O 'renascimento da palavra'
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Ninguém mais pode dispensar o bom domínio do idioma. Falar e escrever bem já fazem parte dos requisitos mínimos exigidos por algumas empresas para a contratação de novos profissionais.
Em algumas universidades do País, o empenho em valorizar a expressão verbal levou a inovações na grade curricular de cursos da área de Exatas, que hoje incluem disciplinas voltadas para o aperfeiçoamento do manejo da língua.
''Há três anos dou aulas de expressão verbal para alunos de Engenharia. Há o ententendimento ali de que um projeto de engenharia, por mais impecável que seja do ponto de vista técnico, sempre criará dúvidas sobre o preparo intelectual do autor se não vir acompanhado de clareza em sua apresentação'', diz Oswaldo Coimbra, pesquisador na área de Jornalismo e professor do Instituto Tecnológico da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Segundo ele, o bom desempenho no uso da linguagem verbal e escrita tornou-se crucial para todas as atividades da vida urbana. ''É um atributo importante para a criação da imagem que a pessoa projeta em seu meio social e profissional'', assinala. Em passagem por Londrina, na última semana, Coimbra reencontrou velhos amigos e colegas dos dois períodos em que deu aulas no Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina - em 1977 e 1986.
Autor dos livros ''O Texto da Reportagem Impressa - Um curso sobre a sua Estrutura'' (publicado pela editora Ática em 1993) e ''64 e outros anos'' (Editora Cortez - 1984), entre os 10 títulos já publicados, ele constata um fenômeno novo no País: um suposto ''renascimento da palavra''. ''Estamos vivendo um florescimento da expressão verbal. É um momento novo, já que até poucos anos atrás a juventude brasileira era acusada de possuir uma linguagem verbal estropiada - e os famosos erros nas redações de vestibular serviam para confirmar essa avaliação negativa'', assinala.
Coimbra aponta a internet e a proliferação de revistas especializadas nas bancas como principais sintomas da tendência. Contrariando as visões pessimistas a respeito da comunicação virtual, ele acredita que a ''prática massiva de elaboração de textos na rede mundial de computadores levará, fatalmente, ao surgimento de novos talentos''.
Também vê com entusiasmo o mercado de publicações impressas. ''Há uma incrível riqueza temática nesse segmento'', diz. ''Hoje é possível encontrar vários títulos dedicados a Filosofia, História, Literatura e Sociologia - áreas que antes eram restritas ao público acadêmico. As bancas tornaram-se verdadeiras universidades de Ciências Humanas.''
Planejando retornar futuramente a Londrina, ele aguarda para os próximos dias a publicação de seu quinto livro temático sobre as raízes históricas da Engenharia no Estado do Pará, pesquisa que desenvolve desde 1990. ''Há 20 anos sou pago para escrever livros-reportagem. É uma situção profissional privilegiada'', diz.
De acordo com ele, o fato de convidarem um jornalista e não um historiador para dar cabo da pesquisa revela o status conferido à expressão verbal na escolha. ''Eles queriam um material de leitura acessível a engenheiros e não uma tese acadêmica destinada a um público restrito.'' Pesou aqui, mais uma vez, a importância da clareza e eficiência no uso da língua.


