O resgate de um príncipe
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terça-feira, 24 de novembro de 1998
Carlos Haag Agência Estado 
Num tempo em que não havia os livros do Paulo Coelho, ele estava na boca de todas as misses - no tempo em que havia concursos de miss, é claro. Ou melhor, elas sabiam dizer, no máximo, o título de seu livro mais popular, O Pequeno Príncipe, porque, sem dúvida, poucas dentre as moçoilas teria condições de pronunciar o seu nome completo: Antoine Jean Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry. As misses pararam de lê-lo e ele desapareceu no esquecimento, nem sequer com um corpo para ser homenageado num cemitério.
Piloto, Saint-Ex, como era conhecido pelos compatriotas franceses, desapareceu com seu avião, um Lightning P-38, em 31 de julho de 1944, abatido por caças alemães e enterrado pelo mar, na costa de Marselha.
Perto do centenário de nascimento do escritor, no ano 2000, o oceano resolveu libertar uma parte dele para, quem sabe, recuperá-lo do ostracismo injusto em que se encontra. Em setembro, foi achada uma pulseira de prata com seu nome gravado que, há dias, foi oficialmente reconhecida como sua. Além disso, encontraram-se também outras partes do que pode ser a sua aeronave, o que provocou uma verdadeira caça ao tesouro em busca de mais vestígios.
Um filme, Saint-Ex, que narra sua vida, está pronto para ser lançado pela Paris Filmes. O príncipe estará de volta? Ou melhor, o conde. Nascido em Lyon, em 1900, o pequeno nobre, apesar de descender de uma família aristocrática tradicionalíssima, nunca quis ter nada a ver com seus pares. Órfão de pai, passou a viver com um tio e, aos 12 anos, escondido da mãe, fez o seu primeiro vôo num monoplano W. Adorou a brincadeira, mas na hora de escolher tentou, inicialmente, a Marinha e só depois de recusado é que se voltou para a aviação.
No meio tempo, desenhou muito e começou a escrever. O primeiro livro foi Correio Sul, história de sua aprendizagem aérea, um tanto fraquinho, mas fruto direto de sua experiência como piloto da Latécore, o correio postal que ligava Tolouse a Dakar e incentivaria o pioneirismo heróico da Aeropostale.
Quando os sócios pensaram em expandir os negócios para a América do Sul, enviaram-no à Argentina, onde, em 1931, conheceu sua mulher, Consuelo. Vôo Noturno apareceu no ano seguinte. Em 1940, foi para Nova York, onde, em 1943, pouco antes de voltar ao Velho Mundo para combater os nazistas, escreveu, para combater a depressão da inatividade, O Pequeno Príncipe, uma pequena e simpática ode à liberdade e contra a tirania e a crueldade daqueles tempos. O livro trai o seu caráter autobiográfico e chega mesmo a trazer, transformada em flor, Rosa, a mulher portenha.
Saint-Ex queria lutar contra o Mal. Foi, sem dúvida, uma das figuras mais notáveis e nobres da história francesa, um verdadeiro patriota que rejeitou Vichy e, ao mesmo tempo, criticou a imposição degaullista. Atacou também a opressão francesa à Argélia. Enquanto os escritores se escondiam, esperando o fim da guerra, ele, irado por ser impedido de voar para o Exército, pela sua idade, exigia missões de reconhecimento. E não sossegou até embarcar no Lightning, um avião contra-indicado para maiores de 30 anos, ele que tinha 44 e carregava sequelas dos seus muitos acidentes aéreos no correio. Decolou da Córsega para tirar uma série de fotografias e, perto do meio-dia, deu de cara com uma dupla de Messerschmidts.
Diferentemente do piloto perdido no Saara, que se depara com o garoto de cachinhos vindo do asteróide B-612 em busca de água para o seu planeta, Saint-Exupéry não teve quem o ajudasse. Como não podia deixar de ser, o homem que não sabia viver entre adultos simplesmente sumiu, liberto da passagem do tempo e da destruição física em vida. Mais: foi poupado de ver a transformação de sua obra em kitsch, filosofia barata para recitar ao ouvido da namorada ou comover amigos-secretos (ao que se pode acrescentar a sua sorte em não assistir à versão cinematográfica de seu livro, em 1974, dirigida por Stanley Donen). Afinal, ele só queria passar o tempo no exílio americano ou, na melhor das hipóteses, apenas dividir o que aprendera, solitário, nas alturas.


