O REDESCOBRIMENTO DE HUMBERTO MAURO
Auge do Estado Novo, 6 de dezembro de 1937. Era lançado nos cinemas cariocas Descobrimento do Brasil. As informações anteriores levam o leitor a concluir que se trata de um filme de propaganda do governo Getúlio Vargas. E o leitor não se engana, é isso mesmo, mas com um porém. Trata-se de um filme de Humberto Mauro.
O filme que a Funarte distribui agora em DVD não é o único a mostrar a genialidade do mineiro de Cataguases. Humberto é mestre de várias obras primas Ganga Bruta (1933), Favela dos Meus Amores (1935), Brasa Dormida (1928), Sangue Mineiro (1930), Tesouro Perdido (1927), Lábios Sem Beijos (1930), Canto da Saudade (1951) e do crepuscular Memória de Helena, de 1969. O que pode deixar o leitor intrigado é que nenhum desses filmes está disponível nas videolocadoras, exceção de Ganga Bruta, que pode ser encontrado raramente. O lançamento de Descobrimento do Brasil já ganharia destaque só por esse ângulo, o de trazer um filme desconhecido por grande parte do público. Mas não é só isso, pois se trata de uma obra-prima.
Desde 1932, um decreto do governo federal criava diversas facilidades para a produção cinematográfica, como no caso da importação de filmes virgens. Mauro então foi convidado pela Brasília Filme para dirigir o que seria a maior superprodução já realizada no País um retrato do primeiro encontro entre portugueses e índios, o ponto em que nascia a nação brasileira.
Com o patrocínio do Instituto Cacau da Bahia, Descobrimento do Brasil custou aproximadamente 600 contos, pequena fortuna para as produções dos anos 30. A suntuosa produção permitiu a construção de uma caravela do tamanho da original. A Ilha DÁgua, na Baía de Guanabara, transformou-se na Porto Seguro que recebeu os primeiros portugueses. A trilha sonora ficou a cargo do maior gênio musical brasileiro, Heitor Villa-Lobos a única partitura do mestre feita especialmente para o cinema. Dessa união surgiu um fato que Mauro sempre relembraria Toquei violino sob a regência de Villa-Lobos, dizia o cineasta, se referindo ao dia em que o violinista titular não pôde ir.
A equipe de produção era grande, sendo orientada por um grupo de consultores formado por Roquette Pinto, Affonso de Taunay e Bernardino José Souza. Um grupo passou a estudar os contos de Couto Magalhães, já que o filme teria uns trechos em tupi (principal língua dos índios na época do descobrimento). Mauro chegou até a fazer um pequeno dicionário. O roteiro, escrito pelo cineasta, se baseou na carta de Pero Vaz de Caminha, datada de 1º de maio de 1500. A fotografia coube a quatro operadores de câmara: Manoel P. Ribeiro, Alberto Botelho, Alberto Campilha e o próprio Mauro. Apesar de todo este aparato, não foi um filme de produtores, como são os filmes de Holywood hoje em dia, pausterizados e despersonalidos. Foi uma obra máxima, contestada em alguns aspectos.
Como o filme era produzido com apoio estatal, ideologia e estética se confundiam no enredo. Enquanto Mauro caprichou no aspecto visual, usando iluminação a velas (o que seria repetido por Stanley Kubrick quarenta anos depois em Barry Lindon), enquadramentos não usuais para a época, o enredo mostrava portugueses quase santos, com o único intuito de educar os índios e revelar o poder da religião católica. Os índios são mostrados como seres dóceis, ingênuos e abertos ao colonizador. Quem percebeu essa falha histórica na época e criticou Mauro foi o escritor alagoano Graciliano Ramos, em um texto que pode ter sido sua única crítica de cinema. Lamentamos que nesse trabalho de Mauro, trabalho realizado com tanto saber, se dê ao público retratos desfigurados dos exploradores que aqui vieram escravizar e assassinar o índigena sentencia, pouco depois de deixar o cárcere.
Uma outra crítica da época foi mais positiva. Mário Nunes, do Jornal do Brasil, encheu o filme de elogios, em texto publicado em 2 de dezembro de 1937, a quatro dias de sua estréia nacional: Tudo se acha narrado com épica simplicidade e com um sabor artístico-cinematográfico que dá a Humberto Mauro o título incontestável de primus inter pares, considerado o cinema como arte e não como diversão.
Apesar da celeuma entre a crítica especializada, Descobrimento do Brasil obteve razoável público e destaque internacional. Em 1938, Mauro foi convidado a participar da mostra oficial do Festival de Veneza com os documentários Vitória Régia e Céu do Brasil, sendo o primeiro brasileiro a representar o País no exterior. Aproveitou a viagem e levou o recém acabado Descobrimento, que foi exibido em mostra paralela. O público italiano gostou, e Mauro recebeu convites para trabalhar na Europa. Não aceitou, seu lugar era o Brasil.
Mauro era um daqueles cineastas com formação completa música (tocava violino), teatro (começou desde garoto), literatura (escrevia razoáveis poemas amorosos). Era um criador intuitivo, que privilegiava a experimentação como melhor método de trabalho. Não ia muito aos cinemas, vendo poucos filmes de David Wark Griffith (o criador da linguagem americana, autor de O Nascimento de uma Nação e Intolerância) e algumas comédias de Chaplin. Achava que cinema era cachoeira. Uma definição inusitada, que para Mauro simbolizava o encanto que o fluxo caótico da natureza causa em um bom observador.
Realizando um cinema basicamente intuitivo, criou o que pode ser reconhecida como uma linguagem autêntica do cinema nacional, com enquadramentos que não seguiam as escolas em voga na época a de Griffith, a dos expressionistas na Alemanha, e dos russos, adeptos das teorias de montagem de Serguei Eisenstein e Dziga Vertov. Mauro expressava um ritmo próprio, de sua Cataguases, pequena cidade mineira que era palco para muitas de suas filmagens.
Seus filmes possuem um tom ingênuo parecem que foram feitos em família (e muitos foram mesmo). Ganga Bruta, sua obra máxima, traz reflexões psicanalíticas que talvez nem fossem imaginadas pelo cineasta na época. O filme foi selecionado em 1995 no Festival de Berlim como um dos cem melhores do século. Foi a única produção brasileira a integrar esse grupo selecto, e uma das poucas pré cinema-novo elogiadas por Gláuber Rocha em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, obra de 1962 publicada pela Civilização Brasileira.
Descobrimento do Brasil, se tem algumas imprecisões históricas, não deixa de deleitar o espectador em seus 83 minutos originais com imagens poéticas próximas à magia visual composta por Orson Welles poucos anos depois, em 1942, quando aqui esteve para filmar Its All True. Como Welles era adepto do experimentalismo vide Cidadão Kane , ele imaginou enquadramentos idênticos aos que seis anos antes Mauro utilizara para seu retrato da descoberta do Brasil. O discurso de Mauro, paternalista com os portugueses (como era o Estado Novo com o povo) insere Descobrimento do Brasil em um grupo reduzido de películas que, apesar da ideologia, possuem qualidades estéticas infinitamente superiores. Semelhantes ao filme de Mauro são Encouraçado Potemkin, de Eisenstein, e O Triunfo da Vontade, de Liene Riefensthal. Filmes que comprovam que a moral não é irmã da estética, e sim, uma prima que por vezes aparece. O leitor que quiser adquirir Descobrimento do Brasil pode procurar nas lojas especializadas ou ligar direto para a Funarte: (21) 279-8002 ou 279-8003.





