O ''SE...'' DO CANALHA NACIONAL, SEGUNDO KIPLING - ARNALDO JABOR
O grande corrupto se constrói com fé e disciplina
Serás impune para sempre, um canalha brasileiro, meu filhoSe puderes manter a cabeça erguida, quando todos te acusarem, chamando-te de ladrão ou corrupto, por te terem pegado com a mão dentro da cumbuca, se mantiveres a aparente dignidade, se deres sorrisos de mofa mesmo diante de provas inabaláveis do teu crime e disseres com voz clara e serena: Tudo isso é uma infâmia sórdida de meus inimigos políticos ou ainda Não me lembro se esta loura de coxas douradas foi minha secretária ou não ..., se disseres isso sem suar, sem desmanchar a gravata, sem amarfanhar o paletó, com roupas impecáveis que não revelem o esterco que te vai dentro dalma, se fores capaz de chorar diante de uma CPI, ostentando arrependimento profundo, usando de tudo, filhos, pais, pátria, tudo para te livrar.. e, sobretudo, se puderes construir uma ideologia que te justifique e absolva, de modo que os atos mais sujos ganhem uma luz de beleza e coragem, se puderes dourar tua pílula, colorir teus crimes, musicar teus grunhidos, de modo que possas mentir com fé, trair sem remorsos e roubar com júbilo, se puderes convencer a ti mesmo de que Cristo, também injustiçado, compreende tuas fundas razões e te perdoa, se puderes crer, por exemplo, que tens direito de roubar o povo para vingar uma infância pobre, ou de que roubas por teres sido injustiçado por pai severo ou porque tua mãe foi lavadeira e prostituta para pagar teu diploma fajuto de business administration, se acreditares mesmo que tens direito de trair ou corromper ou tascar granas ou inventar precatórios ou superfaturar remédios de criancinhas com câncer porque também sofreste como menino comido por garotão mais forte no porão da tua infância, dor e delícia sempre negadas por teu machismo compensatório, se no fundo do coração, achas que roubar o Estado ou os Estados ou as prefeituras ou os camelôs ou os lixeiros ou os mendigos é, portanto, uma causa nobre e um ato quase revolucionário, que a mutreta, a maracutaia, mão grande, o apaga-a-luz, o me dá o meu aí têm algo de transgressão pós-moderna, quase uma performance artística, algo de Robin Hood para si mesmo, como dizes, soltando a piada há, há roubo dos ricos para o pobre aqui... há há, ou se, convocando uma ideologia conservadora, pensas que a roubalheira sempre houve na humanidade, ou seja, que metes a mão por amor à tradição, por uma poética saudade do passado, como se ama uma antiguidade, um vaso Ming ou um abajur art deco ou se, por mais político ou ideológico, disseres a ti mesmo que roubas porque neste fim-de-século, a globalização da economia e o imperialismo nos assaltam e que tu tascas antes deles, num ato nacionalista tipo antes eu do que eles, ou se, em homenagem ao passado populista, plagiares antigos slogans ademaristas e, mirando teus viadutos superorçados, disseres baixo a ti mesmo: Roubo, mas faço... ou se te orgulhares de ter instaurado a gorjeta, a mixaria, o serviço de 25% ao invés dos humilhantes 10% do passado pré-Collor, enquanto enfias a língua na orelha da lobbista gostosa ao teu lado no Piantella de porre e feliz ou se justificares tua fortuna escrota por motivos mais científicos, invocando Darwin ou Spencer, declarando que o animal humano sobrevive pela agressão e competição (survival for the fittest) e que portanto, assim como o chimpanzé ataca o mico-leão ou como o jacaré come o veado ou como a fêmea do louva-deus o devora como uma Nicéa enlouquecida ou como a formiga escraviza pulgões e rouba-lhes o leitinho, também cumpres a ordem natural das coisas, concluindo com erudição Roubo sim, pois isto está inscrito no genoma dos hominídeos há 50 milhões de anos ou ainda, se mais metafísico ou filosófico, contemplares o crepúsculo e lamentares melancolicamente que acabou o tempo das utopias.. ou a vida é uma ilusão dos sentidos e, portanto, roubo sim e caguei.. ou ainda, se num gesto de infinita superioridade existencial ou literária, invocando Villon ou Jean Genet, assumires tua fisionomia de rato ou de preá, tua carinha embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins, babaganuches, se puderes erguer o queixo diante do espelho ou diante de amigos como fez o grande (raro gesto) Sérgio Naya em videotape ou o inesquecível PC que cunhou a frase eterna 10% é pra garçom..., se te orgulhares de tua esperteza e, de cuecas diante do espelho, enquanto a amante se lava no banheiro, berrares com júbilo: Êta garoto bão, espertalhaço! ou seja, se diante de si e do mundo, puderes enfunar a barrigona cheia de merda e dizer: sou ladrão sim, mas quem não é? ou podem me acusar, mas quem tem este Renoir? se puderes cultivar todos esse méritos, se puderes justificar com serenidade tua vida de estelionatos, pequenos furtos, orelhas de traficantes ou até mesmo de esquartejamentos com motosserras, (Esquartejo sim, mas por bom motivo...), se puderes fazer tudo isso, confiante nos teus advogados sempre alertas como escoteiros na pilhagem nacional, confiante na absoluta conivência de rituais jurídicos que sempre te livrarão da cadeia, enquanto os pardos pobres apodrecem nas celas com Aids e quentinhas superfaturadas pelo marido da perua louca, e se, além da confiança na cega Justiça, no manto negro dos desembargadores que sempre te acolherão, se, além deste remanso, deste consolo que te encoraja, roubares mesmo, no duro, por amor à causa, por paixão, por desejo sexual, pela bruta tesão de acumular o máximo de dólares para nada, pela fome de lanchas, jatos, putas, coberturas, Miami, Paris e se, com fé e coragem, reconheceres este prazer com orgulho e sem remorsos, então, eu te direi, com certeza, que vais herdar a terra toda com todos os dinheiros públicos dentro e, mais que isso, eu te direi que serás sim, impune para sempre, um extraordinário canalha brasileiro, meu filho!!....





