A história que está na origem de ‘‘Onze Homens e um Segredo’’ (veja a programação de cinema na página 2), e que foi filmada em 1960 por Lewis Milestone, tinha sido concebida na medida para o famoso ‘‘Rat Pack’’, isto é, o mitológico ‘‘Clã Sinatra’’. A atração popular estava toda depositada na conexão entre realidade e ficção, isto é, o gancho estava em ver o simpático grupo da vida real - integrado por artistas e companheiros de grossas farras com jogatina e mulheres - reunido na tela pela primeira vez para uma rocambolesca aventura: uma companhia de ex-combatentes da Segunda Guerra de novo juntos agora no papel de assaltantes de um cassino em Las Vegas.
Nesta refilmagem assinada por Steven Soderbergh o vínculo mudou. A única confraria a que pertencem os atores deste ‘‘Ocean’s Eleven’’ é a de Hollywood: neste momento são todos atores ricos e famosos. O que dá para perceber é a operação de marketing, impressão fortalecida pela intensa campanha publicitária que insistiu na ‘‘franca camaradagem’’ que reinou entre o elenco durante as filmagens. Não deixa de ser uma curisosa inversão: há 42 anos se aproveitava a realidade para sustentar uma ficção e promover as atuações frequentes dos membros do clã pelas noites de Las Vegas (Sinatra, Samy Davis Jr., Dean Martin ). Agora, a ficção é o artigo cuja promoção determina o comportamento do transitório ‘‘cl㒒 na realidade.
O ex-presidiário Danny Ocean (George Clooney), financiado pelo Magnata Tishkoff, bola um plano para roubar três dos principais cassinos de Las Vegas. A quantia: 163 milhões de dólares. O momento: durante a luta de boxe decisiva entre Lennox Lewis e Vladimir Klitschko. A quadrilha: onze especialistas nas mais variadas funções. Há interesses supervenientes: Ocean e Tishkoff têm razões pessoais para arrasar com o dono dos cassinos, Benedict (Andy Garcia). Este ficou com Julia Roberts, mulher do primeiro, e com as empresas do segundo. Sem exceção, da Terra do Fogo à Groenlândia, ninguém duvida de como as coisas vão terminar nesta história que cumpre o que promete.
‘‘Onze Homens e Um Segredo’’, embora realizado com zelo profissional e a partir de pura estimulação lúdica, não está a altura dos filmes mais empenhados de Steven Soderbergh, especialmente de sua safra mais recente, ‘‘O Estranho’’, ‘‘Erin Brockovich’’ e ‘‘Traffic’’. Diante do filme, não se pode dizer com certeza se seria lícito esperar algo mais do que se vê. Tudo indica que não passou pela cabeça de Soderbergh nenhuma outra ambição além de proporcionar puro entretenimento durante um par de horas. E parece que ainda conseguiu alguma coisa que parecia indispensável para a adesão da platéia: que o grupo de estrelas se comprometesse com a diversão, contagiando o espectador com o espírito ligeiro e travessso da narrativa. O resto fica por conta de uma leve ironia, do dinamismo da trama e do refinamento de uma produção cara e complicada.

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