Se o disco estiver na seção ''axé music'', um alerta: as aparências enganam. Não é por ser baiana, ter um trabalho marcadamente percussivo que Margareth Menezes deva ser confundida com artistas comprometidos com sotaques e toques banais. É certo que ela sobe e desce de trios elétricos durante o carnaval de Salvador. Mas rotulá-la como uma cantora a mais de axé é ser, no mínimo, desinformado. Ela é pop. Ou, melhor dizendo, uma intérprete de canções afro-brasileiras revestidas com vigorosa sonoridade pop.
Para não deixar dúvidas aos desavisados ou aos fracos de memória, o sexto disco de Margareth Menezes recebeu o nome de ''Maga Afropopbrasileira''. E chega às lojas depois de sete anos de ostracismo fonográfico involuntário culpa do estigma de que os trabalhos iniciais de Margareth Menezes não atraia bons fluídos comerciais como alguns discos de seus conterrâneos. Agora que os tótens do axé music estão se inclinando mais ao pop, o mercado parece estar mais generoso ou preparado para reconhecer a vitalidade da arte dessa baiana que se diferenciou pelo jeito de lidar com a percussão baiana.
Pois bem, Maga, como é carinhosamente chamada, tratou de chamar Carlinhos Brow e Alê Siqueira, baianos porretas, para produzir o disco. Ambos, lhe deram liberdade para incluir cinco composições próprias. O disco foi gravado entre outubro e novembro de 2001, na Ilha dos Sapos estúdio de Carlinhos Brown, na Bahia. Registrado pelo selo Estrela do Mar, ''Maga Afropobrasileira'' está sendo distribuído pela Universal, que vem deitando bons olhos sobre Margareth Menezes.
Para marcar presença nessa retomada de trajetória, convocou as amiguinhas Daniela Mercury e Ivete Sangalo para, juntas, interpretarem ''Cai Dentro'' (Baden Powell -Paulo César Pinheiro), sucesso de Elis Regina. A canção ganhou versão ''pista de dança'' mas não é o que melhor há de se ressaltar a convocação das estrelas baianas até tem sentido já que depois de muito axé, misses Mercury e Sangalo estão dando o braço a torcer para o pop em seus discos.
''Maga Afropobrasileira'' abre com uma saudação à Bahia, através de ''Pelo Mar Lhe Mando Flor'' (Margareth Menezes), uma boa introdução. E pelo disco espalham-se baladas, sambas baianos, e rock com a inédita ''Mãe de Leite'', de Zeca Baleiro, o grande destaque e talvez a música que traduza o trabalho, no todo, de Margareth. Claro, há canções feitas para se cair no gosto popular. ''Moderninha'' (outra de Margareth), com levada disco e um dos hits do carnaval baiano deste ano, é um bom exemplo. Agora, a faixa que mais pede para ser executada e por que não ser incluída em trilha sonora de novelas é a balada romântica ''Espero'', também da proprietária do álbum.
''Mamãe Querida'' (Humberto do Maracanã), com letras piegas, acaba ganhando força pela percussão que lembra toques de candomblé e o vocal forte da intérprete. Aliás, a voz de Margareth timbre forte, grave, quente está um pouco mais contido, mas ainda é uma das atrações do álbum. E por fim, ''Lua Candeia'' (Lenine - Paulo César Pinheiro), singela ciranda apoiada no violão que encerra o disco com chave de ouro. Um bom desfecho.
''Maga Afropopbrasileiro'' tem cadência e coisa e tal. É um disco que, a princípio, traz Margareth Menezes de volta à mídia. Não é o melhor de sua pequena discografia, mas é um trabalho maduro e verdadeiro. Que deve ser saudado, sim, por ser uma intérprete que esquivou-se de modismo, lançou mão de ser um fenômeno de vendagem para manter-se coerente. Não à toa que na Bahia há uma aura de respeito quando se fala no nome dela ora, trata-se da maga que imprimiu algo mais aos tambores soteropolitanos e os tornou universais.

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