Jackeline Seglin
De Londrina
Considerada por muitos a dama do teatro paulistano, a atriz Rosi Campos, 45 anos, é uma profissional completa: ela canta, dança, interpreta e sabe como ninguém fazer muita gente rir. Com uma bagagem teatral de 23 anos, a atriz apresentou seu talento à televisão há pouco tempo, como a bruxa Morgana do seriado ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum’’ (programa gravado até 1994 e ainda hoje
reprisado pela TV Cultura). Em novelas, interpretou personagens como a Deise, de ‘‘Salsa e Merengue’’, a Regininha, de ‘‘Cara e Coroa’’, e a Jorgete, de ‘‘Meu Bem Querer’’. Ainda participou da minissérie ‘‘Hilda Furacão’’ e dos filmes ‘‘Ed Mort’’ e ‘‘Lua Cheia’’, entre outros curtas-metragens no cinema.
Mas na carreira teatral ela vem fazendo sucesso há muito tempo. Entre os
espetáculos em que atuou estão ‘‘Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes’’ com o grupo Ornitorrinco, ‘‘Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu’’, com o grupo Mambembe, ‘‘Você Vai Ver o que Você Vai Ver’’, dirigida por Gabriel Vilella, e ‘‘Almanaque Brasil’’, com o Circo Grafitti – grupo que fundou em 1989.
Atualmente, ela percorre o interior do Brasil com o espetáculo ‘‘As Sereias da Zona Sul’’, de Miguel Falabella, e acaba de concluir as filmagens de ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme’’, uma produção de R$ 8 milhões, que não será nem um episódio, nem uma continuação da série homônima.
Além de atuar e dirigir espetáculos, Rosi Campos também produz suas peças junto com o marido, Ary Brandi. Mãe de um garoto de 16 anos – Pedro –, essa atriz nascida em Bragança Paulista tem muito o que contar. Em entrevista à Folha2, Rosi Campos falou sobre sua carreira e sua relação com o trabalho, a cultura, o público e, claro, sobre seus projetos. A seguir, trechos da conversa.
Você já fez de tudo. Teatro, cinema, TV, circo... De tudo isso, o teatro é o que mais te dá prazer?
Sim. Teatro eu faço há 23 anos. Eu sou de teatro. Televisão é outra coisa, cinema é outra... mas tudo é legal. A Morgana é uma superpersonagem – na vida a gente ganha poucos presentes e a Morgana foi um deles. O ‘‘Castelo’’ é um programa que forma as crianças e tem cumprido a mesma função do ‘‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’’ e da ‘‘Vila Sésamo’’. Tem mãe que chega e fala: ‘‘obrigada por vocês salvarem a infância do meu filho’’.
Como você faz a seleção do repertório, a pesquisa de texto e direção? Tem que correr atrás ou as coisas chegam até você?
Quando eu trabalhei no Ornitorrinco, era o Cacá (Rosset) que falava ‘‘vamos montar...’’. Ele é um cara que sabe exatamente o que quer fazer. Nos outros grupos, a gente ia atrás. Eu fiz o ‘‘Você Vai Ver o que Você Vai Ver’’, com o Gabriel Vilella, com o qual ganhamos 17 prêmios. No ‘‘Almanaque Brasil’’, pedimos para a Noemi Marinho fazer o roteiro. Ou então a gente tem um texto pronto, chama um dramaturgo. Cada produção é completamente diferente da outra.
No caso do ‘‘Sereias...’’ o Miguel já tinha falado do texto. A gente sempre procurou pesquisar a partir de um tema. Na verdade, o que me apaixona mais não é a personagem, é o tema.
Como é sua relação com o drama? Você nunca foi muito ligada nesse gênero.
Eu sempre fiz mais comédia. Não que eu não goste de drama. Mas, na tradição de teatro, o drama é a grande transformação, é onde se assiste às maravilhas que o homem foi capaz de escrever. É maravilhoso, só que exige uma técnica para você não ficar sofrendo toda noite. É onde o homem se modifica. A função do teatro é essa – pelo menos antigamente era. Eu falo muito dos espetáculos que assisti em 1970 e nunca mais vi iguais. Era uma época em que a cultura e o homem estavam mais interessantes. Hoje em dia a gente não sabe muito como atingir esse homem. A crise das artes, da comunicação, é geral.
Você acha que a grande quantidade de espetáculos-solo produzidos atualmente é uma questão econômica?
Também, mas fazer monólogo é uma coisa muito difícil, não é todo mundo que pode fazer. Eu sou uma pessoa que sempre quis grupos com muita gente. Eu não sei como é na cabeça de alguns atores que pensam ‘‘aí, porque eu sou bom, você vai ter que aguentar um monólogo meu’’. São poucos os atores que seguram um monólogo, como o (Luís) Mello, o Raul Cortez, o (Marco) Nanini. É uma responsabilidade enorme.
Você sente diferença em trabalhar com pessoas mais jovens, com outra formação, do que com pessoas da sua geração?
Acho que o pessoal da velha guarda é mais relaxado, mais tranquilo, já passou por um monte de coisas. A gente pegava trem para ensaiar e achava lindo. A Dercy Gonçalves falou que viajava de carroça de uma cidade pra outra. Hoje em dia, as pessoas andam de avião. Quer dizer, as dificuldades enfrentadas pelas gerações acabaram formando cada uma delas. Hoje as pessoas não têm a disponibilidade que os atores da antiga tinham, de jeito nenhum. O cara já quer entrar na produção e ganhar dinheiro – o que é o certo – mas são poucas as produções que têm condição de pagar tudo. Até tem os patrocínios – que não é todo mundo que consegue –, mas os teatros estão muito caros. E as pessoas que vão aos espetáculos não têm noção do quanto custou até abrir o pano. E aí falam: ‘‘ah, o teatro tá caro!’’. Mas se sentam num barzinho, não reclamam de gastar 100 paus com cerveja. O teatro é a única arte ao vivo, de modificação, de interação. É velho, sempre esteve em crise, mas nunca vai morrer.
Continua sendo difícil, para você, viver de teatro?
Ah, sim. O teatro não é visto como um show business. Não existe isso no Brasil. Este país não absorve nada nem ninguém. Não é um mercado que oferece dez filmes para fazer, 15 peças... Não existe um mercado que absorva o profissional. Ele tem que inventar esse mercado. No nosso caso, a gente tem que se produzir. Claro que eu tenho convites – o Mauro Rasi inclusive me chamou para fazer o novo espetáculo dele, um musical – mas, no geral, a gente tem que se produzir. Você vê a Marília (Pêra), a Fernanda (Montenegro), elas estão aí ainda porque sempre se produziram. Não dá para ficar em casa esperando que o talento faça tudo. Não tem agente, não existe dinheiro investido nisso – o que é um grande erro, porque a cultura emprega muita gente e é a área que mais está crescendo. O empresariado brasileiro ainda não descobriu isso.
Você acaba de filmar a versão cinematográfica do ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum’’. Como foi todo o processo?
Desde que a gente fez o seriado, queríamos fazer o filme. A captação de recursos levou três anos. O Cao (Hamburger) demorou todo esse tempo pra conseguir produzir... mas vai ser um sucesso. Será lançado em janeiro, em 40 salas.Rosi Campos fala em entrevista à Folha2 sobre sua preferência pela com édia e os rumos do teatro brasileiro
Arquivo FolhaRosi Campos, que está excursionando pelo interior do Brasil com o espetáculo ‘‘As Sereias’’: ‘‘O teatro não é visto como um show business. Este país não absorve nada nem ninguém’’

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