O samba como celebração
A inspiração para gravar ''Universo ao Meu Redor'' veio de seus contatos com os compositores da Velha Guarda da Portela, dos quais produziu CDs nos últimos anos. Mas foi além, dando início a um levantamento do samba carioca antigo, como ela revela no DVD promocional: ''Sabia que existia uma grande quantidade de músicas inéditas que sobrevivia apenas na tradição oral, que estava apenas na memórias das pessoas e que estava se perdendo. Fiz uma pesquisa. Conversei com os compositores, com seus parentes e parceiros''.
Depois, ela convidou vários bambas para gravar informalmente em seu estúdio. Descobriu um mundo peculiar: ''Nesse universo, muitos compositores não são músicos profissionais, principalmente entre o pessoal da velha guarda. Você encontra ali técnico de refrigerador, feirante, pedreiro, enfermeira. Eles faziam samba como uma celebração da vida, para falar de suas dores, sofrimentos, para falar da natureza e da própria música. Eles faziam sem segundas intenções, não para tocar em rádio, para estourar, para ser hit, para vender. O cara faz porque precisa tirar aquilo de dentro dele''.
Do que registrou em seu estúdio, peneirou algumas composições para o disco. Excluiu a maioria das músicas pelo teor masculino das letras. De toda a pesquisa, aproveitou faixas de Casemiro Vieira (''Perdoa, Meu Amor''), Argemiro Patrocínio (''Lágrimas e Tormentos'') e Jayme Silva (''Meu Canário''). Incluiu também inéditas de Paulinho da Viola, Dona Yvonne Lara, Adriana Calcanhotto, Moraes Moreira & Galvão e uma parceria com David Byrne e Fernandinho Beat Box na canção mais fraca do disco (''State of Liberty'').
Completou o repertório com sambas assinados em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. ''Não sou uma cantora de samba, nem queria me tornar uma'' explica ela, no DVD. ''Queria fazer um disco meu, de repertório de samba, com as minhas referências sonoras, com as coisas que acho interessantes. Por isso, eu não o vejo como um disco de samba, mas um disco com a atmosfera do samba, que fala da condição humana, da solidão, do amor, os temas mais frequentes do universo do samba. Acho que conseguimos fazer um disco clássico, elegante, mas com uma sonoridade contemporânea''.
De fato, ''Universo ao Meu Redor'' respeita a tradição, mas não se prende a purismos empoeirados. Tanto que, para produzir o álbum, Marisa recrutou Mario Caldato brasileiro radicado nos Estados Unidos que já trabalhou com Beastie Boys, Beck e Jack Johnson. Com exceção da já citada ''State of Liberty'' e da deslocada ''Três Letrinhas'' (composta por Moraes Moreira e Galvão em 1969), mais para canção do que para samba, prevalece uma homogeneidade no material reunindo várias canções excepcionais.
O disco abre com um sample da ''Voz da América'' narrando a chegada do homem à lua na faixa-título. Na deslumbrante ''O Bonde do Dom'', também escolhida acertadamente para ser a música de trabalho do CD, o instrumental combina violão e ukelele com órgão farfisa, baixo elétrico e hammond. Os encontros improváveis de timbres pontuam todo o disco, o que provocará certo estranhamento em ouvidos tradicionalistas.
Quem imaginaria Paulinho da Viola tocando cavaquinho entre tubas, fender rhodes (piano elétrico muito popular nos anos 70) e beat box (percussão feita com voz muito utilizada no rap)? É o que está presente em ''Quatro Paredes'' (''Eu só não te convido para dançar / Porque eu quero encontrar com você em particular / Há tempos tento encontrar um bom momento / Alguma ocasião propícia / Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus / Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus'').
Há ainda harpa cruzando com cuíca em ''Perdoa, Meu Amor'', cavaquinho em harmonia com mini-moog e vibrafone em ''A Alma e a Matéria'' e ainda theremin e clavinete convivendo com violão, tamborim e reco-reco em ''Lágrimas e Tormentos''. Uma reunião inusitada de instrumentos espanta os desavisados também em ''Satisfeito'' (''Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho / Vivo tranquilo, a liberdade é que me faz carinho''). Tais licenças, contudo, não subvertem o gênero. Apenas lhe aplicam uma lufada sutil de modernidade.
Os dois CDs estão saindo simultaneamente em Portugal, Espanha, México, Chile, Colômbia e Argentina. Em abril, chegarão a mais 38 países europeus, e em agosto, nos Estados Unidos, onde a cantora excusionará a partir de novembro. A turnê, batizada ''Universo Particular'', estréia dia 28 de abril no Teatro Guaíra, em Curitiba. Depois segue para o Rio Grande do Sul, São Paulo (maio) e Rio de Janeiro (julho, após a Copa do Mundo).
(N.S)





