O que será, que será
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de dezembro de 1996
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Há quatro anos Marco Nanini não faz novelas. Sua última permanência mais longa no vídeo foi na novela Pedra sobre Pedra, em que interpretava o abobalhado Ivonaldo Pontes. De lá para cá, as aparições foram bissextas, no Brasil Especial ou em episódios de A Comédia da Vida Privada. Mas, em breve, o público poderá observar as nuances do ator por mais tempo na tevê: ele acaba de aceitar o convite para integrar o elenco da disputada minissérie Dona Flor e seus Dois Maridos, adaptada por Dias Gomes e com direção de Mauro Mendonça Filho.
Para interpretar Teodoro, o marido mais comportado da sensual cozinheira baiana criada por Jorge Amado, Nanini está estudando o texto com cuidado. Não gosta de pressa. Seu método consiste em ler tranquilamente os capítulos para buscar inspiração em todo e qualquer diálogo ou canto de página que lhe dê alguma idéia. Gosto de fazer este processo lentamente, afirma, com a fleuma peculiar.
Marco Nanini não tem preconceito contra novela. Mas, aos 46 anos de idade e 30 de carreira, tem lá suas reivindicações. Não quer ser necessariamente o protagonista, mas exige respeito. Ou seja, que não lhe apareçam com propostas sem sedução, que a resposta será um redondo não. Quero um personagem que me divirta, avisa.
Enquanto não começa a gravar Dona Flor, o que só deve acontecer depois do Carnaval, Nanini faz a sua catarse emocional no palco. Em cartaz no Rio, a peça O Burguês Ridículo, baseada na obra de Moliere, leva para a ribalta a dobradinha que vem dando certo na tevê com Guel Arraes - este, por sua vez, faz sua estréia no teatro.
O cinema também faz parte de seus planos. Acaba de ser convidado para protagonizar Amor e Companhia, de Helvécio Ratton. Baseado no romance Álvaro e Companhia, de Eça de Queiróz, a trama se desenvolve a partir da história de um cidadão bem-casado, que vê a vida se desmoronar ao descobrir que a esposa o está traindo com seu sócio. Gostei muito do roteiro, só falta acertar as datas, diz.
As suas poucas aparições na televisão limitam-se aos episódios de A Comédia da Vida Privada. O seu padrão de qualidade está tão alto que o impede de aceitar outros convites na tevê?
Marco Nanini - Não. Acho que existem pessoas que fazem trabalhos muito bons na televisão. Para mim, o que pesa é a questão do tempo. A gravação destes especiais leva apenas 15 dias e fica mais fácil de me organizar. Também, todos os papéis que o Guel Arraes me deu foram irrecusáveis. Tanto os protagonistas como os outros. Me lembro que em Lisbela e o Prisioneiro fiz um matador. Nunca tinha feito e adorei fazer aquilo.
É a falta de tempo que lhe impede de fazer novelas?
Marco Nanini - Já fiz muitas novelas, mas gostaria de ter um papel bacana. Não estou reivindicando nenhum protagonista. Queria um papel em que pudesse me divertir, preciso me divertir. Se a gente não se diverte, a coisa sai sem tempero. Se vou fazer chateado, até consigo fazer, mas para mim é mais legal se eu brincar também, gostar de fazer aquele papel, ficar animado. Não pintou ainda um papel que me estimulasse a pensar. Agora fui convidado para fazer a minissérie Dona Flor e seus Dois Maridos. É um papel bom, interessante. Então estou estudando. O personagem é o Teodoro, o marido mais caretinha da Dona Flor. Estou começando a ler os capítulos.
Já pensou como compor o perfil do personagem?
Marco Nanini - É um trabalho muito delicado. Gosto de ler os capítulos lentamente porque às vezes a informação que me pode ser útil está em outra cena que nem é a minha. Tenho de ter uma certa solenidade, uma certa tranquilidade para ler os capítulos. Isso para ver o que me chama a atenção, o que me inspira. Primeiro vou acumulando informações para depois selecionar. É um trabalho que gosto de fazer lentamente para não me precipitar e passar por cima de uma informação importante. Acabei de começar.
As várias comédias que você vem protagonizando fazem com que o público sempre o associe ao humor. Isso lhe incomoda?
