O retorno do hermitão
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 1997
Carlos Haag Agência Estado 
Arquivo FolhaRubem Fonseca: manejador de palavras como poucosA grande arte de Rubem Fonseca está de volta em dois novos livros: Histórias de Amor (144 páginas) e E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto (120 páginas). Já nas livrarias, numa edição da Companhia das Letras, os dois volumes serão vendidos em conjunto numa caixa de luxo ao preço de R$ 26,00, com uma tiragem de 25 mil exemplares. Esgotada essa primeira remessa - o que deve acontecer em breve, como é comum com tudo o que Fonseca escreve -, a editora venderá as obras em separado: Histórias de Amor por R$ 15,00 e E do Meio do Mundo Prostituto... por R$ 13,50.
Há dois anos sem publicar, desde que lançou O Buraco na Parede, em Histórias de Amor, Fonseca retorna ao conto, forma em que domina as palavras como Mandrake maneja a faca.
O personagem de A Grande Arte, aliás, reaparece, muito bem acompanhado por Gustavo Flávio, de Bufo & Spallanzani, em E do Meio do Mundo Prostituto..., novela de crime cujo título, quilométrico, foi tirado por Fonseca de um poema do romântico Álvares de Azevedo.
Nascido em Juiz de Fora, em maio de 1925, o escritor mineiro é casado, tem três filhos e mora no Rio. Sabe-se pouco mais além disso sobre a sua vida, pois Fonseca, um obcecado por sua privacidade e totalmente avesso a entrevistas e fotos, mistura o lado hermitão (e o talento, reconheçamos) de Garbo, Thomas Pynchon e J.D. Salinger.
O suspense pessoal é mais um de seus atrativos, fruto, talvez, de suas ocupações anteriores à literatura: camelô, vendedor de gravatas no centro do Rio e delegado de polícia, nos anos 50 e 60. Vem daí a sua familiaridade chocante com o mundo do crime, cuja violência descreve em poucas palavras, mas de efeito cruel e devastador sobre os leitores.
Fobia - Más línguas dizem que a fobia por falar com a imprensa se deve também a outro ponto menos nobre de seu passado: diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes). Criado para combater o comunismo e defender a economia de mercado, o Ipes foi elogiado pelo general Golbery do Couto e Silva como um organismo atuante nas conspirações contra João Goulart, deposto em 1964.
Mas é preciso acrescentar que isso não o ajudou muito quando o governo militar, em 1976, censurou seu livro Feliz Ano Novo. Histórias de Amor traz o Fonseca contista, insuperável na criação de situações fortes com desdobramentos inesperados. Frases curtas, palavras pesadas, diálogos abundantes e ríspidos: como o colega esquisitão de Curitiba, Dalton Trevisan, o mineiro é um mestre da secura plena de significados.
E do Meio do Mundo Prostituto... é uma novela curta sobre um assassinato desvendado em meio a baforadas de charuto e erotismo. Um Fonseca é pouco. Dois é muito bom. Três seria ideal.


