O RENASCIMENTO DE PEDRO, O NAVA
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
As novas gerações nunca tiveram a oportunidade de ter nas mãos um livro de Pedro Nava (1903 - 1984). Em alguns casos, nunca ouviram falar em seu nome. Nunca encontraram sua obra nas estantes das livrarias.
Há vinte anos Nava era aplaudido, cultuado como o mestre que conferiu novo frescor a um gênero surrado, as memórias. Era considerado a grande revelação da literatura brasileira. Não era um escritor de carreira, mas um respeitado médico que, após a aposentadoria, passou a se dedicar às letras convertendo suas memórias em literatura. Publicou seu primeiro livro, Baú de Ossos, aos 70 anos de idade. Depois vieram Balão Cativo (1973), Chão de Ferro (1976), Beira Mar (1978), Galo das Trevas (1981) e Círio Perfeito (1983). O suicídio interrompeu a conclusão do último volume de suas memórias, Cera das Almas.
Agora as novas gerações terão a oportunidade de conhecer os escritos daquele que é considerado o último dos grandes memorialistas brasileiros. A Ateliê Editorial, em conjunto com a Editora Giordono, num gesto louvável, começa a republicar a obra de Pedro Nava. O primeiro volume de suas memórias, Baú de Ossos, acaba de ser lançado. Outros três livros com escritos inéditos também vieram à luz: O Bicho Urucutum, com texto e desenhos inéditos selecionados por Paulo Penido; Cadernos 1 e 2, que reproduz em fac-símile dois cadernos de anotações do escritor da década de 70; e Viagem ao Egito, Jordânia e Israel, que apresenta fragmentos do diário escrito por Nava em sua viagem pelo Oriente Médio em 1958.
Não seria exagero dizer que Pedro Nava reinventou o gênero memórias na literatura brasileira. Conferiu um estilo próprio, realizou uma reconstituição histórica e cultural da vida privada da primeira metade deste século. Utilizando para isso uma linguagem elaborada, onde a descrição assumia qualidades plásticas e sensoriais. Para Carlos Drummond de Andrade, Nava levou para o verbo sua experiência com a pintura: Um retrato que parte da sutil captação do traço físico definidor, para a revelação psicológica. O artista plástico de singular sensibilidade afirma-se ainda na visualização de cena, paisagem ou simples pertence de casa, marcado pela tradição. A minúcia descritiva e a aguda propriedade vocabular são recursos para identificar, através de cada pormenor, o sentido específico da coisa, a alma do negócio.
Embora tenha escrito seis volumes de memórias, quase três mil páginas narrando a própria existência, o assunto que causa mais curiosidade é exatamente aquele que não consta em seus livros, seu suicídio - embora a morte tenha sido um tema recorrente em sua vida.
O Bicho Urucutum traz um entrevista com Paulo Penido, sobrinho e detentor dos direitos da obra de Nava. Entre vários assuntos tratados, está justamente a obsessão do escritor pela morte. Penido reproduz uma conversa que teve com o escritor sobre o suicídio. O sobrinho afirmava que se algum dia fosse se matar, escolheria uma arma de fogo, um revólver, por ser uma forma rápida de acabar com a própria vida. Nava afirmou que concordava plenamente e acrescentou: É, mas você que já viu de perto casos de tiro na cabeça sabe que é um horror. O miolo espalha-se pelo ambiente, derrama-se litros de sangue no chão. Fica uma porcaria infernal. Além do mais, você abre a sua casa à Polícia, à imprensa, a todo mundo. Aparecem aqueles vândalos passando por cima de tudo numa hora em que a família está frágil. Por fim concluiu: De modo que se um dia fizer uma coisa dessa, será na rua, porque na hora em que me encontrarem bastará levar o cadáver para o instituto médico-legal. Ninguém vai invadir minha casa nem aborrecer, nem tampouco ninguém vai ter que limpar a sujeira. Ora, dizem que nos Estados Unidos da América já tem empresas especializadas em fazer limpeza da casa depois que o sujeito suja toda a sala ou o quarto. Um tiro na cabeça provoca um porcaria tão grande que ninguém consegue evitar que a casa fique suja, manchada.
O fato é que em seu suicídio, Nava agiu exatamente dessa forma. O motivo de seu ato ainda permanece um enigma. Na noite de 13 de maio de 1984, após receber um longo telefonema, saiu de casa - raramente saía durante a noite. Caminhou até uma praça próxima, na Glória, Rio de Janeiro. O local estava deserto. Sentou-se num banco, tirou um revólver calibre 32 do bolso, colocou na cabeça e puxou o gatilho.
No dia seguinte sua foto caído na praça, manchada de sangue, estava nos jornais. Nenhum bilhete suicida, nenhum comunicado, nenhuma pista sobre o motivo de tal ato. A única coisa concreta foi o telefonema. O último telefonema. Em 1975 Pedro Nava chegou a escrever uma carta suicida a ser entregue aos amigos, mas não chegou a consumar o ato.
