Não dá para falar só de política num espaço de cultura, mas a tentação é grande numa semana em que voaram além das penas até os ossos. Mas dá para falar um pouquinho de política enfocando a cultura, o cinema, como no caso do filme "Chico, artista brasileiro", dirigido por Miguel Faria Jr., que estreou em novembro, sobre a vida e obra de Chico Buarque de Holanda. Chico é daqueles artistas que nunca conseguiram não se envolver com política, fez da sua arte uma extensão de sua ideologia, o que nem sempre é bom, mas com ele isso redundou numa série de canções geniais.
O filme é um documentário em formato clássico, feito não a partir de um roteiro, segundo o diretor, mas das entrevistas que foram feitas antes para serem costuradas depois. Uma inversão do processo, um encadeamento a partir da edição pontuada ainda por músicas de Chico que se casam com as situações que ele vai comentando.
O filme aborda o exílio de Chico, em 1966, quando se viu obrigado a ser artista profissional e, para sobreviver, armou um show na Itália com ninguém menos que Josephine Baker já em fim de carreira. O show foi um fracasso, ninguém se entusiasmava, nem se mexia na plateia, daí nasceu a ideia que Chico fica pouco à vontade com o público, pudera.
Acontece que diante das câmeras Chico não tem nada de tímido, é muito solto, ri o tempo todo dos próprios traumas, fala gostosamente de suas ligações com outros grandes compositores como Vinícius, Toquinho e Tom Jobim. Mas fui ao cinema atenta à escorregada fatal que foi apontada na rede social pelo escritor Marcelo Mirisola, a afirmação de Chico que o Brasil da bossa nova não era o Brasil de verdade, que aquilo não correspondia à realidade do país e que agora sim, o Brasil teria uma cara mais autêntica. Puxa, diante disso meu orgulho nacional desmoronou, porque se a cara do Brasil é a cultura de rodeios que temos hoje, com o funk e o sertanejo assolando nossos ouvidos, o país retrocedeu e resta pedir socorro, além de exílio na Escandinávia.
Não quero debitar só à política nossa configuração atual de breguice exacerbada, creio mesmo que ainda se faz boa música no Brasil, embora a mídia não a divulgue. Surpreendi-me quando fui convidada para ser jurada do festival de música de Cruzília (MG) há poucos meses e, para meu alívio, não ouvi um único funk, nenhum sertanejo universitário. Pensei que o Brasil tem jeito.
Então há um equívoco, Chico, se sua afirmação de autenticidade se refere a esse Brasil que escolheu o rodeio como diversão principal, com duplas berrando mais que os bois e as botas marcando um compasso que soa como ofensa. Sinto muito, mas é esse o Brasil midiático do qual não me orgulho, acho mesmo que é produto de uma cultura de segunda linha que dispensou fontes mais refinadas como sua própria criação que nunca cedeu à facilidade nem à massificação.
A frase não chega a comprometer o filme, repleto de boa música e tiradas de artista inteligente. Mas foi um escorregão tendo em vista a coincidência entre o Brasil culturalmente grotesco e a fase política em que a música popular também perdeu o controle para a falta de ética, a ponto das letras e os ritmos monótonos provocarem mais preconceito que abertura. Ou não será incitar o preconceito tratar a mulher como "cachorra"? Por favor, Chico, pense melhor e nos redima dessa cultura de machistas e de caubóis. Isso foi o que você sempre fez de melhor pelo Brasil. Nos redima do choque político e cultural que a gente sente quando sai do cinema pois "a coisa aqui tá preta", é preciso "muita careta pra engolir a transação", e, no fundo, "ninguém segura mais esse rojão".

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