O sacrifício cristão é o tema de "À Espera de um Milagre"2/Mar, 16:20 Por Antônio Gonçalves Filho São Paulo, 02 (AE) - A fé é irracional, o que reduz qualquer discussão sobre ela à mais completa esterilidade. Sendo assim, convém não esperar de "À Espera de um Milagre" a revelação do dom miraculoso que um condenado à morte tem de salvar vidas. Nessa história, adaptada de Stephen King, o sacrifício cristão é mesmo o assunto principal do filme. Os últimos passos do condenado John Coffey em direção à cadeira elétrica constituem mesmo as estações da via-crúcis. Seria lícito esperar que um tema como esse resultasse numa obra-prima como "Sentado à Sua Direita", do italiano Zurlini, em que o sacrifício de Cristo também é imposto a um prisioneiro negro. Mas "À Espera de um Milagre", apesar de bons momentos, não é Zurlini. Frank Darabont, diretor de "Um Sonho de Liberdade", traz as marcas do dualismo cartesiano. Ou melhor, do dualismo americano. Precisa de mocinhos e bandidos. Seu Cristo negro, um gigante de dois metros acusado de violentar e matar duas crianças, é inocentado pelo guarda da prisão Paul Edgecomb (Tom Hanks) desde a primeira troca de olhares. Sua história é relembrada por esse guarda aposentado, agora vivendo num asilo para idosos. Nessas memórias estão um velho prisioneiro francês com seu ratinho amestrado, um guarda sádico, um psicopata preso e uma mulher com um tumor no cérebro, mas o principal personagem deveria ser mesmo o gigante miraculoso condenado à cadeira elétrica. O verbo está no condicional porque Darabont resolve transferir para o guarda Paul a tarefa de juiz e algoz, testemunhando os milagres de John Coffey (Michael Clarke Duncan) sem poder poupar o Cristo negro, preso num estado racista e encerrado numa prisão sulista. A longa duração do filme traduz a intenção nada modesta de realizar um épico, mas ela apenas revela a falta de timing do montador Richard Francis-Bruce. A direção abusa de efeitos um tanto rudimentares e o veterano compositor Thomas Newman perde a imaginação ao citar colegas (Jack Nitzche na sequência do asilo e Eddie Vedder na última caminhada de Coffey). O elenco tem bons atores (Harry Dean Stanton como o biruta Toot-Toot) e a produção é cuidadosa, mas tudo isso não garante um bom filme. Hollywood tem lá sua forma de tratar de temas como mediunidade e milagres. E ela passa invariavelmente pelo responsável em efeitos especiais.