O Rio sob olhar franco-brasileiro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de novembro de 2009
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
''Negrinha'', lançamento da Desiderata, é uma história sobre cores. Seja para ilustrar a bela paisagem carioca de Copacabana ou para brincar com as sensações ''frias'' e ''quentes''. Ou simplesmente para enfatizar a metáfora com o preconceito e diferenças sociais. O álbum da Desiderata, que integra as comemorações do Ano da França no Brasil, reúne o relato quase autobiográfico de Jean Christophe-Camus, filho de brasileiros, com as ilustrações do pintor Olivier Tallec.
Na história, Maria, uma ''garota classe média'' de 13 anos que mora na charmosa Copacabana dos anos 50, começa a mostrar interesse por uma diferente faceta do Rio e de seus personagens urbanos. A partir daí, ela busca nas origens de sua mãe/babá as raízes humildes que fazem do brasileiro um povo tão alegre e batalhador.
Jean faz uma verdadeira homenagem à mãe brasileira e costura, entre as paisagens e a cultura da época, um relato bem verossímil sobre o Rio, tanto a eterna aura de Cidade Maravilhosa quanto a violência e a injustiça, diante da discriminação causada pelas diferenças sociais. Está tudo ali, o ar esnobe da burguesia, a fé dos pobres, contrastes já exaustivamente retratados.
A arte de Tallec, como citado no início, sugere sensações com as cores. As aquarelas de cada quadro poderiam estar em uma exposição. Sua composição a partir do que as cores dizem tornam a narrativa simples e muita bela. Assim fica fácil, por exemplo, compreender a surpresa da descoberta, a decepção, tristeza e satisfação, por meio das reações de Maria.
Enquanto não sai a continuação de ''Negrinha'', já em andamento, o público brasileiro pode conferir como arte e diversão podem andar juntos. Principalmente em um álbum com um cuidado editorial digno dos publishers norte-americanos e europeus.
Subversos - Graças à paixão que move fanzineiros Brasil afora, toda comunidade de adoradores de quadrinhos está sempre querendo montar uma revista para mostrar o trabalho de gente talentosa, material que costuma ficar dentro das gavetas. A dificuldade é balancear, entre novatos e profissionais, histórias bacanas e representativas, de poucas páginas, que se sustentem por si só, sem explicações. E isso é bastante evidente em coletâneas como a ''Subversos'', que chega à quarta edição, com patrocínio da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo e distribuição da Devir Livraria.
A ''Subversos'' (não confunda com ''Subversivos'', de André Diniz e José Aguiar) nasceu no ano passado, com financiamento do Programa Valorização de Iniciativas Culturais, e, desde então, vem reunindo autores interessados em incentivar a leitura de quadrinhos para o chamado público casual, que não costuma ir em bancas comprá-las. Por isso mesmo, parte da tiragem vai para bibliotecas da capital paulista.
Editada por Akira Sanoki, Alexandre Manoel e Igor Shin, a revista seleciona autores de um forma bem democrática. Basicamente, quem quer mostrar a que veio entra em contato por meio da internet, via blog, no endereço http://revistasubversos.blogspot.com. O tema é sempre ''Cotidiano Urbano'' e para esta quarta edição foram escolhidos 22 autores de Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro e até do Japão.
As histórias, curtas, passeiam por grande diversidade de estilos, alguns ainda bem ''verdes''. Os destaques da edição ficam por conta de ''Cheiro de leite, cheiro de café'', em que Milo Ventura emula com sucesso a narrativa carregada de design gráfico de Chris Ware; e ''Os homens armados de paz'', quadrinhos poéticos do experiente Gazy Andraus, em parceria com Jorge Del Bianco.
Serviço - ''Negrinha'' tem 104 páginas coloridas no formato 17 cm x 24 cm a R$ 44,90. ''Subversos'' nº 4 tem formato 21 cm x 28 cm, com capa colorida e 60 páginas em preto-e-branco, a R$ 44,90.


