Há quatro anos Marco Nanini não faz novelas. Sua última permanência mais longa no vídeo foi na novela ‘‘Pedra sobre Pedra’’, em que interpretava o abobalhado Ivonaldo Pontes. De lá para cá, as aparições foram bissextas, no ‘‘Brasil Especial’’ ou em episódios de ‘‘A Comédia da Vida Privada’’. Mas, em breve, o público poderá observar as nuances do ator por mais tempo na tevê: ele acaba de aceitar o convite para integrar o elenco da disputada minissérie ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’, adaptada por Dias Gomes e com direção de Mauro Mendonça Filho.
Para interpretar Teodoro, o marido mais comportado da sensual cozinheira baiana criada por Jorge Amado, Nanini está estudando o texto com cuidado. Não gosta de pressa. Seu método consiste em ler tranquilamente os capítulos para buscar inspiração em todo e qualquer diálogo ou canto de página que lhe dê alguma idéia. ‘‘Gosto de fazer este processo lentamente’’, afirma, com a fleuma peculiar.
Marco Nanini não tem preconceito contra novela. Mas, aos 46 anos de idade e 30 de carreira, tem lá suas reivindicações. Não quer ser necessariamente o protagonista, mas exige respeito. Ou seja, que não lhe apareçam com propostas sem sedução, que a resposta será um redondo não. ‘‘Quero um personagem que me divirta’’, avisa.
Enquanto não começa a gravar Dona Flor, o que só deve acontecer depois do Carnaval, Nanini faz a sua catarse emocional no palco. Em cartaz no Rio, a peça ‘‘O Burguês Ridículo’’, baseada na obra de Moliere, leva para a ribalta a dobradinha que vem dando certo na tevê com Guel Arraes - este, por sua vez, faz sua estréia no teatro.
O cinema também faz parte de seus planos. Acaba de ser convidado para protagonizar ‘‘Amor e Companhia’’, de Helvécio Ratton. Baseado no romance ‘‘Álvaro e Companhia’’, de Eça de Queiróz, a trama se desenvolve a partir da história de um cidadão bem-casado, que vê a vida se desmoronar ao descobrir que a esposa o está traindo com seu sócio. ‘‘Gostei muito do roteiro, só falta acertar as datas’’, diz.
As suas poucas aparições na televisão limitam-se aos episódios de ‘‘A Comédia da Vida Privada’’. O seu padrão de qualidade está tão alto que o impede de aceitar outros convites na tevê?
Marco Nanini - Não. Acho que existem pessoas que fazem trabalhos muito bons na televisão. Para mim, o que pesa é a questão do tempo. A gravação destes especiais leva apenas 15 dias e fica mais fácil de me organizar. Também, todos os papéis que o Guel Arraes me deu foram irrecusáveis. Tanto os protagonistas como os outros. Me lembro que em ‘‘Lisbela e o Prisioneiro’’ fiz um matador. Nunca tinha feito e adorei fazer aquilo.
É a falta de tempo que lhe impede de fazer novelas?
Marco Nanini - Já fiz muitas novelas, mas gostaria de ter um papel bacana. Não estou reivindicando nenhum protagonista. Queria um papel em que pudesse me divertir, preciso me divertir. Se a gente não se diverte, a coisa sai sem tempero. Se vou fazer chateado, até consigo fazer, mas para mim é mais legal se eu brincar também, gostar de fazer aquele papel, ficar animado. Não pintou ainda um papel que me estimulasse a pensar. Agora fui convidado para fazer a minissérie ‘‘Dona Flor e seus Dois Maridos’’. É um papel bom, interessante. Então estou estudando. O personagem é o Teodoro, o marido mais caretinha da Dona Flor. Estou começando a ler os capítulos.
Já pensou como compor o perfil do personagem?
Marco Nanini - É um trabalho muito delicado. Gosto de ler os capítulos lentamente porque às vezes a informação que me pode ser útil está em outra cena que nem é a minha. Tenho de ter uma certa solenidade, uma certa tranquilidade para ler os capítulos. Isso para ver o que me chama a atenção, o que me inspira. Primeiro vou acumulando informações para depois selecionar. É um trabalho que gosto de fazer lentamente para não me precipitar e passar por cima de uma informação importante. Acabei de começar.
As várias comédias que você vem protagonizando fazem com que o público sempre o associe ao humor. Isso lhe incomoda?
