A intenção da Disney de produzir êxito ainda maior que seu molde de 25 anos atrás é um remake de ação real completamente carente de ação real
A intenção da Disney de produzir êxito ainda maior que seu molde de 25 anos atrás é um remake de ação real completamente carente de ação real | Foto: Reprodução

O filme, que arrebenta bilheterias mundo afora, consegue, mediante tecnologia computadorizada e digital, materializar, de forma, vá lá, surpreendente, a ideia de uma realidade que é pura animação. Uma espécie de hiper-realidade que somente existe na irrealidade. Concebido como a transformação – passo a passo, ou cena a cena, ou quadro a quadro, como quiserem – do clássico desenhado em 1994 em seu reflexo hiper-realista nestes tempos de fake news, este “Rei Leão” de Jon Favreau, não optou por reescrever parcialmente o original (assim como ele fez no surpreendente “O Livro da Selva/Mowgli”, 2016). Favreau e seu roteirista, Jeff Nathanson (eventual colaborador de Spielberg), optaram por buscar a via da sublimação da narrativa, fazendo dela um pomposo e presunçoso cemitério de elefantes. Só faltou mesmo o epitáfio: a animação tradicional está morta, longa vida ao realismo CGI (computer-generated imagery).

Embora ninguém possa dizer, julgando pelas aparências, que os personagens foram integralmente criados via computador. Integralmente: no filme não há uma só forma de vida ou uma única paisagem não surgida a partir de efeitos visuais. Em nível puramente técnico, o resultado não deixa de ser impressionante; mas como forma de contar a história, é um equívoco descomunal. Provavelmente Favreau se ocupou tanto com investigar se podia fazer o filme desta maneira que se esqueceu se esta seria a melhor forma, a mais adequada. A alma dos personagens ficou no freezer. Para outra ocasião, quem sabe.

Tudo o que converteu “O Rei Leão” no clássico da ressurreição Disney nos anos 1990, incluídas suas imperfeições (e ele as tinha) foi, 25 anos depois, replicado com fidelidade doentia neste remake: as canções, as duplas humorísticas, os momentos de terror e aquela ideia conservadora sobre o legado, a transmissão. A versão século 21 criou uma realidade que não é baseada na irrealidade do filme de 1994. Ficção e fantasia (animais que falam, cantam e se comportam como seres humanos) adquirem assim um aspecto bizarro de probabilidade, como aquela abstração da montagem musical-teatral da Broadway que desde 1997 corre os palcos de meio mundo.

Resumindo (1)

O novo filme é capaz de fornecer bonificações que, na melhor das hipóteses, são as mesmas, mas piores. É um blockbuster puramente parasitário, completamente dependente do afeto que o público já traz de casa antes de sentar diante da tela. Recomenda-se primeiro para aqueles que pretendem verificar até que ponto a animação chegou (evoluiu?) no último quarto de século. E para os demais, melhor seria gastar o dinheiro do ingresso na compra de uma cópia do Rei Leão original.

Resumindo (2)

Há receita mais sutil e menos severa de enquadrar este produto do selo Disney: um voo mais fantasioso da imaginação pode ver neste “Rei Leão” de 2019 mais um filho do fenômeno “Black Panther” (2018) do que o já referido autoplágio pretensioso. A vistosa savana é Wakanda, e as intrigas do poder, pelo poder, as alianças, as lutas e os intervalos cômicos correspondem mais ao modelo do super-herói do filme afro-americano da Marvel.

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