O REI DO SUINGUE
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de julho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A coisa começou nas ruas do bairro negro de prostituição de New Orleans, onde a música fervilhava convidando para a farra e emergindo como um dos escassos empregos. É nesse meio que, além de fazer alguns bicos, o menino Louis formou um quarteto vocal com outros garotos para ganhar alguns trocados. Foi o primeiro passo de alguém que iria consolidar o formato do jazz e é lembrado hoje em vários países. Há cem anos a data é aproximada nascia Louis Armstrong.
Apesar de o centenário do trompetista ser comemorado hoje, o dia do nascimento de Armstrong é incerto. A data apareceu quando ele foi parar em uma casa de correção era relativamente comum negros que desconheciam o dia do nascimento escolherem o 4 de julho, que marca a independência dos Estados Unidos.
Considerado um dos principais (e mais polêmicos) críticos norte-americanos, James Lincoln Collier aprofundou o fato em Louis Armstrong, uma biografia sobre o trompetista. Do mesmo autor, Jazz A Autêntica Música Americana, coloca Armstrong como um dos músicos mais importantes do século.
A visão contraria um estereótipo que o próprio Armstrong desenvolveu: a do negro simpático e bem humorado, mais cantor e entertainer do que um instrumentista revolucionário.
Armstrong conhecia bem o universo musical de New Orleans porque passava a maior parte do tempo, durante a infância, pelas ruas arranjando trocados. As calçadas da cidade abrigavam várias bandas que tocavam do blues ao ragtime.
Louis Armstrong cantou com seu quarteto vocal até ser preso após atirar com um 38 durante uma briga. Ninguém se feriu, mas ele foi enviado para um misto de lar infantil e casa correcional. O garoto deu a sorte de topar com uma banda montada na instituição, onde começou a aprender a corneta.
Mais tarde, foi com a banda de King Oliver para Chicago, e em seguida entrou para a orquestra de Fletcher Henderson em Nova York. Durante essa transição, Armstrong desenvolveu as características que o tornaram o músico das gravações antológicas da época do Hot Five e Hot Seven.
O trompetista acompanhou as transformações que o ragtime sofreu até chegar ao compasso 4/4 do jazz, tirou o trompete da zona de registros médios para mergulhar em notas agudas, acrescentando vibratos prolongados. E foi além: começou a brincar com o tempo, antecipando ou adiantando as notas, mudando a acentuação, provocando o efeito que ficou conhecido como suingue. Também foi um dos poucos a se aventurar pelo improviso, coisa rara no estilo de New Orleans. Tudo isso se associava a um timbre límpido, tão personalizado quanto uma impressão digital.
Em Nova York, na década de 20, já com Fletcher Henderson, Louis Armstrong aproveitava algumas raras deixas para cantar. Era o início de uma transformação que se completaria na imagem do cantor negro divertido e incapaz de agressões talvez uma forma desenvolvida para se encaixar socialmente e driblar a discriminação da época.
O estouro musical de Louis Armstrong se deu quando ele mudou o jazz de New Orleans, incutindo improvisos e suingue no conjunto Hot Five, reunido em torno de seu nome. O Hot Five imprimiu um estilo tão diferenciado que Armstrong se tornou referência para qualquer instrumentista que se interessasse pela nova música.
A revolução do Hot Five ganhou respaldo na gravadora Okeh, que apostava nos race records gravações de música negra que faziam muito sucesso. O grupo era composto, principalmente, por Armstrong, Kid Ory no trombone, Johnny Doods no clarinete, Lil Hardin esposa de Armstrong no piano, e John St. Cyr no banjo.
As gravações mostram espontaneidade e entrosamento. Os arranjos intercalavam trombone, trompete e clarinete, que hora comandavam, hora contornavam a melodia principal numa trama desenvolvida ao ponto de se evitar conflitos e fugir do empastelamento. Na cozinha, ficavam o piano e o banjo comandando o ritmo.
Essa série de gravações durou até 1928 e marca o amadurecimento musical de Armstrong. São dessa época registros como Big Butter and Egg Man, gravada em Chicago em novembro de 1926 com May Alix na voz, e Youre Next, de fevereiro de 1926.
Um problema, porém, já começava transparecer. Desde o começo, com a corneta na casa de correção, Armstrong desenvolveu uma embocadura defeituosa, que machucava os lábios. Ainda assim, no início da década de 30, a repercussão de seu nome no meio do jazz só encontrava paralelo em Duke Ellington.
A fase também proporcionou a Armstrong a possibilidade de se tornar um astro, ganhar dinheiro e alcançar a fama como um entertainer, caminho que escolheu após o Hot Five e Hot Seven. A partir de então, Armstrong não retrocedeu como músico, mas tomou um outro rumo, que incluía temas mais palatáveis, participação em shows, filmes e outros espetáculos. Enfim, consolidou a imagem que se tornou conhecida em todo o mundo.
Era exatamente o estereótipo que outro revolucionário, o trompetista Dizzy Gillespie, viria a combater na ascensão do bebop. Gillespie seguiria o caminho inverso de Armstrong, atuando como músico engajado na causa negra. As farpas voaram de ambos os lados.
Para muitos, Louis Armstrong passou a ser um cantor que tocava trompete, e não o contrário. O fato de cantar também lhe dava folga aos lábios, sempre feridos pela má embocadura.
Em 1959, Armstrong sofreu um ataque cardíaco que dificultou sua performance. Com o coração abalado, passou os anos 60 agendando cuidadosamente as aparições, para não se desgastar. Mesmo assim, Armstrong gravou até pouco antes de sua morte, em 6 de julho de 1971, por insuficiência renal.
A Louis Armstrong pode-se atribuir alguns recursos técnicos comuns na atualidade. Ele foi um pioneiro do improviso no jazz e propagou o efeito do suingue, além de ampliar a extensão do trompete, criando uma forma totalmente personalizada de interpretação. Antes dele, o jazz só engatinhava.


