Londrina, PR, 08 (AE) - Pouca gente no Brasil lembra da atriz ¶ngela de Castro, vencedora do Prêmio Molire por sua atuação no espetáculo "Macunaíma", de Antunes Filho. Mas em Londres, onde mora há dez anos, ela tem prêmios recentes no currículo e destaque na imprensa. Contracenando com o russo Slava Polunin no premiadíssimo espetáculo "Snowshow", já participou de festivais por toda a Europa. "Eu achava que um espetáculo como Macunaíma, que revolucionou a cena brasileira, só ocorresse uma vez na vida de uma atriz", comentou. "Mas Snowshow tem a mesma importância, porque resgatou para o teatro europeu a imagem do clown como arte maior."
Criadora do clown Souza, ela é responsável por um entreato de 20 minutos no espetáculo de uma hora de duração, sem palavras, sem cenário, no qual atuam apenas ela e Polunin. ¶ngela veio ao Festival Internacional de Londrina (Filo), que termina no domingo, para dirigir uma oficina intitulada A Arte da Bobagem. Na praça, encontrou sua tradução brasileira, o palhaço Xuxu, criação de Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do Grupo Piollim, que também traz ao festival o antológico espetáculo "Vau de Sarapalha", inspirado no conto Sarapalha, de Guimarães Rosa.
Juntos eles falaram sobre as diferenças e semelhanças entre clown e palhaço e as dificuldades do aprendizado do clown no Brasil. Falaram ainda sobre o evento O Riso da Terra, organizado por Vasconcelos. AE - Qual a diferença entre palhaço, clown, bobo, bufão. Existe? ¶ngela de Castro - Palhaço ou clown, para mim, é só questão de idioma. Luiz Carlos Vasconcelos - Eu também ponho tudo no mesmo saco. Historicamente, pode-se situar o bobo e o bufão na Idade Média. Já o palhaço vem de uma tradição de circo, passada de pai para filho. Em meados do século 20, o palhaço começa a sair dessa esfera via atores e grandes mestres do cômico que começam a preparar novas técnicas inspiradas na tradição, porém mais ligadas à verdade. Claro que sempre existiu o bom palhaço ligado à sua verdade, mas prevalecia o externo, o pastelão, a barriga, tudo grandão. O clown elimina tudo isso e trabalha sobre a essência, o ridículo pessoal. Angela - No Brasil, as pessoas têm a mania de usar a língua inglesa, mas para mim a tradução de clown é palhaço. O ponto de partida pode ser diferente. No Brasil o palhaço vem de fora para dentro, da chanchada, do pastelão, mas no fim ambos querem a mesma coisa: dizer a verdade. Acho que a sofisticação do palhaço começou no cinema mudo com Chaplin e o Gordo e o Magro. AE - Dizem que os palhaços ou clowns são o avesso de seus criadores, é verdade? Chaplin era irascível e prepotente, no entanto Carlitos é uma doce criatura. Você, Luiz, me disse que detesta espelhos e, no entanto, o Xuxu é muito vaidoso... Vasconcelos - Talvez eu não assuma o espelho, enquanto o Xuxu assume. Ele espelha a minha vaidade profunda, só que eu dissimulo, enquanto ele se banha nisso e comove por ser assim. Não sou tão tonto a ponto de ficar perguntando se estou bonito, mas Xuxu faz isso. Com ele mostro que sou profundamente ridículo. E para mostrar isso me oculto inteiramente no personagem, nem a mão aparece. ¶ngela - São personas. O clown é tudo aquilo que a gente não pode ser na sociedade. Mas, ao contrário do Xuxu, eu não me escondo. Com esse corpo obviamente feminino, o Souza é homem, usa terno, chapéu e boto para fora minha masculinidade, que não poderia colocar em nenhum outro lugar. O Souza é também apaixonado, expansivo, tudo o que não se pode ser na Europa, onde as pessoas são muito reservadas. E ele é fino: para não carregar sacolinha, guarda um sanduíche no sapato. E um chiclete escondido na lapela, para mascar rapidinho contra o mau hálito. É o requinte do detalhe, meu trabalho é o detalhe. Vasconcelos - Quando penso em clown, palhaço, imediatamente me vem a imagem da criança, da pureza. ¶ngela - Por que o adulto não brinca mais? O que houve? Por isso adultos gostam dos palhaços. A gente representa todos os adultos que não podem mais brincar. Vasconcelos - E assume o ridículo por eles que dizem: olha como é bobo, ainda bem que não sou assim. AE - Como foi a formação de ambos? Vasconcelos - Nasci e vivi até os 13 anos em Umbuzeiro, na Paraíba, e a arte da cena veio a mim por intermédio do palhaço, que era o ator principal do drama no circo, sempre um grande melodrama, o que me marcou muito. Quando mudei para João Pessoa, interpretei um palhaço velho e louco que punha fogo no circo, um dramalhão. Quando fundamos o Piollim, em 1977, a sede ficava numa comunidade carente e o povo estranhava aquela turma de cabelos compridos. Resolvi criar o Xuxu para fazer a inserção do grupo na comunidade, via palhaço. Fiquei três meses me arrumando
