Uma comédia, dentro dos moldes clássicos de se fazer rir - e não na linha gratuita em que o ator diz ‘‘esqueci o texto’’, ‘‘quem fala agora é voc꒒ e outras bobagens do tipo ‘‘Sai de Baixo’’ - inicia hoje temporada no mini-auditório do Teatro Guaíra. ‘‘O que o Mordomo Viu’’, de Joe Orton, com a Cia. Usina das Artes, caminha pela trilha mais ‘‘teatral’’, afirmam em uníssono os atores e o diretor Marcelo Marchioro.
A vida está colocada no palco com todas as cores que ela tem, sem piedade. O que resulta disso é a constatação de que o absurdo está no cotidiano, e a maldade grassa por toda a sociedade. Mexer na ferida, neste caso, incita a graça.
A ação se passa numa clínica para doentes mentais, envolvendo o diretor da clínica, sua esposa, uma secretária recém-contratada e um mensageiro de hotel, às voltas com a visita inesperada de um médico inspetor do governo, e um oficial de polícia.
‘‘É uma comédia realista, mostra uma situação super atual, onde derrubamos todos os conceitos sociais’’, explica a atriz Léa Albuquerque. A atuação dos atores exige seriedade, as marcações são severas, entradas e saídas milimétricas. Não tem espaço para piadinhas inventadas na hora (os famosos cacos).
‘‘É uma coisa muito séria e a graça está na seriedade - isso é o que mais desafia o ator’’, continua Léa. A atriz Silvia Monteiro sente-se tentada a nem qualificar ‘‘O que o Mordomo Viu’’ como comédia. ‘‘É uma grande peça de teatro que é engraçada. Porque comédia, no Brasil, está sendo meio banalizada pelos ‘Sai de Baixo’ da vida’’, dispara.
O que está havendo, em sua opinião, é uma espécie de desvirtuamento. O ator deixou de lado o apuro da representação para fazer seu jogo de sedução com a platéia. Aqui, o teatro é o que menos conta. ‘‘Pior ainda é quando ele e outro ator ficam nesse jogo particular, com a platéia de lado, meio apática. Esse tipo de humor tem contado só com o carisma do artista’’.
Sem juízoMarcelo Marchioro não é de alimentar ilusões: tudo que está no palco deve refletir a verdade, pelo simples fato de que a vida é, por si, um enorme absurdo. Tanto a linha da direção, como da interpretação e tudo o que cerca a montagem tem que ser o mais realista possível. ‘‘A vida não tem juízo. E a graça está em sacar isso aí, o que acontece com as pessoas que não têm juízo’’.
A seriedade que ele exige dos atores tem por princípio a ciência de que jogar-se o caos dentro do caos, é redundância pura. ‘‘Na hora que você joga o caos dentro da estrutura organizada, que as pessoas conhecem como real, aí se atinge o objetivo. Senão, fica pintura em cima de pintura, e não se resolve nada’’, afirma.
Atento ao que disse o dramaturgo Joe Orton - ‘‘diretor que é muito criativo, e que inventa moda, é muito bom, mas não para minhas peças’’ -, Marchioro seguiu a linha naturalista. ‘‘Quando se trabalha Orton, funciona somente a verdade. Aí a crueldade fica realmente cruel; a vida é cruel. É nonsense’’, justifica. Dessa loucura sai o riso, porque não há quem não goste de ver uma tragédia, aposta o diretor. ‘‘O público adora crueldade’’.
A diversão está em alta neste espetáculo, como atesta Laércio Perle. ‘‘É muito prazeroso para a gente que trabalha nele, e igualmente será para a platéia. É um texto perfeito’’. Zeca Cenovicz, que defende o papel de diretor da clínica, ressalta a complexidade do trabalho como ator. ‘‘Meu personagem é ambivalente; ele se mostra de um jeito, mas age de forma muito diferente’’.
O elenco é completado por Sérgio Pardal e Marco Zenni, artistas ainda novatos na carreira. Com dois anos de vida profissional, Zenni confessa que há uma nova visão sobre a arte, com esta experiência. ‘‘Estou aprendendo a fazer teatro. Apesar de ter atuado em outros espetáculos, esta é a primeira vez que levo realmente a sério’’. ‘‘Estou vivendo um muito importante na minha vida e satisfeito em fazer parte da companhia’’, depõe Pardal.

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