Londrina

DivulgaçãoSimone Moreno: ‘‘Comecei cantando samba reggae e isso me limitava muito. Eu queria ampliar meus horizontes como intérprete’’Quando a coisa toda parecia indo ladeira abaixo eis que surge ela bela, morena e, principalmente, cantando bem. E o que é melhor: com um estilo mais compatível com sua voz agora bem mais aprimorada. Simone Moreno disse adeus às ilusões do axé-music e agora bate cabeça para o samba. Sim, ao samba. Mais especificamente no belíssimo ‘‘Manda me Chamar’’ (WEA) que tem o dedo do produtor Rildo Hora, um midas do mercado fonográfico. E o milagre, claro, se fez. Ou seja, ele transformou Simone Moreno numa sambista de categoria dando-lhe a incumbência de gravar, inclusive, alguns dos baluartes do samba.
No disco encontram-se, por exemplo, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Ataulfo Alves, Sombrinha ao lado de compositores contemporâneos como Moacyr Luz e Moraes Moreira, por exemplo. Todos muito bem tratados. Como intérprete, Simone Moreno impressiona mesmo que ainda lhe falte um pouco de grave e, em alguns casos, se faz necessária uma assepsia nos agudos. Porém, o mais importante dessa história toda: Simone leva jeito para coisa. Convence.
Logo de cara, na primeira faixa, a cantora diz ao que vem na deliciosa ‘‘Manda me Chamar’’ (Noca da Portela-Toninho Nascimento). Nas outras 11 faixas, há outros momentos preciosos como a deliciosa ‘‘Xô, Chuva Miúda’’ (Martinho da Vila), ‘‘Eterno Salvador’’ (Sombrinha-Franco). Cabe, no meio da sambança, até mesmo um baiãozinho - ‘‘Amoroso Coração’’ (Gloria Gadelha).
O que soa assim, assim é ‘‘Medalha de São Jorge’’ (Moacyr Luz-Aldir Blanc) transformada num sambão daqueles. Explica-se: a canção chega a assustar quem já a ouviu anteriormente na voz de Maria Bethânia (que a transformou praticamente numa oração) e pelo próprio Moacyr Luz (que também optou por um clima intimista). Fica assim: para quem não conhecia a música, vale pela belíssima letra e ponto final.
Isso, no entanto, não tira o mérito do trabalho.‘‘Manda me Chamar’’ é um ótimo disco de samba que finalmente coloca Simone Moreno no que parece, agora, ser seu habitat natural. Experiências anteriores já davam sinais de que a coisa toda poderia descambar por esse caminho. Nos dois discos solos anteriores ela já dava provas de que a paquera com o gênero, mesmo discreta, era pra valer. E, quem diria, acabou em casamento. Viva a noiva e viva o samba!!
HorizontesSimone Moreno confiou - e não teria por que desconfiar - em Rildo Hora na escolha do repertório e na produção do disco. Ele ouviu, segundo ela, quase 500 músicas para montar o CD. Um ano de trabalho, dois meses de estúdio e ‘‘Manda Me Chamar’’ saía do forno com o aval, no encarte, de Martinho da Vila que a ela dedicou nobres palavras: ‘‘Estou descobrindo uma sambista vibrante (...) Certamente seria sucesso como manequim nas passarelas da vida, mas Deus também a prendou com um voz privilegiada e o seu destino é encantar palcos do mundo’’- escreveu Martinho.
Por todo o disco é possível constatar a forte influência de Clara Nunes, embora Simone Moreno cite também Elza Soares, Elizeth Cardoso e Maria Bethânia como algumas de suas fortes referências musicais. ‘‘Comecei cantando samba reggae e isso me limitava muito. Eu queria ampliar meus horizontes como intérprete’’- admite a cantora que, logo no primeiro disco, chegou a ser apontada, por uns, como rival e, por outros, como papel carbono de Daniela Mercury.
Até que tentou ser musa do tal axé-music. Foi sensação de verão. Mas sensações duram pouco e o jeito foi buscar caminhos alternativos (ou tortuosos) no disco seguinte que pode ser resumido numa só palavra: salada. Agora, tornou-se uma sambista. ‘‘Sou uma cantora nova, tenho muito que aprender. Se a partir de agora as pessoas me virem como uma sambista será uma honra carregar esse título’’- admite.
Se ela é ou está sambista, pouco importa. O fato relevante é que Simone Moreno entrou de sola no pedaço e de maneira digna. Seria fácil entrar via pagodinho de FM, vender alguns milhares de disco e pronto mas não; entrou com nobreza. ‘‘O meu samba é mais raiz’’- resume. Que assim continue nos próximos trabalhos.

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