O SAMBA NA VOZ DE UM BAMBA
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Sempre que ia trabalhar, Guilherme de Brito passava por um bar que já ou ainda estava lotado de gente ouvindo Nelson Cavaquinho tocar. Um dia, foi audacioso. Mostrou ao sambista uma composição que fizera, A Garça. Nelson gostou e acrescentou um novo trecho à música. Foi a primeira parceria de uma dupla que durou 40 anos e acabou apenas com a morte de Nelson Cavaquinho, em 1986.
O samba de Guilherme de Brito ficou guardado em uma pasta cinza, onde sua esposa armazenou as letras que o tempo não devorou. As melodias ficaram incrustadas na memória. Ambas, melodias e letras, aguardaram décadas pelo interesse das gravadoras. Agora, às vésperas de completar 80 anos, Guilherme de Brito conseguiu, finalmente, lançar o seu primeiro CD com distribuição nacional.
Samba Guardado chega às lojas pela Lua Discos com caráter histórico. Além de ser o primeiro disco oficial de Guilherme de Brito, traz nada menos que sete inéditas com o parceiro Nelson Cavaquinho. Brito já lançou dois álbuns que não chegaram ao grande público: um homônimo independente, na década de 80, e outro em 1992, pelo produtor Tanaka, gravado para o público japonês.
Autor dos versos Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor, Guilherme de Brito mantém em seu disco as características da parceria com Nelson Cavaquinho: a veia sentimental expressa em versos diretos, o conflito entre bem e mal, o apego religioso, a desilusão amorosa, o elogio da boemia, o samba de letras concisas e melodias bem resolvidas.
A voz aparece com menos vigor do que em 1973, quando Guilherme de Brito gravou pela primeira vez o próprio canto, em um disco de Nelson Cavaquinho. A parceria era movida a uma fidelidade conjugal. Ambos não podiam compor com outros sambistas. Essa colaboração rendeu clássicos como Folhas Secas e A Flor e o Espinho.
Samba Guardado traz instrumental de primeiro time, com Paulão e Carlinhos Sete Cordas nos violões, Roberto Marques no trombone, e Beto Cazes, Esguleba e Trambique na percussão, entre outros. As participações especiais reúnem Nelson Sargento, parceiro de Brito em Jogo Desonesto, Luiz Melodia em Maria (Guilherme de Brito), e Cássia Eller em Erva Daninha (Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho). A produção é do compositor e violonista Moacyr Luz.
Bem humorado, Brito afirma que este é o melhor momento de sua vida. Nesta entrevista exclusiva à Folha2 ele fala de seu novo trabalho, da parceria com Nelson Cavaquinho e da música brasileira.
Como foi produzir Samba Guardado?
Eu não esperava que isso fosse acontecer no fim da minha vida. Vou fazer 80 anos em janeiro. Já lutei muito e não consegui gravar. Veio o Moacyr Luz (sambista e produtor) em casa, eu assinei um contrato com a Lua Discos. Foi muito emocionante. Eu estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. Não esperava por isso e fiquei muito agradecido.
Por que você ficou tanto tempo sem gravar?
Não sei o porquê. É muito difícil, não há interesse das gravadoras, só querem saber dessa mocidade de hoje. Eu já estava acostumado com isso. Meu último disco é de 1992, produzido pelo Tanaka (lançado no Japão). Essa música moderna não diz nada, eu já estava conformado. É o primeiro disco comercial da minha carreira, foi uma surpresa.
Ficaram muitas composições de fora do CD?
Ah, ficou muita coisa. Foram 40 anos compondo com Nelson Cavaquinho. Muita coisa ficou esquecida. O segundo disco vai ficar melhor (o contrato com a Lua Discos prevê a gravação de três CDs), mais descontraído. Eu cheguei a chorar no estúdio. Depois, vendo a alegria do Paulão (violonista) e do Moacyr... Foi muito emocionante.
Mas você já havia gravado um disco na década de 80...
Não teve nenhuma divulgação. Foi tudo particular, difícil de divulgar. O primeiro disco comercial da minha vida é esse. Vou fazer o show de lançamento, que ainda não fiz. O disco está nas lojas, tem lugar aí que já esgotou.
Como você se lembrou dessas parcerias com o Nelson Cavaquinho?
Quando comecei a compor com o Nelson, nem ele e nem eu escrevíamos a música. Tínhamos que decorar e muita coisa se perdeu. Um dia fui lembrando e minha mulher escreveu. Tem muita coisa inédita ainda. Pela letra eu lembro da melodia.
Como era compor com o Nelson?
Ele fazia a letra e música e eu também comecei fazendo letra e música. Não sei por que um dia ele propôs para compormos juntos. Então ele fazia a primeira parte e eu a segunda, ou então o contrário. Ultimamente eu fazia mais as letras e ele as melodias.
Você sempre foi cantor, mas sua voz só aparece em disco em 1973, quando Nelson Cavaquinho o apresentou.
Eu era um cantor modesto da rádio Vera Cruz quando era rapaz. Procurava imitar o Orlando Silva. Esse disco que você falou é do Nelson. Eu estava em São Paulo e ele disse: o Guilherme vai gravar. Eu fiquei muito feliz porque foi a primeira vez que minha voz foi gravada em um disco.
Como vocês se conheceram?
No botequim São Jorge, em Ramos (no Rio de Janeiro), antes de ir trabalhar eu via aquele aglomerado para ver o Nelson. Um dia me atrevi. Eu queria alguém que me ajudasse, cantei A Garça e ele fez a segunda parte. Eu não esperava que ele aceitasse. Foi assim que começou. A parceria foi até o fim da vida dele, durou 40 anos. Pelo menos toda a semana no Cabaré dos Bandidos, na Praça Tiradentes, nos encontrávamos e a noitada terminava sempre com uma música nova.
E depois que o Nelson morreu?
Eu tinha vontade de compor com o Cartola, o Nelson Sargento e o Monarco, mas não podia. Depois que ele morreu comecei a compor com outros parceiros. Você sabe, o cara que tem a mania de compor não pára. Hoje está mais devagar, porque eu gosto de pintura a óleo. Parei de pintar porque operei de catarata. Mas vou continuar compondo, não é como antigamente, mas vou fazendo meu repertório para o próximo disco, se Deus quiser.
Quem definiu as participações de Cássia Eller e Luiz Melodia?
Quem arrumou foi o Moacyr. O Melodia eu já conhecia de vista. A Cássia Eller eu conheci na gravação e fiquei encantado com ela. O Melodia também é muito agradável.
Você é de Vila Isabel. Chegou a conhecer Noel Rosa?
Conheci Noel Rosa mas não convivi com ele porque eu era moleque. Passava no botequim e via o Noel. Eu conheci a mãe e a casa dele. Não tinha acesso a Noel, mas já o admirava. Quando eu era garoto meu pai tocava violão em casa. Alguns seresteiros iam até lá, eu pedia para tocar e meu pai me deu um cavaquinho. Eu saía com o cavaquinho e um carvão no bolso, porque eu gostava de desenhar na calçada da Dona Carlota, que era limpinha. Tinha a revista Tico Tico e eu reproduzia os personagens na calçada da Carlota. E o português da quitanda me pedia para cantar. Eu cantava alguma coisa e ele me dava uma fruta. Já era um cachezinho.
O que há de bom na música brasileira atual?
Acho bonita essa música caipira. Gosto de apreciar as letras. Hoje é tapinha, bundinha... Eu não vejo nada de bonito nisso. A música caipira tem uma letra bonita. O samba vai mal porque está bagunçado, isso não tem poesia.


