O samba inacabado de Welles
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domingo, 10 de fevereiro de 2002
Rodrigo Souza Grota Reportagem Local 
Em 1942, era realizado um filme que mudou a trajetória do maior cineasta da história, provocou a morte de um líder popular brasileiro e antecipou o modelo narrativo de muitas cinematografias em todo o mundo. Entretanto, esse filme permanece desconhecido em outros países e no Brasil especialmente. O filme é Its All True (É Tudo Verdade), o diretor é George Orson Welles (1915-1985) e o líder popular é Jacaré, o pescador que conduziu uma jangada por 2.640 quilômetros em 61 dias unicamente para pedir ajuda ao então presidente da República Getúlio Vargas. Se você já está achando essa história extraordinária, outros detalhes irão deixá-lo mais incrédulo.
O ano era 1941. Os Estados Unidos estavam entrando na Segunda Guerra mundial. Desconfiado dos ânimos fascitas de alguns líderes da América Latina, o presidente Franklin Roossevelt sugere à indústria cinematográfica americana uma aproximação com essses países vizinhos. Nelson Rockfeller, um dos chefões da RKO, aceita a sugestão e pede a Orson Welles que desenvolva um projeto com histórias passadas no México e no Brasil. O orçamento de U$S 1 milhão era um pouco maior que o crédito concedido a Welles quando ele realizara Cidadão Kane e Soberba. Na tarde de 1º de fevereiro de 1942, o cineasta encerra sua participação no filme Jornada do Pavor (ele interpretava o coronel Haki à noite, enquanto durante o dia dirigia Soberba). Pede a Norman Foster para dirigir My Friend Bonito, episódio filmado no México, que será a primeira história de Its All True.
Em 4 de fevereiro, Welles parte de Miami para chegar ao Rio de Janeiro somente quatro dias depois. Na noite de 8 de fevereiro, mesmo sem os equipamentos de luz, o cineasta inicia em Technicolor a filmagem das festas pré-carnavalescas que começavam no Rio. O consultor tecnológico desse episódio, W. Howard Greene, consegue alguns holofotes emprestados do Exército brasileiro. De 13 a 17 de fevereiro, Welles prossegue as filmagens do carnaval com filmes em Technicolor e preto-e-branco, amparado por uma equipe mista de brasileiros e americanos. O roteiro, co-escrito por Welles e Robert Meltzer, pretendia mostrar toda a loucura que se instalava no Rio naquela época do ano: Filmar o Carnaval era tentar agarrar um furacão. Eles dormem algumas horas, levantam-se e voltam para a festa. São loucos. Ficam cansados, dormem, encostam-se em uma parede comentou o cineasta à época. O que mais o atraiu, no entanto, não foi a agitação do povo, e sim, um ritmo que desconhecia: Eu fiquei horrorizado por ter de filmar o Carnaval. Ao final, fiquei fascinado com o samba.
Sem nenhum interesse pelo Carnaval propriamente, Welles descobrira que a magia registrada pelas suas câmeras residia em um ritmo essencialmente brasileiro: Nunca tinha ouvido falar em Carnaval, ninguém tinha. Era apenas algo que acontecia lá no Rio. Fomos e filmamos tudo o que as câmeras podiam pegar. O importante nisso era principalmente o que tínhamos filmado e o que nossa equipe de pesquisadores conseguiu reunir a respeito do samba, que era na época uma arte moribunda assim como o jazz teria morrido em Nova Orleans se não tivesse subido o rio rumo a Chicago, e morrido de novo se os intelectuais franceses e, mais tarde, os intelectuais americanos não o tivessem adotado. O samba não foi adotado pelos intelectuais e agora está morto. Foi revivido, de modo muito interessante, como bossa nova, mas o puro e velho samba morreu, explicou o cineasta a Peter Bogdanovich no livro Este É Orson Welles.
O episódio, que se chamaria inicialmente Carnaval, tornou-se The Story of Samba. Mesmo destacando o samba, Welles percebeu muito do que havia por trás de nossa principal festa: Há quem desaprove o Carnaval por achar que se trata apenas de uma desculpa para bebedeiras... Eu estive no Rio, três anos atrás, para o último grande Carnaval naquela que é a maior cidade carnavalesca do mundo, e vi com estes dois olhos cerca de dois milhões de pessoas dançando e cantando (muitos não iam sequer dormir durante os três dias), e ninguém, em parte alguma, naquela enorme pândega parou de celebrar tempo suficiente para tomar um trago. O carnaval não é uma festa religiosa, mas é, fundamentalmente, a celebração de um povo religioso. Onde os cambistas tomaram conta, o Carnaval morreu. Onde o trabalho é tão duro que feriado signifca descanso, em vez de folia, Carnaval é só um termo para designar um espetáculo circense, escreveu o diretor em 13 de fevereior de 1945 no jornal New York Post.
Nessa época, Welles conheceu um amigo que manteve por toda a vida Sebastião Bernardes de Souza Prado, o nosso eterno Grande Otelo. O comediante havia composto ao lado de Herivelto Martins a canção Adeus Praça Onze, música que seria tema do episódio sobre o Carnaval. A letra narrava o fim da famosa praça Onze, espaço de tantos carnavais mitológicos do começo do século, transformado por Getúlio em um bulevar. Welles incorporou a canção a seu documentário, e passou a atrair a atenção do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. O cineasta reconstruiu a praça nos estúdios da Cinédia, contratou dançarinos e reviveu os antigos carnavais. Um fato curioso foi a breve paixão que acometeu Welles ele se interessou por Lolita, uma dançarina que na época namorava o então estreante Anselmo Duarte.


