O Salão e o alfabeto visual
Rubens Pileggi Sá
Especial para a Folha2
A discussão valorativa sobre obra de arte sempre foi feita sobre um terreno escorregadio, em que entram em cena desde aspectos subjetivos - que dependem de intuição e sensibilidade - até questões puramente técnicas e formais, contando basicamente com o conhecimento e capacidade daquele que escolhe o que é melhor ou não para uma determinada situação.
A função do crítico, curador ou mediador de arte - que é aquele que faz a intermediação entre a obra de arte e o público - está além de descobrir novas tendências ou talentos no mundo da arte. Deve ter como meta, também, definir, agrupar, reunir conceitualmente uma visão particular a partir das obras dos artistas.
Há casos em que a vulgarização dessa questão, transforma esse mediador em protagonista do circuito artístico. Uma espécie de ditador de critérios, levando alguns artistas a criar seus trabalhos de acordo com seus pontos de vista. Há uma categoria, inclusive, que só cria a obra depois de saber a tendência do lugar, ou quem irá selecionar o que será exposto. Arte de resultados!
As artes plásticas às vezes dão a impressão de necessitar mais desse tipo de intermediadores do que as outras artes. Como se a linguagem plástica tivesse chegado a um hermetismo que necessitasse, antes de vê-la, ler a bula para entender do que se trata. No início do modernismo o artista dizia que arte é aquilo que eu digo que é arte. Hoje essa frase parece estar na boca do crítico.
Só parece, porque o bom trabalho se impõe independente dos interesses em jogo. Basta visitar o 4º Salão de Artes Plásticas de Londrina, na Secretaria de Cultura, aberto ao público até o dia 30 de setembro. Os trabalhos premiados estão todos de acordo com as regras do alfabeto visual; seja quanto a forma, técnica utilizada, apresentação, pertinência temática, etc.. E também porque expressam sensivelmente sua condição de obra de arte.
O primeiro andar da Sala Teodoro, principalmente, é o mais enxuto e coeso das três salas por onde se distribuem as obras selecionadas. Nas outras duas salas há um excesso de trabalhos preenchendo as paredes da exposição, em que a maioria não se justifica pela qualidade. Há um flagrante amadorismo de algumas peças apresentadas e uma confusão conceitual entre arte, artesanato e decoração. Prejudicando, inclusive o discernimento entre alguns ótimos trabalhos em meio àqueles outros.
Como resultado de ação mediadora, o Salão de Londrina deve ser saudado como um evento de estímulo à criação artística, embora deva investir também em ação educativa, melhoria de infra-estrutura e, principalmente, ter sua continuidade garantida. Somente a prática da experiência valida seu processo.
Assim como no teatro, na dança e na música, Londrina poderá vir a ser um pólo de referência das artes plásticas no Brasil.
- Rubens Pileggi Sá é artista plástico





