O QUE SEGURA O TCHAN?
Nada mais que aflições de ânimo. A síntese encontrada pelo rei Salomão, quando lhe perguntaram o que era, afinal, a vida, se encaixa perfeitamente com o que se viu e se ouviu anteontem, no recinto de shows João Milanez, no Parque Ney Braga, durante a apresentação do grupo baiano É o Tchan, na 41ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. Após cinco anos de sucessos ininterruptos, chegando a vender entre 1995 e 1998 mais de 6,5 milhões de cópias no País, o grupo se encontra em um momento decisivo: a variedade de estilos que marcou sua trajetória torna o É o Tchan hoje apenas mais uma caricatura do que ele já foi.
Samba, axé, reggae, forró, lambada - grande parte do que reverberou incessantemente pelas FMs nos anos 90 integra o repertório do Tchan. A nova moda, que sexualiza os bailes de funk cariocas, também foi incorporada por Compadre Washington (o líder do grupo) e Renatinho da Bahia, membro recente que substituiu Beto Jamaica. Deu certo? Ao menos os escassos 3 mil pagantes que compareceram ao show não se entusiasmaram com o Tchan imitando o funk. O desconforto foi tão grande, que Compadre Washington chegou a pedir desculpas para a platéia alegando que o grupo não havia ensaiado os novos números.
Sobre o repertório que tudo inclui e tudo imita, Sheila Mello foi precisa, durante conversa com a imprensa: O Tchan faz o que é sucesso, e o funk tá na moda. E também deixou claro que o público corre atrás apenas de uma coisa: O show do Tchan é sempre dança, dança, dança. O interesse único pelas dançarinas do grupo, o que motivou a ida de esmagadora porcentagem da platéia masculina, tornou-se evidente nos momentos em que as sheilas abandonavam o palco. Uns olhavam para os lados, outros iam buscar certa dose etílica, enquanto os restantes permaneciam resignados sob a expectativa de revê-las. Em alguns trechos da apresentação, as duas dançarinas ficaram quase meia hora longe da platéia, o que imprimia um tom enfadonho a quem já não aguentava os gritos destorcidos de Cumpadre Washington e as brincadeiras sem graça de Renatinho da Bahia.
Mas há quem gostou do show, e muito. No hotel, eram pouco mais de 20 fãs ardorosos do grupo baiano. No recinto, cerca de 50 amantes da dança que tudo sexualiza. Alguns não pareciam despudorados, e sim, apenas levados pela corrente. Até dois membros austeros, sóbrios sob paletós escuros, permaneciam atentos às coreografias de Jacaré & Cia.
A definição que Compadre Washington deu para seu grupo, eclético, tocamos de tudo um pouco, pode ser, para os amantes da pós-modernidade, uma clara visão sobre o que é o Brasil - um país onde coexistem disparidades explicadas apenas pela construção de paradoxos. Mas um triste paradoxo, pois a impressão que se tem ao ver a platéia embalada por algumas músicas era a de que o ritmo também agradava, e não só a membros de classe média para baixo. A elite, que invariavelmente só é financeira e não intelectual, também se remexia, meio desajeitada, procurando imitar os ídolos da telinha. Uma unificação que glorifica a dança? Não, esta folclórica definição que sempre foi relacionada ao carnaval hoje é apenas uma lembrança utópica. Apesar da aparente descontração emblematizada na face do público, pairava um certo ar desolador no fundo de cada olhar, o de que todos reconheciam que tudo não passava de aflições de ânimo, nada mais.





