Quem é rato de importadora, sabe como a vida já foi mais generosa e menos frustrante. Com a alta dos CDs gringos, que de R$ 26 subiu para R$ 35 na média, só restou a alternativa de prestar mais atenção aos lançamentos nacionais, mesmo sabendo da habitual defasagem do setor.
Com a entrada de novas gravadoras no mercado, a atenção tem que ser redobrada, particularmente em vista das representações de selos desconhecidos do exterior. Para o público de rock, porém, os primeiros lançamentos estrangeiros das recém-fundadas gravadoras Abril Music e ST2 Records não inspiram entusiasmo - pelo menos para aqueles que estão atrás de criatividade e alguma centelha de originalidade.
ReproduçãoDrown mostra sonoridade arrastada e sombriaA Abril traz para o País o cast do selo norte-americano Slipdisc, voltado para o metal. No pacote de estréia predomina a mistura de guitarras pesadas com batidas e climas soturnos de rock industrial, fórmula essa explorada com teclados e programação eletrônica pela banda Drown, que chega às prateleiras brasileiras com o álbum Product Of A Two Faced World. ‘‘Não há muita coisa que se possa fazer com guitarras, então decidimos ir mais além’’, explicou o vocalista Lauren, quando o disco foi lançado nos Estados Unidos.
Drown passou maus bocados nos últimos anos indo quase a pique com a saída de integrantes, conflitos com empresários e tretas com gravadoras. De acordo com o material de divulgação, o repertório do CD reflete a fase atribulada por que passou a banda ecoando uma sonoridade arrastada e sufocante. Na mesma praia habita a banda Nihil, saudada como ‘‘a melhor banda industrial’’ de 1997.
O título, entretanto, não condiz com a entediante coleção de faixas do álbum Drown no qual sobressaem apenas as canções ‘‘Hear me v1.2’’ e ‘‘God’’ - esta última recheada de ruídos e vozes distorcidas que remetem a trilhas de filmes de horror. O disco é de 97. Foi produzido por Neil Kernon, cujo currículo inclui trabalhos para David Bowie, Skrew e Queensryche.
ReproduçãoNihil: disco foi gravado em sete diasTambém incorporando elementos techno e do industrial, o The Clay People completa o elenco de bandas de identidade capenga. Seu quinto álbum homônimo também traz a assinatura de Neil Kernon na produção. Seria ele o culpado pela sonoridade achatada, uniformizadora e sem identidade dessas bandas?
De outra corrente, o septeto californiano Buck-O-Nine é o mais novo lançamento da Abril Music. A banda, de San Diego, segue o filão do skacore revelando influências de bandas dos anos 70 como The Clash e The Specials.
Em Twenty-Eight Teeth, seu terceiro álbum, o grupo reforça a seção de sopros martelando a combinação de ritmos jamaicanos com punk rock. A ortodoxia punk hardcore, no entanto, se faz presente em faixas como ‘‘I’m the Man’’, ‘‘Steve Was Dead’’ e ‘‘You Go You’re Gone’’. E a balada de gosto duvidoso, ‘‘Little Pain Inside’’, fecha o disco montada no espírito Titãs-acústico.
ReproduçãoA Buck-O-Nine entra no mercado brazuca com este CDTambém diversificando seu catálogo internacional, a gravadora novata ST2 Records apresenta seus dois primeiros lançamentos na área de rock, depois de empolgar o público com um bom pacote de trilhas sonoras. Mas a exemplo dos títulos da Abril Music, não há muito o que comemorar após a audição dos CDs Kingpin, da banda The Cartels, e 13 do Shuvelhead.
Ambas do Canadá, The Cartels e Shuvelhead trilham vertentes distintas, a primeira desfechando um punk rock saudosista com um mix de Sex Pistols com Ramones e a segunda atacando um heavy metal retrô com referências a Motorhead e Judas Priest.
A bem da verdade, The Cartels até que mostra eficiência e energia nas dez faixas de seu álbum de estréia. ‘‘Rock-n’-roll, carros velozes e um belo corte de cabelo. Isso é o que importa’’, declarou o baixista e vocalista Greg Laikin a respeito de atitude, conforme o texto de apresentação da banda. E é assim, com cérebros derretidos como o desse rapaz que caminha o rock nesses quase finados anos 90.
ReproduçãoO CD ‘‘The Clay People’’: quinto álbum da banda homônimaO Shuvelhead, por sua vez, revelaria (ainda segundo informações da gravadora) ‘‘cheiro de gasolina, couro e cerveja’’ em sua música. O que é bastante sugestivo, por estimular instintos pouco civilizados em ouvintes com senso crítico. Como a de acender o isqueiro no disquinho prateado, por exemplo.
ReproduçãoCD do Shuvelhead traz influências de heavy metal dos anos 80

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