Histórias que se tornaram populares como ‘‘Aladim e a Lâmpada Maravilhosa’’, ‘‘Simbad, o Marujo’’ e ‘‘Ali Babá e os Quarenta Ladrões’’ pertencem a uma longa tradição oral que os historiadores não conseguem datar com exatidão.
Elas fazem parte de um grande conjunto de histórias árabes reunidas num único livro conhecido como ‘‘As Mil e Uma Noites’’. Fiel ao título, a obra é composta, exatamente, de 1.001 histórias. Tudo dentro de uma única narrativa protagonizada pela figura feminina da jovem Sherazade (no original, Châhrazád) – uma princesa que precisa contar, todas as noites, histórias para entreter o rei Shariar (Châhr-yar), seu esposo, com objetivo de não ser assassinada ao nascer do sol. Sua artimanha narrativa torna-se a única arma para continuar viva.
A história central de ‘‘As Mil e Uma Noites’’ pode parecer triste, e até mesmo violenta, mas seu conteúdo possui uma beleza luminosa. De maneira resumida, tudo começa com um ato de infidelidade conjugal. Certo dia, ao voltar antecipadamente de uma caçada, o sultão Shariar encontra a amada esposa nos braços de um de seus escravos. Transtornado com a adultério, num ataque de fúria, manda matar os dois.
Desiludido com o episódio, Shariar torna-se um homem amargo e um violento soberano. Descreditado do amor das mulheres, decide se casar todos os dias com um moça diferente e, para nunca mais ser traído, prescreve rígidas ordens de que, logo após a noite de núpcias, ao nascer do sol, a esposa deve ser morta.
Para ter um jovem esposa diariamente, utiliza os serviços de um de seus conselheiros, um influente grão-vizir que possui duas belas filhas. Revoltada com o absurdo assassinato diário, uma das filhas, Sherazade, resolve se casar com o sultão para tentar reverter a situação e acabar com as mortes. Seu plano é simples e ao mesmo tempo genial.
Na noite de núpcias, Sherazade começa a contar uma história ao sultão com o cuidado de não terminá-la ao amanhecer. Shariar, curioso em saber o fim da história, resolve poupar a vida da nova esposa por mais um dia. Na próxima noite, Sherazade conta o final da história anterior e começa outras com a artimanha de mais uma vez não terminá-la ao nascer do sol. Novamente, desejando saber o final da outra história, decide adiar a morte da mulher por mais um dia.
Com esse método, Sherezade consegue sobreviver dia após dia. Quando chega à milésima e uma noite, depois de 1.001 histórias, exatamente dois anos, duzentos e setenta e um dias, a princesa já possui três filhos e o sultão está completamente apaixonado. Assim, Shariar revoga sua decisão de assassinar suas esposas a cada manhã e reino volta à tranquilidade.
As histórias que compõem ‘‘As Mil e Uma Noites’’, não foram concebidas originalmente para o público infantil ou juvenil. Com o passar do tempo, algumas histórias foram adaptadas para livros infantis, principalmente no ocidente.
Uma dessas versões acaba de ser lançada pela Editora Revan voltada ao público juvenil/infanto-juvenil. Organizado e traduzido pelo poeta Ferreira Gullar, a partir da versão francesa de Antonie Galland (a primeira realizada no ocidente, publicada originalmente em 1704), o livro é impecável. Apesar de ser uma edição condensada, Gullar consegue manter a trama central, a estrutura original e opta pela histórias mais difundidas, aquelas pautadas pela aventura e pelo fantástico. Das 1.00l, escolheu 17. Entre elas, sete aventuras marítimas de Simbab, Ali Babá e os quarenta ladrões, Aladim e a lâmpada mágica e outras histórias de gênios envolvendo pescadores, anciões e mercadores.
‘‘As Mil e Uma Noites’’ remetem à tradição cultural, onde a vida cotidiana era pontuada por histórias. Narrativas orais que promoviam a sociabilidade e o aprendizado de geração em geração. Tudo através da imaginação. Algo praticamente extinto nos dias de hoje.
•‘‘As Mil e Uma Noites - Contos Árabes’’, Editora Revan, seleção e tradução de Ferreira Gullar, ilustrações reproduzidas da edição francesa de Antoine Galland (1704), 159 páginas, R$ 21,00.

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