Marco Nanini - O público sabe que sou um ator que, em determinado momento, está fazendo um tipo e já não me confunde tanto com a fantasia. Ser um ator que tem o trabalho reconhecido pelo público me orgulha muito. Não o fato de ter um nome. Isso é bijuteria. O bom é saber que meu trabalho fala ao coração do espectador. Neste caso, fazer humor ou outro gênero não importa. Estou mais habituado a fazer humor porque tem mais a ver com o espírito brasileiro. Mas em teatro, de vez em quando, faço umas coisas mais dramáticas, como foi o caso de Kean, que fiz ano passado. E muitas vezes, em personagens efetivamente de humor, eu sigo um caminho de não-humor para resultar no humor.
Como seguir este caminho?
Marco Nanini - São caminhos sutis que eu combino com o Guel (Arraes) e procuro fazer. Na verdade, as pessoas riem de quê? Da desgraça dos outros e não da felicidade. Você não cai na gargalhada porque alguém ganhou uma fortuna ou está namorando. Ri quando alguém é corneado ou se deu mal ou é ingênuo... Tem uma crueldade, uma molecagem no riso, um erê, um diabinho. Todo personagem cômico, se você olhar bem, tem um lado dramático muito grande, que não pode ser esquecido. A comédia vem da consequência do que foi feito. Na criação, você tem de estar muito atento às tragédias e aos pequenos dramas do personagem. São elas que dão o pulso para você rir.
Produzir e dirigir, além de atuar, ajuda a ampliar as possibilidades como ator?
Marco Nanini - Comecei a dirigir justamente para começar a ampliar este universo. Estava somente numa área, que era o palco, acostumado a ver através da ótica do ator, ou seja, no centro do furacão. O ator vai ficando meio desorientado, vê as coisas envolto por insegurança e muitas sensações. Queria observar esse processo sem ter esses conflitos que não permitem ter essa visão distanciada. Com a direção, posso observar esse furacão sem estar no meio dele. A produção me situa um pouco mais, me permite observar o que está à minha volta e não pirar na fantasia. É o canto da sereia. Se ficar só pirado, não volto mais.
Como você convenceu o Guel Arraes a estrear no teatro como diretor de O Burguês Ridículo?
Marco Nanini - Tive um encontro bastante feliz, principalmente para mim, com o Guel na televisão. Fazia televisão há muito tempo, mas nunca fui tão íntimo de uma câmara e de um estúdio como sou agora depois que aprendi com ele. Evidentemente percebi, de cara, que o Guel não era apenas um grande diretor de televisão. O Guel é um artista pleno, muito informado, culto, sério, que busca a profundidade e a delicadeza do humor. Isso também me interessou muito. Pensava comigo que queria ter uma experiência com ele em outro setor que não fosse em televisão porque não queria perder a chance de ter um encontro com ele em outra forma de expressão. Pensei até que o cinema seria o melhor, porque ele tem toda uma formação cinematográfica.
E por que não desenvolveu a idéia do cinema?
Marco Nanini - Esbarrei em realidades, tais como minha total ignorância de como se produz um filme. Teria de aprender a produzir um filme e ia ficar demais para mim. Então pensei: por que não o teatro? Um dia perguntei en passant para o Guel se ele não queria fazer uma peça comigo. Ele disse que comigo faria. Me deu essa deixa.
E como vocês chegaram ao texto do Moliere?
Marco Nanini - Quando vi que ele toparia, aí ficamos conversando, conversando e chegamos a um ponto que surgiu o nome do Moliere, que é o cara que estruturou a comédia moderna. Eu precisava fazer. Tinha encenado Moliere apenas na escola de teatro e queria fazer profissionalmente. Por outro lado, o Guel estudou muito Moliere na Europa. Ele morou na França um tempo quando o pai, o Miguel Arraes, foi exilado. E pronto, aconteceu.
Qual a sua maior identificação com o Guel Arraes?
Marco Nanini - Acho que ele encontrou em mim o veículo para expressão dele - ele é muito ligado em ator. E eu encontrei um outro veículo para me aprimorar com uma dose muito grande de confiança e de admiração, porque quando você vai fazer um trabalho etéreo, assim como é o teatro, tem de se mergulhar. Mas como mergulhar? Você tem de ter confiança e admiração no outro para poder mostrar suas mazelas. Com ele nunca tive esse problema, desde a primeira vez que gravamos.
Onde você busca elementos para incrementar seu trabalho de ator?
Marco Nanini - Acho que a fonte maior é a observação. Mesmo em casa, sentado na cadeira, acho que tenho de ficar ligado no que está acontecendo e de que maneira está acontecendo. Um dia, não se sabe quando, a gente usa. Todas as personalidades, jeitos e maneiras de as pessoas agirem e sentirem são fonte de material que vou usar muito no meu trabalho. O mais importante é a observação, até quando se lê um livro. É um jogo sem fim. E muito divertido.


