O que se sabe sobre a gripe aviária?
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segunda-feira, 10 de abril de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Um aluno de 11 anos pára uma estudante do ensino superior que caminha pelo calçadão de Londrina e pergunta: ''você sabe o motivo pelo qual o frango está mais barato?''. A alternativa escolhida não poderia ser mais surpreendente: ''CPI do Frango''. A simples indagação integra o questionário que, dentro do projeto interdisciplinar sobre a gripe aviária, alunos da 6 série do ensino fundamental do Colégio Marista aplicaram na manhã do último sábado, com o intuito de identificar o quanto a população sabe a respeito do tema.
Até meados de 2005, os termos como recombinação genética, vírus influenza, H5N1, aves migratórias e pandemia todos co-relacionados não eram difundidos de tal modo com que vêm sendo abordados nos dias atuais. Em casa, é possível assistir aos telejornais noticiando os novos casos de contágio; nos jornais, mais detalhes científicos. Porém, o saber como elemento isolado não gera cultura: é preciso dar significado ao conteúdo.
Partindo desse conceito, Alessandro Bartel Garcia, professor de Geografia do Colégio Marista, percebeu que os adolescentes questionavam com frequência a tão comentada gripe aviária.''Conversei com as outras áreas de conhecimento e fiz a proposta. Então cada professor buscou encaixar o assunto em sua disciplina. É interessante porque o tema proporciona essa abertura'', justificou Garcia.
Ao todo, são sete as disciplinas envolvidas: Língua Portuguesa, História, Geografia, Artes, Ciências, Matemática e Informática.
De acordo com Raquel Calil Ruy, assessora Psicopedagógica do Núcleo II do colégio, esse tipo de trabalho gera nas crianças o desejo pelo aprendizado. ''O colégio vem trabalhando com uma pedagogia de pesquisa, comunicação e solidariedade. Eu recebi diversas ligações de pais e avós de alunos perguntando a respeito das atividades do colégio, porque eles estavam surpresos com a postura desses alunos; estudando mais e pedindo para comprar jornal'', disse.
Iniciadas na segunda quinzena de março desse ano, as atividades seguem até 3 de maio distribuídas em palestras de especialistas no assunto e empresários do setor avícola, realização de questionário, exibição de documentários e, como resultado final, os alunos apresentarão um telejornal aos pais, além de uma versão impressa do produto do questionário que foi realizado junto à população.
Mas na prática, de que maneira a gripe aviária pode ser trabalhada na Geografia, por exemplo? Com o estudo do movimento de translação da Terra, as estações do ano e a migração das aves, segundo Garcia. ''Estou exibindo aos alunos trechos do ducumentário 'Migração Alada', que se encaixou perfeitamente no projeto, já que ilustra o processo de migração dos pássaros pelo mundo. Fica fácil explicar que essas aves são reservatórios naturais do vírus da gripe aviária e podem transmiti-lo às aves domésticas que, por sua vez, podem também infectar o homem'', comentou o professor.
Inserido na Língua Portuguesa, o conceito da linguagem não-verbal foi escolhido para ser posto em prática. ''Depois que os alunos pesquisaram em livros, internet e jornais, eles utilizaram papel, tinta, lápis de cor e outros instrumentos para representar a gripe aviária numa história real ou fictícia, dentro da estrutura da narrativa com começo, meio e fim. Eles já sabem que a imagem é altamente argumentativa porque chega mais rápido ao interlocutor'', acrescentou Melissa Carolina Herrera de Azevedo, professora da disciplina. Para completar essa etapa, comenta Melissa, as histórias serão compartilhadas em sala de aula onde surgirão versões diversificadas a respeito do tema. ''Os alunos estão trazendo termos técnicos que não são propícios a eles, como termos de ciências e história, por exemplo''.
Se a gripe aviária é uma das principais preocupações atuais com a saúde pública, em períodos anteriores da história haviam outras doenças que quase ou realmente se tornaram uma epidemia global. Nas artes plásticas, grandes nomes que representaram as principais doenças foram levantados em pesquisa pelos alunos, como Jean Batpiste Debret, Andreas Vesalius, Leonardo da Vinci e Pieter Brueghel. ''Dentro da história da arte, procuramos resgatar outros registros de epidemias que se alastraram pelo mundo, como a Peste Negra (século XIV). A partir de uma imagem você pode deduzir que faltava higiene, cuidados especiais com os doentes, entre outras constatações. Esse projeto é maravilhoso porque todas as disciplinas caminham juntas, quando muitas vezes ficavam engavetadas'', ponderou Luciana Nonino, professora de Artes.
Para a área de biológicas, o tema é amplamente discutido. ''A gripe aviária é o reflexo de problemas sócio-ambientais. O homem está indo a lugares que nunca ninguém havia ido antes, está rompendo fronteiras. Dentro da grade curricular estamos estudando as bactérias, vírus e outros reinos animais. É uma aula multidisciplinar e transversal, pois o conhecimento pelo simples conhecimento não quer dizer nada. A doença que mais mata é a ignorância, e nós queremos eliminá-la'', argumentou Jorge Antônio de Andrade, que leciona Ciências.
E os números não poderiam ficar de fora desse projeto interdiciplinar sobre a gripe aviária. Por exemplo, a quantidade de pessoas que foram infectadas pelo vírus e outras que morreram em decorrência do fato serão utilizados na porcentagem, de acordo com Silvia Regina Milanez Fontana, professora de Matemática. ''Tudo isso torna o aprendizado de sala muito mais significativo. A respeito do questionário que foi aplicado no calçadão, os alunos estão curiosos para saber o que as pessoas pensam, ou seja, o resultado. Após a coleta de dados, eles vão organizar as respostas e montar gráficos de barras e segmentos no laboratório de informática'', acrescentou Silvia.
Até o momento, mais de cem pessoas já morreram por causa da doença desde 2003. A maioria das mortes ocorreu na Ásia, mas alguns casos foram registrados também na África e Europa. Entre os países atingidos pela gripe aviária com contaminação humana estão: Vietnã, Tailândia, Camboja, Indonésia, China, Turquia e Iraque. A Alemanha apresentou o primeiro caso na União Européia de mamíferos mortos por causa do H5N1.
A principal preocupação dos cientistas é que o vírus da gripe aviária se torne epidêmico entre humanos, embora o número desses casos seja pequeno se comparado com os milhares de aves contaminadas. Num organismo contaminado pelo vírus H5N1 que também pode infectar outros animais existe o risco de os dois tipos de vírus recombinarem seu material genético. Desse modo seria criado um novo vírus capaz de ser transmitido entre pessoas, o que possibilitaria uma pandemia.


