Ninguém sabe direito como e quando o movimento começou, mas o certo é que o samba, com todas as designações que costumam lhe dar os entendidos, vem dando a volta por cima e se firmando, a cada dia, como o gênero musical preferido de boa parte dos brasileiros. Prova disso são as vendagens de discos cada vez mais surpreendentes de grupos de pagode ou ‘‘samba romântico’’ como o Só Prá Contrariar, Negritude Junior e Molejo; a abertura de casas de shows que têm no samba a sua peça de resistência e o predomínio na programação das rádios FMs tidas como populares.
Pode-se contabilizar ainda o sucesso de veteranos ‘‘de raiz ou autênticos’’ como Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Alcione e Paulinho da Viola, cujo penúltimo CD ‘‘Bebadosamba’’, lançado no final de 96, vendeu um milhão de cópias, dando ao artista o primeiro disco de ouro de sua carreira e a oportunidade de, pela primeira vez, pisar no palco do Canecão, no Rio.
O fenômeno não é específico do eixo Rio-São Paulo e tampouco se limita à classe social menos privilegiada. Estende-se praticamente por todo o Brasil assim como ginga com desenvoltura nas classes A e B. Não satisfeito, já se prepara para atravessar fronteiras. O Só Prá Contrariar, que vende em média 250 mil cópias por mês, entrou em estúdio semana passada, em Madri, para gravar seu primeiro CD em espanhol. O disco será distribuído a partir de maio na América hispânica. Todo esse movimento indica que o samba, outrora marginalizado, está renascendo.
O compositor e pesquisador Nei Lopes, autor do livro ‘‘O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical’’, prefere não falar em renascimento, mas em nova visibilidade. ‘‘Os shows e rodas de samba existem por toda a cidade desde pelo menos os anos 50, da boate Night and Day ao Zicartola, passando pelo Scala, Clube Renascença e chegando ao Asa Branca. Da mesma forma, os pagodes nunca deixaram de existir, desde a época da ‘‘Tia Ciata’’. O ponto central da questão, inclusive quanto à execução do samba nas rádios e TVs é uma nova visibilidade, e não renascimento’’ - afirma.
Questão semântica à parte, o fato é que o gênero musical samba, de há aproximadamente cinco anos para cá, subverteu alguns padrões da indústria fonográfica e da mídia. Na Rádio 98 FM, do Rio, há 13 anos a primeira em audiência, da play list de 40 músicas que tocam massivamente durante todo o dia, 60% são samba (entenda-se aí de ‘‘raiz’’ e ‘‘romântico’’). ‘‘Eu diria que os sambistas foram comendo pela beirada, desbancando inclusive os sertanejos’’, assegura Renan Miranda, gerente de programação do Sistema Globo Rádio-Rio. Em São Paulo o quadro não é diferente. As rádios Cidade e Transcontinental dedicam mais de 70% de sua programação ao ritmo.
As cifras movimentadas são astronômicas. ‘‘O que segura as gravadoras hoje são os grupos de pagode’’, informa a assessoria de imprensa da gravadora Continental, que tem entre cast de artistas os grupos Molejo, com cerca de um milhão de cópias vendidas de seu último CD ‘‘Brincadeira de Criança’’; Katinguelê, que com o ‘‘Mundo dos Sonhos’’ vendeu 700 mil discos e o menos concorrido Sensação, na marca dos 200 mil. Na EMI, o Negritude Junior, Exaltasamba, Art Popular e Soweto responderam, juntos, por 28% do faturamento da gravadora no ano passado.
Mas a galinha dos ovos de ouro entre os pagodeiros é o grupo Só Pra Contrariar, o SPC, contratado da BMG, que já vendeu 2,5 milhões de cópias de seu último CD e deve atingir a marca dos três milhões até março. Se conseguir, levará para casa um disco de diamante triplo, façanha alcançada por raros artistas nacionais.

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