O Rio de Janeiro está passando por um boom de lançamentos de livros que abordam sua história. Segundo o especialista Sérgio Fridman, nunca se publicou tanto sobre a cidade. Ele estima que este ano foram lançados ou reeditados pelo menos 50% a mais de livros do que no ano passado.
Fridman acredita que esse fenômeno só pode ser comparado à febre de 1965, ocorrida durante as comemorações do quarto centenário da cidade. ‘‘As editoras não estavam acreditando no lado comercial desse filão. Agora, elas acordaram’’, afirma o autor de três livros sobre o Rio.
Para o editor e livreiro Rui Campos, há uma proporção de dez livros lançados em 2000 para cada um publicado três anos atrás. ‘‘A gente sempre sentiu o potencial desse mercado’’, afirma Campos, dono da Livraria da Travessa.
Os livros sobre o Rio ocupam um lugar privilegiado em suas duas lojas e ficam a seis passos da entrada. ‘‘Existe uma teoria de que esse é o lugar mais nobre de uma livraria’’, diz Campos.
O editor Alberto Schprejer, dono da Relume Dumará, acredita que a explosão de lançamentos tem a ver com a recuperação da auto-estima do carioca, que começou em meados dos anos 90.
‘‘O Rio demorou 35 anos para superar o trauma de deixar de ser a capital do país, de ser o centro político e econômico do Brasil. Mas nunca deixou de ser o centro cultural, isso é o que está sendo resgatado’’, afirma Schprejer.
Nos últimos quatro anos, a Relume Dumará publicou 57 livros em suas três coleções: ‘‘Perfis do Rio’’, ‘‘Cantos do Rio’’ e ‘‘Arenas do Rio’’. O projeto é uma parceria com o instituto RioArte, da prefeitura, e já vendeu cerca de 200 mil exemplares.
‘‘Esse filão corresponde a 10% de nosso faturamento. Mas dá muita visibilidade para a editora. Recebemos resenhas feitas por jornais e revistas de norte a sul do Brasil. O Rio, de fato, é uma vitrine’’, diz Schprejer, que afirma ser frequentemente procurado por editores que querem levar a idéia para outras cidades.
O presidente da RioArte, Oduvaldo Braga, diz que o segredo do sucesso foi vislumbrar um nicho que estava sendo subaproveitado. ‘‘Os livros sobre o Rio geralmente eram feitos por empresas que os davam de presente a clientes. Nossas coleções entraram no mercado para concorrer’’, diz.
Andrea Jakobsson, gerente de projetos especiais da editora Sextante, acredita que o fenômeno tem a ver com a revitalização urbanística da cidade.
‘‘Os cariocas querem conhecer seu passado e a importância de uma época em que a cidade era a capital do Império e da República’’, afirma Jakobsson. A gerente afirma que as publicações sobre o Rio já respondem por 30% dos negócios da editora.
O mercado consumidor desses livros, sobretudo no centro da cidade, é formado por ‘‘altos funcionários’’, como aponta Graça Neiva, dona da rede de livrarias Dazibao. ‘‘A maior parte é de juristas, advogados e de pessoas que trabalham na Bolsa de Valores’’, afirma.
O economista Carlos Lessa, autor do recém-lançado ‘‘O Rio de Todos os Brasis’’, afirma que o boom de livros tem a ver com uma espécie de reação dos cariocas diante do sentimento geral de que a cidade estava decadente no começo da década.
‘‘Os cariocas ficaram agredidos com esse discurso. Era um coro trágico, parecia que a cidade estava às vésperas de ser fechada. A resposta apareceu, houve a necessidade de recolocar o Rio no mapa’’, diz.
Lessa aponta como reflexo a criação do movimento Viva Rio e a eleição de dois prefeitos, Cesar Maia e Luiz Paulo Conde, que priorizaram as obras de urbanismo em programas como o Rio Cidade e o Favela Bairro.
O economista afirma que o Rio sempre foi aplaudido ‘‘de graça’’, sem esforço, pelo resto do Brasil. Mas precisou acordar e construir uma solução sozinha.
Para o pesquisador, a queda do pedestal não coincide com a perda do poder econômico e político, quando a cidade deixou de ser a capital do país. ‘‘Nem São Paulo nem Brasília herdaram o prestígio do Rio. Brasília por causa do autoritarismo dos anos de regime militar. E São Paulo pela arrogância de ser a locomotiva da economia, de querer ser mais paulista do que brasileira’’, afirma Lessa.

mockup