As idéias do filósofo romeno E.M.Cioran voltam a circular no Brasil com o lançamento de dois livros – ‘‘Exercícios de Admiração’’ e ‘‘Entrevistas com Sylvie Jaudeau’’
Ninguém lê Cioran impunemente. Autor dos mais perturbadores aforismas de que se tem notícia desde Nietzsche, o pensador romeno volta a desafiar os brasileiros com sua amargura incurável.
Quinze anos depois da primeira edição, ‘‘Exercícios de Admiração’’ (Rocco) retorna às livrarias reunindo os textos que o filósofo escreveu sobre outros escritores. Simultaneamente, sai dos fornos o volume ‘‘Entrevistas com Sylvie Jaudeau’’ (Sulina), trazendo o último grande diálogo do mestre publicado na França.
Em ambos, sobressai a mesma lucidez depressiva que embriaga quem dela se aproxima. ‘‘A vida só é suportável se não formos às últimas consequências’’ – proclamou certa vez. ‘‘Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem a poesia conseguem corrigir’’ – disparou em outra ocasião. ‘‘Existir é consagrar um culto à insignificância’’ – repetiu mais adiante.
Cioran desenvolveu uma espécie de sabedoria da desilusão, uma visão crepuscular que considera o homem um fantasma sobre a terra. Tematizou o nada, meditou sobre o vazio, escreveu sobre a ausência de sentido da existência. Com verve apocalíptica, atacou um a um os pilares da civilização – as ideologias, o amor, a história, a ciência, a fé, a vida.
‘‘Minha juventude foi marcada por uma reação contra a Igreja, mas também contra Deus. Se me faltava fé, sobrava-me furor. Consegui até mesmo dissuadir meu irmão de fazer-se ordenar religioso, graças aos meus discursos implacáveis’’ – revela à certa altura a Sylvie Jaudeau. Cioran tampouco faz concessões à filosofia, ‘‘um refúgio nas idéias anêmicas’’, como gostava de definir.
No volume-entrevista que chega agora às prateleiras, ele conta que escreveu seu primeiro livro – ‘‘No Auge do Desespero’’’’ – como um adeus à filosofia, como a constatação do fracasso de uma forma de pensamento que teria resultado num passatempo divertido incapaz de enfrentar as questões essenciais. Ele lembra que, no período anterior, estava apaixonado pelos estudos e intoxicado pela linguagem filosófica.
‘‘Como não se deixar abater e mistificar pela ilusão de profundidade criada por essa linguagem? Traduzido em linguagem comum, um texto filosófico esvazia-se estranhamente. Seria preciso submeter todos a essa prova’’ – fulmina. O filósofo alemão Heidegger teria sido o responsável, às avessas, pela reviravolta em suas crenças. ‘‘Devo agradecer-lhe por ter conseguido, com sua prodigiosa inventividade verbal, abrir-me os olhos. Compreendi o que era preciso evitar a qualquer preço’’ – conclui.
A entrevista do livro é fruto de vários encontros que a autora teve com Cioran durante o ano de 1988. Na época, Sylvie escrevia um ensaio sobre o filósofo, de quem era amiga. Talvez por isso, tenha aproveitado a possibilidade da publicação do diálogo adicionando mais 43 páginas de reflexões com análises dos títulos do pensador.
Nesta revisão de obra, Sylvie resenha todos os livros de seu entrevistado, entre eles ‘‘Breviário de Decomposição’’, ‘‘Silogismos da Amargura’’, ‘‘História e Utopia’’, ‘‘No Auge do Desespero’’ e ‘‘Exercícios de Admiração’’. Neste último, que no Brasil foi traduzido por José Thomaz Brum, o eremita iconoclasta empreende uma leitura original e reveladora de autores tão diversos quanto Joseph de Maistre, Samuel Beckett, Henri Michaux, Jorge Luis Borges e Scott Fitzgerald.
Nas entrelinhas dos perfis, inscreve suas obsessões pessoais. Os textos servem para Cioran mostrar, nos personagens abordados, o estilo e o temperamento que admira. O livro foi publicado na França em 1986, nove anos antes de sua morte. Na época, tinha involuntariamente se transformado em guru da juventude ‘‘dark’’ européia.
Mas ele desprezava a fama. Em Paris, celebrizou-se como o mais refinado prosador contemporâneo de língua francesa ao mesmo tempo em que se consagrou como um dos três gigantes da inteligência romena ao longo do século 20 ao lado do dramaturgo EugSne Ionesco e do historiador Mircea Eliade.
Antivedete, sempre fugiu de homenagens recusando láureas conferidas pelos círculos literários. Em 1957, negou-se a receber o Prêmio Saint-Beuve pelo conjunto de seus ensaios. Em 1977, deu as costas para o Prêmio Nimier pela totalidade de sua obra. Dez anos depois, renunciou à literatura. ‘‘Não escrevo mais por estar farto de caluniar o universo’’ – explica a Sylvie Jaudeau.
‘‘Escreve-se por necessidade, e a lassitude elimina essa necessidade. Chega um tempo em que nada disso interessa mais. Em outras palavras, frequentei pessoas em demasia que escreveram em excesso, obstinadas pela produção, estimuladas pelo espetáculo da vida literária parisiense. Mas me parece que eu também escrevi demais. Um único livro teria bastado. Não tive a sabedoria de deixar inexploradas minhas potencialidades, como os verdadeiros sábios que admiro, os que, de propósito, nada fizeram da vida’’.
Em 1988, um boato circulou pela imprensa francesa anunciando seu suposto suicídio por envenamento. Uma heresia para quem sempre recusou a hipótese de se matar. Quem não tem razão nenhuma para viver, porque teria para morrer? – provocava. Vítima do Mal de Alzheimer, Cioran só foi descansar aos 84 anos no dia 20 de junho de 1995. Suas insolências, contudo, continuam pulsando.
•‘‘Exercícios de Admiração’’. Tradução de José Thomas Brum. Editora Rocco. Telefone (21) 2507-2000.
• ‘‘Cioran – Entrevistas com Sylvie Jaudeau’’. Tradução de Juremir Machado da Silva. Editora Sulina/Meridional. Telefone (51) 3333-3345.

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