O sabor universal de 'Lamen Shop'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge ,br> Especial para Folha 2 
É difícil, mas não impossível, que alguém no mundo jamais tenha experimentado 'ramen', a sopa japonesa que muda de nome para 'lámen' quando o modo de preparo é chinês. O fato muito concreto é que, conhecendo ou não, gostando ou não, você jamais sairá indiferente do cinema. A disposição do espectador, tocado pela riqueza da gastronomia e pela emoção gerada em fogo brando pelas intensas relações humanas propostas pelo filme, será no mínimo a de experimentar este e outros pratos que durante hora e meia desfilam na farta mesa de lembranças servidas pelo diretor Eric Khoo, nesta surpreendente e cativante alegoria sobre a memória, o perdão e o talento. Lançado no Brasil em julho, o filme estreia nesta quinta-feira (18) no Cine Com-Tour/UEL.

Masato (Takumi Saitoh), jovem chef de 'ramen' em Takasaki, tem a vida transformada após a morte do pai. Embora não mantivesse estreita relação com ele, quando encontra uma maleta com várias fotos e cartas e um diário da mãe, morta desde que ele tinha dez anos, Masato parte em viagem para Singapura, país de origem da mãe e onde ele viveu sua infância. Sua esperança é a de reconstruir a história de sua família e a dele. Ali ele conhece Miki, mãe solteira e blogueira de comida japonesa, alguém que vai ajudá-lo a localizar o irmão de sua mãe. Assim Masato vai se aproximando um pouco mais de suas origens, especialmente de sua avó Madam Lee (Beatrice Chien). O jovem chef vai paralelamente amadurecendo sua paixão pela cozinha, que passa obrigatoriamente por tradições familiares.
Nessa busca de raízes e, por que não, nesse acerto de contas com um passado familiar que não se sabe bem como foi processado, há muito de coisas já vistas e contadas em versões infinitas, em letras ou imagens, há esta parábola de redenção pessoal através daqueles que já se foram - os pais eram um casal formado por duas nacionalidades, o que coloca Masato numa espécie de limbo de pátria dupla em que vive, alguém que não é daqui e nem de lá. Basta uma rápida pesquisa wikipediana para aprender que Japão e Singapura têm um histórico de hostilidades, e que a identidade de Masato se encontra dividida. A ideia de Masato - aprender a cozinhar o prato nacional de Singapura, o 'bak kut teh', e importar a receita para o Japão de seu pai - revela que "Lamen Shop" fala de algo mais profundo do que o capricho e a gula, e que as lágrimas que a narrativa provoca tem quase nada a ver com picar cebolas.
Então, qual o menu? Uma viagem completa pela culinária asiática, do 'ramen' japonês ao 'bak ku teh' (costeletas de porco em sopa, acompanhadas de chá, temperos de Singapura, Malasia ou Taiwan, e que exige ao menos 11 horas de preparo), e mais as pistas do diário deixado pela mãe e não escondem as consequências de uma guerra devastadora (e qual não é ?).
"Lámen Shop" é um filme discreto que, mesmo com um estilo simples - há alguns tropeções sentimentais e a trilha musical adocicada não é propriamente uma ajuda - trabalha um argumento que de lança de dentro para fora, vencendo camadas. E o que começa como um melodrama que parece se encaminhar para o esquematismo piegas toma fôlego e se torna um drama poderoso que sabe encarar o interior dos personagens, uma família fraturada pelo peso da memória, mas afinal mantida unida pela devoção à melhor cozinha, mesmo além da morte, atingindo aquele momento inexplicável em que um sabor traz à memória um passado aparentemente perdido, mas redivivo.
O filme pode ser visto também como um apaixonante cartão portal de uma cidade (aqui jamais no sentido pejorativo), de seus costumes e de como a gastronomia, os sabores inéditos e o amor posto em uma receita criam lações familiares e pessoais. Todo o desenvolvimento da história - e aqui vale o talento de contador de histórias do diretor Eric Khoo - é estruturado e encaminhado para o grande fecho, o encerramento que o argumento pedia, cheio de nostalgia e sentimentos à flor da pele.