Alguns dias depois surgiu o boato de que Nava era um homossexual e que mantinha sob total sigilo o fato. O telefonema teria sido de alguma pessoa chantageando-o, ameaçando tornar público seu segredo. Diante da possibilidade de sua sexualidade oculta tornar-se conhecida, teria se matado. O assunto voltou à tona em 1996 com a publicação de uma biografia de Pedro Nava escrita pela pesquisadora Monique Le Moing. Na obra, A Solidão Povoada (Editora Nova Fronteira), a autora mencionava a homossexualidade secreta do autor de Baú de Ossos. O fato de ser um homem casado (casou-se aos 40 anos de idade e não teve filhos) não abolia tal possibilidade. Se tal hipótese for verdadeira, ou mesmo falsa, em nada altera obra de Pedro Nava. O único argumento sensato sobre o assunto é aquele que afirma que um memorialista deve possuir apreço e fidelidade aos fatos, para com a verdade. Ele próprio afirmava que suas memórias nasciam de sua disponibilidade de ser sincero: Meu único critério foi ser fiel a mim mesmo, dizer sempre a verdade. Mesmo a morte não altera, para mim, os sentimentos afetivos. Não transformaria canalhas em santos só porque já morreram. Só escrevo o que penso. O ato de escrever me desoprime, é mesmo uma libertação.
Saber até que ponto os textos do mineiro Pedro Nava são realidade ou ficção é uma tarefa complicada. Isso porque, além de utilizar, em vários casos, pseudônimos para preservar a privacidade de algumas pessoas, usava alter egos (como Zegão e Egon) - principalmente nos últimos livros.
O fato é que seus escritos sobrevivem a qualquer especulação. A memória sempre teve um valor respeitável no decorrer dos milênios. Antes da popularização da palavra escrita, a memória possuía um valor indiscutível, o do conhecimento. Pedro Nava uniu a memória à literatura. Com elegância.
Baú de Ossos de Pedro Nava, Ateliê Editorial, prefácio de Carlos Drummond de Andrade, 464 páginas, R$ 32,00.
O Bicho Urucutum de Pedro Nava, seleção de texto e desenhos de Paulo Penido, Ateliê Editorial/Editora Giordano, 240 páginas, R$ 20,00.
Cadernos 1 e 2 de Pedro Nava, Ateliê Editorial/Editora Giordano, 100 páginas, R$ 17,00.
Viagem ao Egito, Jordânia e Israel de Pedro Nava, Ateliê Editorial/Editora Giordano, 60 páginas, R$ 10,00.
FRAGMENTO
Uma das fortes impressões guardadas da minha infância era a de quando eu acordava e ficava calado, de minha cama, assistindo a meu Pai em luta com sua asma. Ele se punha sentado na beira do leito, braços fortemente esticados para poder levantar os ombros, coberto de suor, olhos arregalados, boca aberta, querendo beber um ar que não entrava. Minha Mãe providenciando os sinapismos de Rigolot que, destacados, deixavam um quadrado escarlate no peito branco; uns cigarros pardos e de cheiro nauseante; os pós de Legras, que eram postos num pires, como montículos, e que, acesos, desprendiam a fumaça ocre posta na direção da boca azulada pela sufocação; as fricções, os cataplasmas, os agasalhos, os escalda-pés, as injeções... Afinal a crise ia cedendo e a cabeça exausta caía num travesseiro amarrado nas costas de uma cadeira. Para que esta não fugisse, nela sentava minha mãe, cochilando. Uma vela tremeluzindo fazia grandes sombras de asas nas paredes. Todos se enterravam no silêncio... Desde cedo acordei para esse ambiente de doença e prestei atenção nos vidros de remédios, nos rótulos, nas coberturas do papel plissado e amarrado em torno às rolhas, nas ampolas transparentes, brancas, amareladas, esfumaçadas ou azuis. Brincava com calendários, agendas, bulas e com as figuras coloridas, brindes do Laboratoire Deschiens. Ouvi e guardei palavras cabalísticas, para mim sem sentido, mas cheias de sonoridade mágica, de estrondosa poesia - como esparadrapo, alcanfor, exuviável, timpanismo, guaiaco, furfurol, gonorréia e clitóris. Prestei sempre a maior atenção ao meu próprio sofrimento, assistindo-o e estudando-o nas minhas moléstias infantis - florescência da catapora, incêndios do sarampão, estrangulamento das amigdalites, tratadas com pinceladas saborosas de mel rosado e no fim, o pus estourando e dando, de repente, aquele gosto de esgoto logo coberto pelo azedo do vômito.
(Trecho de Baú de Ossos de Pedro Nava, Ateliê Editorial)A obra consagrada e textos inéditos de Pedro Nava começam a ser reeditados pela Ateliê Editorial e Editora Giordano
ReproduçãoPedro Nava reinventou o gênero memórias na literatura brasileiraReproduçãoDesenho feito por Pedro NavaReproduçãoAnotações de Pedro Nava para escolher o título de seu primeiro livro





