Cannes - Por princípio, Woody Allen nunca vai a a festivais. Quer dizer, vai sempre a Veneza mas nunca aparece em público, não dá entrevistas mas às vezes pode-se até tropeçar com ele, ‘‘incógnito’’ em alguma viela no labirinto da cidade. No Festival de Cannes foi diferente. Convidado para trazer sua última comédia, ‘‘Hollywood Ending’’, que abriu oficialmente a mostra, Woody não só aceitou como veio receptivo como nunca. Veio com a mulher Soon-Yi e com os filhos Bechet e Manzie Tio, ficou quase uma semana, foi à coletiva e ainda se dispôs a receber pequenos grupos de jornalistas, o que provocou uma das mais acirradas concorrências da história recente do festival.
A Folha conversou com Woody Allen no último sábado, numa suíte do Hotel Martinez. Aos 67 anos, o diretor estava surpreendentemente calmo para quem assume as dificuldades para lidar com pessoas estranhas e que se propõem a indagar sobre ele mesmo. Muito amável mas mostrando algum cansaço, ele apareceu vestido de...Woody Allen, metido numa de suas indefectíveis calças largas de veludo cotelê mostarda, camisa azul com punhos abotoados e nas mãos um blazer de tweed marron. E quem esperava encontrar um artista somente engraçado, se surpreendeu antes com sua extrema delicadeza - e às vezes paciência - ao responder as perguntas.
Por que finalmente vir a Cannes?
Eu vinha sendo convidado há mais de vinte anos. Nunca tinha ido a nenhum festival antes. Não me agrada a idéia de competição entre filmes, entre diretores. Eu não poderia jamais participar de algum júri. Com que direito, fechado num quarto com outros, eu poderia julgar este ou aquele filme. Concordei em vir por agradecer à França pela acolhida generosa que sempre deu aos meus filmes. Além disso, tinha acabado de fazer um filme que falava justamente sobre a figura do diretor de cinema. E Gilles Jacob (NR: o veterano diretor-geral de Cannes) é um verdadeiro cinéfilo. Isto influiu muito na minha decisão.
O senhor não foi muito irônico no fim de ‘‘Hollywood Ending’’, quando mostra a crítica francesa dizendo que o filme, dirigido por alguém que ficou cego durante as filmagens, é uma obra-prima?
Foi apenas uma brincadeira, sem nenhuma ofensa. Volto a dizer, amo a França de paixão. O cinema europeu em geral, e o francês em particular, sempre me fascinaram. Fellini, Bergman, René Clair, Jean Renoir, Alain Resnais...
Resnais está sendo homenageado este ano pelo Festival. O senhor já se encontrou com ele?
Eu primeiro reencontrei seus filmes, e adorei. Sim, já estive com ele mas em outra ocasião. E não me esqueço nunca de seu conselho: ‘‘Guarde bem seu dinheiro, para não acabar seus dias no retiro dos artistas’’. Às vezes me pergunto se não era uma piada...
Por que o senhor se imaginou um realizador cego em ‘‘Hollywood Ending’’?
Por que? Isto não existe? Volto a dizer que não nenhuma mensagem no filme. É simplesmente uma situação bizarra, para ser apenas engraçada. Imagine o que não teria feira um gênio como Chaplin com esta idéia. Penso há muito tempo num tipo de herói que não enxerga nada. Primeiro pensei num neurocirurgião, ou mesmo num lutador de boxe (risos). Mas com um diretor de cinema estou no meu universo. E mostro que podemos, mesmo cegos, criar uma obra.
No final das contas, ‘‘Hollywood Ending’’ é mais um filme de amor...
Uma comédia romântica. O tema do casal separado mas inseparável nunca me abandonou. Ele me motivou desde a infância, quando via casais legendários como Katherine Hepburn e Spencer Tracy. É uma situação clássica.
Pode-se ver em ‘‘Hollywood Ending’’ uma espécie de reconciliação sua com Hollywood?
Continuo muito crítico quanto a esta máquina de tritutar milhões e milhões de dólares sem nenhum risco, numa incrível velocidade, com filmes na grande maioria sem qualquer interesse.
Téa Leoni, atriz de seu filme, descreve o senhor como ‘‘o realizador mais sexy do mundo’’. O que o senhor achar disso?
Ah, ela disse isso para promover o filme, mas também deve ter lá suas razões...(risos)
Como o senhor explica que em todos os seus filmes há sempre uma boa quantidade de mulheres bonitas?
Amo as mulheres. Isto ajuda, claro. Elas são sempre muito mais interessantes que os homens. A maioria dos roteiros por aí dá a elas papéis passivos. Na mesma linha de uma Audrey Hepburn ou uma Claudette Colbert, escrevi personagens de mulheres fortes, determinadas, para Diane Keaton, Mia Farrow, Judy Davis, Helen Hunt.
Por que realizar um filme por ano?
Há dois tipos de realizadores. Aqueles que, como Kubrick, se contentam com um filme a cada quatro, seis, dez anos, às vezes mais. Esses filmes toda vez se tornam uma obra-prima, ou pelo menos um acontecimento. Ou há aqueles como Spielberg, que filmam com mais frequência e também são um acontecimento. E ainda aqueles que não ligam para o acontecimento, apenas fazem seu trabalho. Eu sou deste último tipo. Um filme a cada ano. Bons, em alguns anos, e menos bons, em outros anos.
Por que, outra vez e sempre, Nova York como cenário?
Isto se tornou uma saudação permanente a uma cidade abençoada, um hino a sua beleza, apesar de tudo. Muita gente ficou perplexa ao me ver pela primeira numa entrega de Oscar. Não foi pelo meu ego, mas para homenagear o cinema feito em Nova York, e principalmente as filmagens depois do horror de 11 de setembro. Era um dever aceitar.
Como o senhor se coloca no dia-a-dia? É conhecida sua maneira reservada quando diante de muitas pessoas, e também a sua timidez. O senhor mesmo falou em ‘‘quase pânico’’ durante a coletiva aqui em Cannes.
E se vocês estavam lá deu para notar, não? É que sou uma pessoa nada extraordinária, muito tranquilo. Assisto os jogos de basquete, é uma ótima distração. Quando não estou trabalhando penso, e quando penso termino deprimido...
O senhor já pensou em lançar pessoalmente um filme seu no Brasil?
Esta é uma questão de quem distribui meus filmes em cada país. Já fui convidado duas vezes para ir ao Brasil, mas não para lançar filmes. Querem que eu e minha banda de jazz nos apresentemos em São Paulo, e pode ser que isto aconteça muito breve.

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