A coisa começou nas ruas do bairro negro de prostituição de New Orleans, onde a música fervilhava convidando para a farra e emergindo como um dos escassos empregos. É nesse meio que, além de fazer alguns bicos, o menino Louis formou um quarteto vocal com outros garotos para ganhar alguns trocados. Foi o primeiro passo de alguém que iria consolidar o formato do jazz – e é lembrado hoje em vários países. Há cem anos – a data é ‘‘aproximada’’ – nascia Louis Armstrong.
Apesar de o centenário do trompetista ser comemorado hoje, o dia do nascimento de Armstrong é incerto. A data apareceu quando ele foi parar em uma casa de correção – era relativamente comum negros que desconheciam o dia do nascimento escolherem o 4 de julho, que marca a independência dos Estados Unidos.
Considerado um dos principais (e mais polêmicos) críticos norte-americanos, James Lincoln Collier aprofundou o fato em ‘‘Louis Armstrong’’, uma biografia sobre o trompetista. Do mesmo autor, ‘‘Jazz – A Autêntica Música Americana’’, coloca Armstrong como um dos músicos mais importantes do século.
A visão contraria um estereótipo que o próprio Armstrong desenvolveu: a do negro simpático e bem humorado, mais cantor e entertainer do que um instrumentista revolucionário.
Armstrong conhecia bem o universo musical de New Orleans porque passava a maior parte do tempo, durante a infância, pelas ruas arranjando trocados. As calçadas da cidade abrigavam várias bandas que tocavam do blues ao ragtime.
Louis Armstrong cantou com seu quarteto vocal até ser preso após atirar – com um 38 – durante uma briga. Ninguém se feriu, mas ele foi enviado para um misto de lar infantil e casa correcional. O garoto deu a sorte de topar com uma banda montada na instituição, onde começou a aprender a corneta.
Mais tarde, foi com a banda de King Oliver para Chicago, e em seguida entrou para a orquestra de Fletcher Henderson em Nova York. Durante essa transição, Armstrong desenvolveu as características que o tornaram o músico das gravações antológicas da época do Hot Five e Hot Seven.
O trompetista acompanhou as transformações que o ragtime sofreu até chegar ao compasso 4/4 do jazz, tirou o trompete da zona de registros médios para mergulhar em notas agudas, acrescentando vibratos prolongados. E foi além: começou a ‘‘brincar’’ com o tempo, antecipando ou adiantando as notas, mudando a acentuação, provocando o efeito que ficou conhecido como suingue. Também foi um dos poucos a se aventurar pelo improviso, coisa rara no estilo de New Orleans. Tudo isso se associava a um timbre límpido, tão personalizado quanto uma impressão digital.
Em Nova York, na década de 20, já com Fletcher Henderson, Louis Armstrong aproveitava algumas raras deixas para cantar. Era o início de uma transformação que se completaria na imagem do cantor negro divertido e incapaz de agressões – talvez uma forma desenvolvida para se encaixar socialmente e driblar a discriminação da época.
O estouro musical de Louis Armstrong se deu quando ele mudou o jazz de New Orleans, incutindo improvisos e suingue no conjunto Hot Five, reunido em torno de seu nome. O Hot Five imprimiu um estilo tão diferenciado que Armstrong se tornou referência para qualquer instrumentista que se interessasse pela nova música.
A revolução do Hot Five ganhou respaldo na gravadora Okeh, que apostava nos race records – gravações de música negra que faziam muito sucesso. O grupo era composto, principalmente, por Armstrong, Kid Ory no trombone, Johnny Doods no clarinete, Lil Hardin – esposa de Armstrong – no piano, e John St. Cyr no banjo.
As gravações mostram espontaneidade e entrosamento. Os arranjos intercalavam trombone, trompete e clarinete, que hora comandavam, hora contornavam a melodia principal numa trama desenvolvida ao ponto de se evitar conflitos e fugir do empastelamento. Na cozinha, ficavam o piano e o banjo comandando o ritmo.
Essa série de gravações durou até 1928 e marca o amadurecimento musical de Armstrong. São dessa época registros como ‘‘Big Butter and Egg Man’’, gravada em Chicago em novembro de 1926 com May Alix na voz, e ‘‘You’re Next’’, de fevereiro de 1926.
Um problema, porém, já começava transparecer. Desde o começo, com a corneta na casa de correção, Armstrong desenvolveu uma embocadura defeituosa, que machucava os lábios. Ainda assim, no início da década de 30, a repercussão de seu nome no meio do jazz só encontrava paralelo em Duke Ellington.
A fase também proporcionou a Armstrong a possibilidade de se tornar um astro, ganhar dinheiro e alcançar a fama como um entertainer, caminho que escolheu após o Hot Five e Hot Seven. A partir de então, Armstrong não retrocedeu como músico, mas tomou um outro rumo, que incluía temas mais palatáveis, participação em shows, filmes e outros espetáculos. Enfim, consolidou a imagem que se tornou conhecida em todo o mundo.
Era exatamente o estereótipo que outro revolucionário, o trompetista Dizzy Gillespie, viria a combater na ascensão do bebop. Gillespie seguiria o caminho inverso de Armstrong, atuando como músico engajado na causa negra. As farpas voaram de ambos os lados.
Para muitos, Louis Armstrong passou a ser um cantor que tocava trompete, e não o contrário. O fato de cantar também lhe dava folga aos lábios, sempre feridos pela má embocadura.
Em 1959, Armstrong sofreu um ataque cardíaco que dificultou sua performance. Com o coração abalado, passou os anos 60 agendando cuidadosamente as aparições, para não se desgastar. Mesmo assim, Armstrong gravou até pouco antes de sua morte, em 6 de julho de 1971, por insuficiência renal.
A Louis Armstrong pode-se atribuir alguns recursos técnicos comuns na atualidade. Ele foi um pioneiro do improviso no jazz e propagou o efeito do suingue, além de ampliar a extensão do trompete, criando uma forma totalmente personalizada de interpretação. Antes dele, o jazz só engatinhava.

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