O sátiro e o santo
'Boca do Inferno', romance histórico de Ana Miranda sobre Gregório de Matos, recebe edição comemorativa de 30 anos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de outubro de 2019
'Boca do Inferno', romance histórico de Ana Miranda sobre Gregório de Matos, recebe edição comemorativa de 30 anos
Marcos Losnak 
Em setembro de 1989 chegava às livrarias o primeiro romance da escritora cearense Ana Miranda. Apesar de figurar como obra de autora iniciante, “Boca do Inferno” se tornaria emblemático dentro do gênero romance histórico da literatura brasileira. Representou uma revitalização do gênero.
Superando expectativas, o livro vendeu milhares de exemplares, ganhou o prêmio Jabuti 1990 e foi publicado em mais de 13 países. Além de impulsionar a carreira literária de Ana Miranda, colocou em evidência a historiografia brasileira como matéria pouco explorada na ficção.
Para celebrar a data, a editora Companhia das Letras está colocando nas livrarias a edição comemorativa dos 30 anos de “Boca do Inferno”. Uma leitura que favorece constrangedoras conexões entre o Brasil do século 17 e o Brasil dos dias atuais.

O grande protagonista de “Boca do Inferno” é o poeta baiano Gregório de Matos (1636 – 1696), principal representante literário do barroco brasileiro. Outro protagonista é padre jesuíta português Antônio Vieira (1608 – 1697), outro representante do barroco brasileiro.
A partir de um fato histórico, Ana Miranda utiliza elementos ficcionais para narrar uma violenta disputa de poder sobre a Bahia de Todos-os-Santos (atual região da cidade de Salvador). Os bastidores de uma política colonial regido por leis escusas e interesses desprovidos de ética.
Na época, como mandatário do reinado português, Antonio de Souza Menezes (também conhecido como Braço de Prata) ocupava o cargo de governador da Bahia. Liderando posição ao governador estava Bernardo Videira Ravasco. No grupo que apoiava Bernardo Ravasco estava Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira, que era irmão de Bernardo e combatia a escravidão dos indígenas.
Em “Boca do Inferno”, Ana Miranda realiza um retrato do Brasil do século 17 a partir de um recorte, de um lugarejo. Um lugar de disputa de poder que envolve um tirano sanguinário e seus oponentes que procuram a resistência.
A grande percepção da autora está em colocar os dois personagens principais, mesmo com visões antagônicas, dialogando sobre princípios comuns. Sobre política. De um lado está Gregório de Matos, um devasso poeta satírico que ironiza todas as hipocrisias do clero, do judiciário e dos governantes. De outro lado está Padre Antônio Vieira, um asceta que elege a moral do catolicismo como diretriz existencial.
Nas palavras de Padre Vieira, por exemplo, o Brasil se perde nas unhas escorregadias dos governantes: “O problema do Brasil é que nada que se faz aqui de arbitrário e injusto chega aos ouvidos de Portugal. Também os roubos aqui parece que não são reparados lá na metrópole. O Brasil, aliás, não passa se um retrato e espelho de Portugal, seara dos vícios sem emendas, do infinito luxo sem cabedal e todas as outras contradições do juízo humano.”
Nas palavras de Gregório, tanto os governantes, quanto os homens do judiciário, passeiam pelo mesmo caminho: “Os desembargadores ganham perto de seiscentos mil réis de ordenado. Fora as propinas. Os emolumentos chegam a mais de cem mil réis, mas eles solicitam gratificações para a festa das onze virgens e outras festas. Sem contar as taxas que cobram por serviços especiais e o que ganham em comissões ou visitas, pode ser que chegue a mil e duzentos. Eles pedem para receber o mesmo que recebem no Desembargo do Paço em Lisboa.”
30 anos atrás uma das críticas que “Boca de Inferno” sofreu foi sobre a falta de distinção entre elementos historiográficos e elementos ficcionais. Isso porque Ana Miranda incorporava, na narrativa do romance, tanto a linguagem literária de Gregório de Matos quanto a linguagem de Padre Antônio Vieira. E também porque fazia uso de citações literais, ou aproximadas, dentro da própria narrativa sem sinalização daquilo que seria fonte original. Uma prática totalmente comum na linguagem da literatura contemporânea.

Serviço:
“Boca do Inferno”
Autora – Ana Miranda
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 336
Quanto – R$ 54,90


