O quebra-cabeças de Rosa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de setembro de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

No emocionado agradecimento que fez semana passada após receber em Gramado o prêmio de melhor ator no filme (também vencedor) de Laís Bodansky, Paulo Vilhena conclamou aos homens que fossem ver o filme, dirigido por uma mulher e aparentemente dirigido às mulheres. Tem razão Vilhena. E mais razão ainda quando, no mesmo discurso, perguntou "mas que palavra tão estranhamente preconceituosa, empoderamento !"(além de antipática, soa mal, foneticamente). Alguns dias antes, no debate matinal que se seguiu à exibição, ele, Maria Ribeiro e Clarice Abujamra - os três premiados do elenco - além de Laís e do co-roteirista Luis Bolonhesi, falaram longamente sobre a questão de gênero, não apenas, mas principalmente no cinema. Em especial sobre o viés feminista, que no filme, na verdade, é um maravilhoso viés universal e humanista. Deve ser o nosso representante na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, a ser anunciado até o dia 15.
O novo trabalho de Laís Bodansky ("Bicho de Sete Cabeças", "As Melhores Coisas do Mundo") é drama familiar complexo (e que família não é complexa ?) que acompanha a história de Rosa (Maria Ribeiro), mulher às voltas com problemas no casamento, no trabalho e no relacionamento com a mãe num desses almoços de domingo, descobre não ser filha de quem sempre chamou de pai. Quem se lembra da música de Belchior que empresta título à produção, vai saber do que o filme está falando. Quem não conhece, por favor, recupere a canção. Além de composição primorosa, ela não é nem uma pista: é o melhor e mais perfeito spoiler que se deseja, dentro e fora do cinema, já que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".
Rosa é uma supermulher, maravilha conflituosa à sua maneira. Uma malabarista. Pontua sempre nas relações familiares. Está sempre na corda bamba, nos limites de sua resistência psicológica no trato com o marido antropólogo (da porta para fora, já que não sabe ser marido ou pai ou antropólogo de si mesmo), com os filhos, com a mãe com quem vai descobrindo coisas de si mesma, com uma sociedade patriarcal que é seu maior desafio. É forte e resistente, mesmo quando perde de vista seu ideal como escritora. Às vezes pode ser frágil, mas resistente. Acredita em mudanças. E vai fundo, alternando equilíbrio com desafio, drama com humor. Filme que se apoia essencialmente nos diálogos, "Como Nossos Pais" nunca perde seu peso dramático justamente pela densidade dessas conversas bem construídas.
Com disciplina irregular, Rosa vai aos poucos montando seu quebra-cabeças, juntando peça por peça, buscando armar um quadro que não seja tão tradicionalmente familiar como às vezes lhe parece. Ela sabe que transformar não é fácil, mas sabe também que mudar as coisas cabe muito mais a ela do que aos que são seu entorno.
Para compor essa mulher, Laís apostou em Maria Ribeiro, que afinal justificou todas as fichas da diretora reconhecidamente alguém com imensa habilidade para dirigir atores.
Como em "Bicho de Sete Cabeças", Laís fala novamente sobre regras sociais e como elas interferem em nossas vidas privadas. E constrói bem como sempre um mosaico de personagens de rara espessura dramática e humana. Um filme para não perder, sob nenhum pretexto.


