Imagem ilustrativa da imagem O revoltoso elogio do amor

O amor é capaz de fazer coisas que grandes montanhas e extensos vales são incapazes de entender. O amor é capaz de construir pontes sobre o sagrado. O amor é capaz de erguer pontes sobre a morte.

Hilda Hilst foi a escritora brasileira que conseguiu com mais maestria, através da linguagem, construir pontes entre o amor, o divino e a morte. No romance “A Obscena Senhora D”, considerado o ápice de sua prosa, Hilda mergulhou de cabeça nessa arquitetura onde o fluxo de consciência torna-se a extensão do corpo.

Apesar de ser admirada e estudada pela crítica literária, com mais de 40 obras publicadas em vida, seus livros sempre tiveram pequenas tiragens. As coisas começaram a mudar a partir de 2017, quando a editora Companhia das Letras iniciou a publicação de suas obras completas em grande circulação.

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A editora acaba de lançar um novo volume, justamente “A Obscena Senhora D”. Escrito em 1982, o breve romance estabelece, através da prosa poética, a confluência entre o amor, o divino e a morte com uma intensidade perturbadora: “Paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua cama de emoções, escarlate sobre tua vida, paixão é esse aberto do teu peito, e também teu deserto.”

A obra narra o luto de Hillé, uma mulher de 60 anos que perde o amado. Abalada, se refugia embaixo da escada da casa numa tentativa de redimensionar a morte da pessoa que mais amava. Diante do desamparo da carne e do espírito, a personagem vaga por intrincados caminhos da consciência e da memória, construindo vozes para um possível entendimento da ausência.

“A Obscena Senhora D” possui várias imagens simbólicas. Uma delas reside no fato de que, após o falecimento do amado, os dois peixes do aquário da casa também falecem. Para recolocar as coisas no lugar, Hillé recorta dois peixes de papel e coloca-os no aquário. Em alguns dias, o papel se dissolve na água e os peixes deixam e existir. Então, Hillé recorta novos peixes e coloca-os no aquário. E, novamente, os peixes de papel se decompõem e desaparecem. E assim, sucessivamente, os peixes são feitos e desfeitos. Papéis mais grossos são utilizados, mas mesmo assim acabam se dissolvendo na água do tempo. A personagem procura, mas não pode restaurar o amor que se foi. E toda insistente tentativa de restauração se revela uma grande ilusão. Só o passado existe.

O amor desenhado por Hilda Hilst é o amor febril. Amar seria entrar dentro do outro como o outro entra dentro de nós. Amar seria alimentar-se do outro como o outro se alimenta de nós. Misturar-se em carne até o ponto em que o espírito respire com liberdade diante do fim.

Esse tipo de união, em “A Obscena Senhora D”, é expresso com as seguintes palavras: “Hei de estar contigo, com teus nós, teu rosto de maçãs, bravias, duras, morta sim é que estarei inteira, acabada, pronta como fui pensada pelo inominável tão desrosteado, morta serei fiel a um pensado que eu não soube ser, morta talvez tenha a cor que sempre quis, um vermelho urucum, ou um vermelho ainda sem nome tijolês-morango-sépia e sombra, a teu lado eu cromo feito escarlatim, acabados nós dois, perfeitíssimos porque mortos, as mãos numa entrelaçadura de muito luzimento, mão minha que tocou teu corpo luxesco, comprido, teu corpo uma brilhância incircunscrível, tão doce para minha língua muito em timidez, mais doce ainda na corriqueirice dos dias, puro meloso depois, tua boca em mim, cheia de colibris tua boca, mortos um dia os dois, atados, um irrompível eterno, as gentes vão olhar abrindo os olhos em boca de poço.”

Logo no início da obra, a personagem narradora, Hillé, a Senhora D, alerta que está “à procura de uma luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas”. E apresenta a palavra "derrelição" como a grande chave da narrativa. Palavra que significa "abandono", "desamparo". Perder alguém que se ama pode representar o maior dos abandonos, o maior dos desamparos. Uma desconsolada epopeia interior sem destino, sem certezas, sem conclusões.

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Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú, interior de São Paulo, em 1930. Formada em Direito no Largo de São Francisco, em 1964 isolou-se na fazenda materna, situada nos arredores de Campinas, para se dedicar à literatura. No local, construiu aquela que seria sua residência para o resto de sua vida, ao longo de 40 anos, nomeada como Casa do Sol. Faleceu em 2004, aos 73 anos.

Serviço

“A Obscena Senhora D”

Autora : Hilda Hilst

Editora: Companhia das Letras

Posfácio: Eliane Robert Moraes

Páginas: 80

Quanto: R$ 44,90

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