O retrato de um grande homem
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Quando Haruo Ohara, com 17 anos de idade, saiu do Japão em 1927 na companhia dos pais com destino ao Brasil, não sabia que a família havia-lhe prometido num casamento arranjado. Em Londrina passou a frequentar, aos domingos, um sítio vizinho com objetivo de trocar selos e moedas como colecionador. Na realidade as trocas de selos e moedas eram apenas um desculpa para o jovem Haruo cortejar a jovem Ko, mulher que desejava como futura esposa. Mas os planos da família eram outros.
Ao saber que a moça prometida estava partindo do Japão para o casamento, armou a maior confusão, não aceitava se casar com uma mulher que nem conhecia, pois amava Ko. Sendo o filho mais velho a desobediência tomava maior vulto. O fato é que Haruo não cedeu, e seus pais, corroídos de vergonha, precisaram enviar uma carta ao Japão desfazendo o casamento. Algum tempo depois, em 1934, Haruo e Ko se tornariam marido e mulher, e ficariam unidos durante toda a vida. Da união nasceriam nove filhos.
Este casamento movido pelo amor, não por regras, é um dos elementos biográficos da vida de Haruo Ohara pouco conhecido, mas está presente na lembrança de seus descendentes. Esta e muitas outras histórias fazem parte da memória afetiva de seus filhos e netos. Numa conversa, em que estavam presentes seis dos nove filhos de Haruo e Ko (Toyko Ohara, Maria Ohara Barbosa, Ciro Ohara, Rosa Nishyama, Tomoko Ohara e Hiraki Ohara, além do neto Saulo Haruo Ohara), realizada numa tarde do domingo, os depoimentos, em forma de história oral, traçam o retrato não simplesmente de um fotógrafo, mas de um grande homem. A sinceridade com que Haruo Ohara se relacionava com a vida, com a fotografia e a agricultura, está presente na memória afetiva de cada membro da família.
Acostumados a ver o pai sempre com a máquina fotográfica ao lado da enxada, a fotografia se tornou parte do cotidiano da família. Preservam a lembrança das situações em que algumas fotografias eram tiradas e o respectivo contexto. Alguns eram acordados de madrugada para serem fotografados aproveitando a luz do raiar do dia em meio a neblina. Moravam num sítio (hoje atual Jardim Aeroporto) com uma ampla plantação de café. Além da cafeicultura, Ohara cultivava um dos pomares mais diversificados da cidade, além de várias espécies de flores. Um vez por semana, Ohara enchia a carroça de frutas e flores e seguia até o centro da cidade para comercializá-las na feira. Foi nesta época, década de 40, que começou a se dedicar à fotografia com afinco.
Ao contrário da maioria das famílias de imigrantes japoneses, Ohara não fez questão que os filhos permanecessem fiéis à cultura nipônica, mas que se integrassem ao Brasil. Não exigiu que os filhos aprendessem a língua japonesa, acreditava que eles deveriam conviver de maneira direta com o país em que nasceram, o solo brasileiro. Ele próprio, que se dedicava ao estudo da língua portuguesa, nunca se interessou em voltar para o Japão, nem ao menos em viagem de passeio. Não gostava nem mesmo de conversar sobre o assunto.
Quando construiu um casa no centro da cidade, 1951, teve início a grande fase criativa de sua arte fotográfica. Montou um minúsculo laboratório sob a escada da residência. Nessa época manteve um amplo orquidário com espécies nativas e aprimorou seus conhecimentos na arte do enxerto de flores e frutas. Tanto na agricultura como na fotografia foi autodidata. Era um homem culto, lia livros desde a botânica à antropologia dos índios brasileiros.
Haruo Ohara nunca aceitou vender suas fotografias. Costumava dá-las de presente. Segundo os filhos, dizia que se começasse a comercializar as fotografias, elas perderiam o valor artístico. Também se recusava a expô-las. Sua primeira exposição individual, realizada pelo Festival Internacional de Londrina em 1998, aconteceu com certa pressão da família, associada ao avanço de sua doença. O argumento de Ohara era que suas fotos eram realizadas com técnicas antigas, com equipamento antigo e que arte da atualidade tinha se tornado diferente, tudo realizado com equipamentos sofisticados.
Pelo depoimento dos filhos, aliado aos raros depoimentos do próprio Ohara, alguns dados oferecem uma abordagem mais ampla da obra do fotógrafo. Há muito tempo a arte fotográfica vem sendo encarada pela imprensa, salvo raras exceções, de maneira equivocada. A idéia de que Ohara era um fotógrafo do instante, registrando cenas naturais em suas andanças não é correta. Em sua obra há o elemento do instante, mas existe outro elemento de maior intensidade: suas fotos eram criadas mentalmente. Ohara criava uma imagem na cabeça e tentava concretizá-la. Tudo era calculado. Estudava local, luz ideal, horário do dia, distância, etc, só depois realizava a foto. Em várias delas ele até se fazia fotografar, como personagem. Em muitas de suas fotos mais conhecidas (como por exemplo uma em que aparece um homem equilibrando uma enxada sob um céu cinematográfico) ele próprio é o modelo. Simplesmente colocava a câmera no tripé, calculava luz, velocidade e distância, acionava o disparador automático e corria para ao local devidamente marcado. Era um ator.
Outro elemento que os depoimentos dos filhos apontam, é o testemunho de que um dos componentes de sua personalidade era seu bom humor, sua capacidade de fazer brincadeiras. Componente presente em grande parte de suas fotografias. Enfim, um homem com uma biografia sedutora e uma belíssima obra fotográfica. Um obra a ser revelada, uma biografia a ser pesquisada.





