O Rebelde
de 68
fala na TV
Líder da rebelião de Maio de 68 em Paris,
Daniel Cohn-Bendit é o destaque de
‘‘Entrevista Especial’’ hoje, na Globonews
Nelson Sato

Reprodução
Daniel
Cohn-Bendit:
estudante
anarquista
em 68 e
parlamentar
verde-pacifista
em 98 com
visão política
‘‘realista’’A celebração de maio de 68 parece inesgotável. Revistas publicam matérias, jornais encartam suplementos especiais, estudantes fazem trabalhos escolares, editoras lançam livros e os protagonistas falam pelos cotovelos.
Todos entoam o mesmo refrão. A TV, claro, não poderia perder o bonde. Dois canais por assinatura festejam os acontecimentos da época este mês, quando a rebelião sopra trinta velinhas. Na Globonews, o destaque é o programa ‘‘Entrevista Especial’’, que leva ao ar hoje, às 23 horas, uma conversa com Daniel Cohn-Bendit, principal agitador do movimento.
Na GNT, é o programa ‘‘Marília Gabriela Entrevista’’ que abre espaço para a sessão retrô. Durante todo o mês, vários convidados sentam com a apresentadora para falar do maio de 68 brasileiro. A estréia, ocorrida na terça, contou com a atriz Ítala Nandi e o teatrólogo Augusto Boal. Na próxima semana, participam os escritores Luis Carlos Maciel e Zuenir Ventura.
France Press
Cenas inesquecíveis de maio de 68,
quando Paris conheceu de perto a revolta de estudantes da Sorbonne
No dia 19, o papo é com o sociólogo Cesar Benjamin. Fechando a série, no dia 26, é a vez de Caetano Veloso. O programa vai ao ar às terças-feiras às 23 horas. O destaque dessa programação, porém, é a entrevista com Cohn-Bendit. A equipe da Globonews foi ao seu encontro em Estrasburgo, onde ele é deputado pelo Partido Verde no Parlamento Europeu.
Conservando o rosto ruivo marcado por sardas, Cohn-Bendit é hoje um contestador de 53 anos que trocou há muito tempo o vermelho pelo verde, a rebeldia pelo pacifismo e o anarquismo pela visão política ‘‘realista’’. Pai de um filho de 8 anos, o antigo ‘‘Danny le Rouge’’ das barricadas virou uma espécie de memória ambulante e porta-voz vitalício das causas libertárias maio-ístas, já que os demais ‘‘cabeças’’ do movimento sumiram de cena.
Fazendo uma retrospectiva de seu passado heróico, há um dado biográfico curioso em sua fase incendiária. Quando estudava sociologia política na faculdade de Nanterre, um de seus professores era nada mais e nada menos do que o agora presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi, aliás, nos corredores dessa escola que ele acendeu o estopim do Maio de 68 ao convocar um protesto contra a prisão de quatro colegas durante confrontos com a polícia.
A repercussão do protesto foi tamanha, que a ele seguiram-se uma passeata de 20 mil estudantes, outra de 200 mil, a adesão dos trabalhadores e a greve geral da França. Meses depois, ao ser expulso do país, Daniel recebeu a solidariedade de 50 mil jovens, que saíram às ruas desafiando as autoridades com o grito ‘‘somos todos judeus-alemães’’.
A partir daí, Cohn-Bendit saiu pelo mundo atuando em várias frentes: trabalhou como educador em jardins de infância, escreveu como free-lancer em publicações européias, editou revistas, publicou o livro ‘‘O Grande Bazar’’, foi vice-prefeito da cidade de Frankfurt onde comandou a pasta responsável pela ajuda e integração de imigrantes e passou quase uma década no meio de plantadores de hortaliças do movimento ecológico.
Em 1984 esticou uma temporada de seis meses no Brasil, onde veio entrevistar Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis para um documentário da televisão francesa e para um livro (publicado no Brasil pela Brasiliense) repleto de depoimentos de gente como Abbie Hoffman, Bobby Seele, Rob Stolk, Joshka Fischer e outros sujeitos não menos importantes que atuaram nas jornadas revolucionárias de 68.
Atualmente, além da atuação parlamentar, Cohn-Bendit apresenta um programa de literatura numa emissora de TV suíço-alemã onde entrevista poetas e escritores. No mês passado, em meio aos festejos da efeméride, ele foi contemplado com o lançamento de uma biografia não-autorizada escrita pelo jornalista e escritor Laurent Lemire, o que mantém seu carisma em alta três décadas depois de sair às ruas para fazer história.

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