Marco Nanini - O público sabe que sou um ator que, em determinado momento, está fazendo um tipo e já não me confunde tanto com a fantasia. Ser um ator que tem o trabalho reconhecido pelo público me orgulha muito. Não o fato de ter um nome. Isso é bijuteria. O bom é saber que meu trabalho fala ao coração do espectador. Neste caso, fazer humor ou outro gênero não importa. Estou mais habituado a fazer humor porque tem mais a ver com o espírito brasileiro. Mas em teatro, de vez em quando, faço umas coisas mais dramáticas, como foi o caso de ‘‘Kean’’, que fiz ano passado. E muitas vezes, em personagens efetivamente de humor, eu sigo um caminho de não-humor para resultar no humor.
Como seguir este caminho?
Marco Nanini - São caminhos sutis que eu combino com o Guel (Arraes) e procuro fazer. Na verdade, as pessoas riem de quê? Da desgraça dos outros e não da felicidade. Você não cai na gargalhada porque alguém ganhou uma fortuna ou está namorando. Ri quando alguém é corneado ou se deu mal ou é ingênuo... Tem uma crueldade, uma molecagem no riso, um erê, um diabinho. Todo personagem cômico, se você olhar bem, tem um lado dramático muito grande, que não pode ser esquecido. A comédia vem da consequência do que foi feito. Na criação, você tem de estar muito atento às tragédias e aos pequenos dramas do personagem. São elas que dão o pulso para você rir.
Produzir e dirigir, além de atuar, ajuda a ampliar as possibilidades como ator?
Marco Nanini - Comecei a dirigir justamente para começar a ampliar este universo. Estava somente numa área, que era o palco, acostumado a ver através da ótica do ator, ou seja, no centro do furacão. O ator vai ficando meio desorientado, vê as coisas envolto por insegurança e muitas sensações. Queria observar esse processo sem ter esses conflitos que não permitem ter essa visão distanciada. Com a direção, posso observar esse furacão sem estar no meio dele. A produção me situa um pouco mais, me permite observar o que está à minha volta e não pirar na fantasia. É o canto da sereia. Se ficar só pirado, não volto mais.
Como você convenceu o Guel Arraes a estrear no teatro como diretor de ‘‘O Burguês Ridículo?’’
Marco Nanini - Tive um encontro bastante feliz, principalmente para mim, com o Guel na televisão. Fazia televisão há muito tempo, mas nunca fui tão íntimo de uma câmara e de um estúdio como sou agora depois que aprendi com ele. Evidentemente percebi, de cara, que o Guel não era apenas um grande diretor de televisão. O Guel é um artista pleno, muito informado, culto, sério, que busca a profundidade e a delicadeza do humor. Isso também me interessou muito. Pensava comigo que queria ter uma experiência com ele em outro setor que não fosse em televisão porque não queria perder a chance de ter um encontro com ele em outra forma de expressão. Pensei até que o cinema seria o melhor, porque ele tem toda uma formação cinematográfica.
E por que não desenvolveu a idéia do cinema?
Marco Nanini - Esbarrei em realidades, tais como minha total ignorância de como se produz um filme. Teria de aprender a produzir um filme e ia ficar demais para mim. Então pensei: por que não o teatro? Um dia perguntei ‘‘en passant’’ para o Guel se ele não queria fazer uma peça comigo. Ele disse que comigo faria. Me deu essa deixa.
E como vocês chegaram ao texto do Moliere?
Marco Nanini - Quando vi que ele toparia, aí ficamos conversando, conversando e chegamos a um ponto que surgiu o nome do Moliere, que é o cara que estruturou a comédia moderna. Eu precisava fazer. Tinha encenado Moliere apenas na escola de teatro e queria fazer profissionalmente. Por outro lado, o Guel estudou muito Moliere na Europa. Ele morou na França um tempo quando o pai, o Miguel Arraes, foi exilado. E pronto, aconteceu.
Qual a sua maior identificação com o Guel Arraes?
Marco Nanini - Acho que ele encontrou em mim o veículo para expressão dele - ele é muito ligado em ator. E eu encontrei um outro veículo para me aprimorar com uma dose muito grande de confiança e de admiração, porque quando você vai fazer um trabalho etéreo, assim como é o teatro, tem de se mergulhar. Mas como mergulhar? Você tem de ter confiança e admiração no outro para poder mostrar suas mazelas. Com ele nunca tive esse problema, desde a primeira vez que gravamos.
Onde você busca elementos para incrementar seu trabalho de ator?
Marco Nanini - Acho que a fonte maior é a observação. Mesmo em casa, sentado na cadeira, acho que tenho de ficar ligado no que está acontecendo e de que maneira está acontecendo. Um dia, não se sabe quando, a gente usa. Todas as personalidades, jeitos e maneiras de as pessoas agirem e sentirem são fonte de material que vou usar muito no meu trabalho. O mais importante é a observação, até quando se lê um livro. É um jogo sem fim. E muito divertido.

mockup