ReproduçãoCharles Berling e Jean Rochefort, em ‘‘Caindo no Ridículo’’Ou o peixe morre pela boca, segundo o dito popular via de regra justo e preciso. Abrindo o Festival de Cannes ano passado, este ‘‘Ridicule’’ de Patrice Leconte (‘‘Um Homem Meio Esquisito’’, ‘‘O Marido da Cabeleireira’’, ‘‘O Perfume de Ivone’’) mexeu duplamente com a exigente platéia da Côte d’Azur. Logo no prólogo, uma sequência tão original e grotesca quanto elucidativa para o que se verá a seguir. E ao longo da narrativa, a constante e incômoda presença do modus operandi das cabeças coroadas da corte de Luis XVI nos anos que antecederam imediatamente o fim da Bastilha. E o vaivém sinistro da guilhotina.
‘‘Caindo no Ridículo’’ centraliza suas atenções em Grégoire Ponceludon de Malavoy (Charles Berling), nobre de província, sem dinheiro, disposto a conquistar Versailles por volta de 1780. Sua intenção é cair nas boas graças do rei para tentar obter recursos e assim diminuir as aflições dos camponeses de sua região, afetados pelos males incuráveis de uma região pantanosa e insalubre. Mas para obter favores cortesãos é preciso jogar o jogo da aristocracia dos brioches, fazer às vezes da frivolidade, estabelecer empatia através de regras previamente ajustadas.
Malabarismos Malavoy, pobre na€f , logo vai saber que justiça e generosidade somente servem aos interesses de quem as pratica. E logo vai descobrir que quem quer os fins provê os meios. Em breve, com desenvoltura e brilho nos duelos de palavreados alexandrinos e octossilábicos, nosso herói se faz íntimo do poder. Nos salões e nas alcovas. O malabarismo verbal - e sexual - deve ser o grande trunfo para se evitar cair no ridículo, e consequentemente em desgraça. Neste sentido, ‘‘Ridicule’’ é como se fosse uma espécie de western , onde as armas de fogo são substituídas pelas palavras espirituosas.
Neste filme irradiante que deve ser degustado lenta e saborosamente, Leconte nos oferece personagens, situações e diálogos dignos da melhor tradição do filme de costumes, da crônica de comportamentos. Além de proporcionar um inventário de todas as formas de bel espirit e de finesse , há ainda a deliciosa descoberta, no exílio pós-Revolução, de uma estranha invenção britânica, batizada ‘‘humor’’. O elenco é tão fluido como o próprio filme, com destaque para Charles Berling, Jean Rochefort e Fanny Ardant.

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