabam por morrer no mesmo dia em que comemoram o aniversário. São casos raros, mas deixam transparecer que o poder da vida é o mesmo da morte.
Outras pessoas acabam por morrer pouco antes de completarem o próximo e tão aguardado ano de vida. Exatamente no dia anterior, vinte quatro horas antes das velinhas e do bolo de chocolate. São casos mais raros ainda.
A escritora Clarice Lispector se enquadra nesses raros casos. Faleceu em 9 de dezembro de 1997, um dia antes de completar 52 anos de idade. Exauriu-se no leito de um hospital do Rio de Janeiro com as unhas do câncer arranhando todo o corpo. Se estivesse viva, estaria completando 75 anos hoje.
Mulher misteriosa e dama enigmática, deixou uma obra única na história da literatura brasileira. O tratamento narrativo que Clarice Lispector conferiu ao mundo interior do homem, com seus labirintos do espírito, algo extremamente peculiar e nunca visto nas letras tropicais.
Caçadora de êxtases da memória, foi categórica em afirmar que o exercício de viver é o ato de fabricar máscaras: Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego, uso uma máscara. Escolher a máscara é o primeiro gesto involuntário do ser humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.
Atingindo seu ápice, a máscara é atropelada por um outro processo: Cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Uma trajetória que circunda a morte para que a máscara renasça, revelando a vida como representação. A qualidade da escolha, o exercício da liberdade e até mesmo a horrível liberdade de não ser.
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1925, numa pequena aldeia da Ucrânia (URSS) chamada Tchetchelnik. Nasceu em trânsito, pois sua família, de origem judaica, estava fugindo do país com destino à América. Chegou ao Brasil com apenas dois meses de idade, passando a infância em Alagoas e Pernambuco. Aos doze anos mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade que se tornaria sua casa. Viveu vinte anos fora do país, passando pela Itália, Inglaterra, Estados Unidos e Suíça acompanhando o marido, diplomata de carreira.
Embora a data de 10 de dezembro de 1925 seja aceita de maneira geral, existem algumas divergências. Alguns pesquisadores afirmam que é muito difícil saber a data exata em que Clarice Lispector nasceu. Nas duas traduções que sua certidão de nascimento original, ocorreram algumas alterações. Uma delas registra o dia 10 de outubro de 1920, outra aponta 10 de dezembro de 1920.
Documentos escolares de Pernambuco assinalam outras datas, 21 de dezembro de 1931 e 10 de março de 1937. Alfredo Bosi em seu clássico História Concisa da Literatura Brasileira, assinala o ano de 1926 como data de nascimento da escritora. Para complicar, a própria Clarice Lispector nas últimas décadas de sua vida, passou a adotar diferentes datas de nascimento. Em algumas situações declarava que havia nascido em 1921, outras vezes dizia ter nascido em 1926, e outras ainda em 1927.