mas sem coragem de sair, até que uma amiga me deixou na entrada de uma favela e foi embora. Durante quatro anos fui criando o Xuxu no dia a dia, correndo de cachorro, pedindo água e molhando todo mundo sem querer. Nunca tive treinamento, mas vi muito palhaço de circo e essa foi a minha formação. ¶ngela - A única coisa que temos em comum é a paixão pelo palhaço. Como atriz, sempre gostei dos pequenos papéis porque tinha liberdade. Todo mundo andava numa direção no palco e eu também, só que olhando para trás. Quando fui fazer "Macunaíma"
Antunes tirou proveito disso, que era intuitivo. Numa viagem com Macunaíma eu vi, na Alemanha, um espetáculo que mudou a minha vida. Um clown, sozinho no palco, que com apenas duas cadeiras e um pacote transmitia muitas emoções. Eu sou isso, pensei. Na volta ao Brasil, saí do Macunaíma e percorri vários Estados atrás de grupos que pudessem ensinar-me o clown, mas ninguém sabia o que era. Até que fui para a Europa, integrando o elenco de outro espetáculo. Soube de um curso de clown e lá fiquei. Criei o Souza nesse curso. Sem dinheiro, lembro a primeira vez que levei o Souza para a rua. Instalei-me na esquina com o meu realejo, morrendo de vergonha, e logo uma mãe falou: olha o palhaço, filho. Chorei de emoção. Mais tarde entrei para um grupo, viajei pela Europa e depois dei a sorte de ser convidada para contracenar com Slava Polunin. AE - Como está a produção do evento O Riso da Terra? Angela - Eu estou na Europa reunindo o pessoal. Vasconcelos - Ela é nossa representante. ¶ngela - Considero um evento da maior importância. Não só pela dimensão, mas pela filosofia. Não são apenas palhaços do mundo inteiro se apresentando, mas também organizadores e patrocinadores culturais que estarão reunidos. Imagine levar esse povo todo para rir na Paraíba, em João Pessoa, numa cidadezinha que na Europa ninguém nunca ouviu falar e depois esse povo todo voltar espalhando o riso. O mundo está ruim nesta entrada do milênio. Vamos dar uma gargalhada para ver se melhora. Vasconcelos - A filosofia do evento é colocar a cultura no nível que ela merece. A proximidade do novo milênio e a globalização não podem ser pensadas só no aspecto econômico. Que importância tem a cultura na realidade contemporânea? Que seres criativos somos nós? Essa é a discussão. O evento tem três partes. Uma delas um fórum nacional, com gente como o geógrafo Milton Santos
entre vários outros pensadores e artistas. Há uma feira mundial de artesãos do riso e o festival, que inclui desde o embolador de coco da rua até o clown mais contemporâneo. Do fórum sairá um documento propondo uma política cultural para a primeira década do novo milênio. AE - Qual a data do evento? Vasconcelos - Aí que está. Seria no fim deste ano, mas embora tenhamos conseguido recursos suficientes para realizá-lo, preferimos adiar para dezembro do ano que vem a fim de garantir a abrangência e a qualidade. Queremos envolver toda a produção cultural brasileira. Queremos que o riso seja tema dos concursos de dramaturgia, música, etc. E vamos conseguir isso para o ano 2000. ¶ngela - Foi uma decisão dolorosa, porém corajosa, adiar o evento. Algo que vem sendo planejado há dois anos não pode perder-se por vaidade, só para mostrar serviço. Vasconcelos - Daria para fazer o evento, mas não para realizar concursos temáticos. Preferimos abrir mão da urgência para preservar o perfil do encontro, que desejamos ser consequente e que não acabe em si mesmo.

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