ReproduçãoGabriel, o Pensador: humor e críticas ao movimento rap‘‘Quebra-Cabeça’’, terceiro disco do rapper Gabriel, o Pensador, 23, é a marca de seu isolamento. Após uma estréia badalada em 93 - quando ele tinha apenas 19 anos - e um segundo disco de pouca repercussão, em 95, ele afirma não acreditar mais no ‘‘movimento rap’’. ‘‘Vi que não é aquele movimento que eu queria que fosse. Até as pessoas do hip hop que eu queria ajudar falaram mal de mim. Houve ciúme, rixa, bairrismo’’, disse. Hoje não carrego mais a bandeira de ninguém. Quando falei as coisas, ninguém apoiou’’, continuou.
Parte da má reação da ‘‘comunidade rap’’ ele sofre por ser, diferentemente da maioria dos rappers, um garoto de classe média - do tipo que interrompe várias vezes a entrevista para falar ao telefone celular. ‘‘Nunca fui pobre, mas o povão sabe que eu sou sincero.’’ Entre os temas eleitos para o novo CD estão situações que ele afirma nunca ter vivido - desemprego, fila em hospital, criminalidade. ‘‘A gente vive indiretamente todas essas coisas. Não sei se sou mais sensível que as outras pessoas que têm grana, mas acho que são preocupações naturais. Não são só os miseráveis que lutam contra a miséria. O Betinho e o Che Guevara são bons exemplos.’’
MudançasA fase de desilusão coincide com mudanças no som, segundo ele. ‘‘Quis buscar novos caminhos, chamando músicos de jazz e cantores como Lulu Santos, Frejat e Evandro Mesquita para participar. Também hoje não tenho medo de mostrar meu lado mais alegre, não estou me censurando mais.’’ O resultado é o hit de rádio ‘‘2345meia78’’ (aquele que rima com ‘‘tá na hora de molhar o biscoito’’), que causou uma avalanche de reclamações de pessoas que têm telefones com o número citado na letra.
A filiação de Gabriel, o Pensador à linha de humor infantil do hit ‘‘2345meia78’’, configura-se também nas faixas ‘‘Bala Perdida’’ - que chora a violência pela ótica torturada da ...bala! - ou ‘‘Festa da Música’’, em que celebra o establishment MPB e luminares como Chitãozinho e Xororó. Ao que tudo indica, ele assume a nova tendência no cenário pop nacional de ocupar a vaga deixada pelos irreverentes Mamonas Assassinas.
No momento mais inspirado do disco, o rapper critica o desemprego em ritmo de pagode, já indiretamente criticando o pagode. Mas ‘‘Dança do Desempregado’’, diluída no contexto do CD, parece mais homenagem à boquinha da garrafa, retratando um jovem precocemente esmorecido.

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