O que se compra é o que se vê
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Nunca uma indústria mereceu tanto ser chamada assim: uma indústria. São invariavelmente mais de 200, quase 300 longas-metragens por ano. Destes, pelo menos dois terços são para a produção-manutenção. Filmes de orçamento médio ou abaixo disso (mas não muito), encarregados da contrapartida de ocupação de salas mundo afora. Aqueles sem maiores apelos visíveis, espécie discreta e eficiente de emissários ideológicos apenas destinados a garantir espaço para o produto norte-americano. Não importa que não se paguem fora dos Estados Unidos: já saíram pagos do mercado interno. O que vier do exterior será lucro líquido, limpo, remessa de divisas.
O terço faltante é o da produção-ambição, exclusivamente econômica. Programados por estrategistas financeiros, os filmes correm cada vez menos riscos. São no todo quase como seus personagens, clones de alguma coisa que algum um dia teve vida pensante. O que interessa é o número de brinquedos, é a parafernália que aparece em cena. Os argumentos são o que menos importa. Em maior ou menor escala, a perspectiva dos investidores - não confundir com produtores - é que as vendas diretas (via bilheteria) sejam a cada temporada igualadas pelas indiretas (via merchandising). Quatro dos principais lançamentos de final de ano no Brasil ilustram esta poderosa vertente que hoje movimenta bilhões de dólares anualmente.
Filmes-família Imagine, juntos num mesmo filme meio sem pé nem cabeça, a turma animada dos Looney Tunes, à frente Pernalonga e Patolino, e em carne e osso o Dream Team da NBA, com Michael Jordan, Charles Barkley, Larry Bird e Patrick Ewing. Isto é Space Jam, comédia-fantasia que, na definição do presidente da Warner, Gerald Levin, não é um filme, mas um evento de marketing. A definição é justa. Space Jam é uma das mais caras apostas ( U$ 125 milhões de custo) do ano, e uma das mais bem orquestradas campanhas de venda de que se tem notícia recentemente . Mais de 200 itens estão neste momento em grandes magazines de todos os países onde a produção foi lançada, com estimativa de lucros em torno de 1 bilhão de dólares. Inspirado em um comercial de televisão (da Nike, com Michael Jordan), Space Jam retorna ao território semi-animado de Roger Rabitt para contar a história de uma invasão de alienígenas. A gang liderada por Pernalonga se associa ao time de Jordan e desafia os invasores para um decisivo jogo de basquete. O filme não foi muito bem das pernas e não enterrou a esperada bilheteria, mas seus efeitos mercadológicos residuais vão perdurar por um bom tempo.
Aval ilustre Outro saído da usina do entretenimento familiar é 101 Dálmatas, que também está fazendo a alegria de crianças e licenciados por todas as partes. Afinal, são 99 adoráveis filhotes, estampados em t-shirts, em bonecos de todos os tamanhos, em produtos de beleza e veterinários. Quem também aparece faturando, e bem, nesta divisão do show bizz, é Herói de Brinquedo. E como afirma Schwarzenegger, está tudo no marketing. Inclusive e principalmente ele, emprestando suas feições à criatura do filme, o brinquedo Turbo Man. E até o velho e bom Pinóchio, embora em menor volume de bugigangas e derivados, também multiplicou dividendos com uma nova versão do clássico de Carlos Collodi, misturando criaturas animadas e personagens vivos.
Uma característica obrigatória para um merchandising bem-sucedido é que os filmes sejam familiares e que contenham uma dose considerável de fantasia. Vale dizer, criaturas representam bem mais do que seres humanos, em termos de transformação em brinquedos. Neste caso, porém, nem tudo que reluz vira mania (e dinheiro). Aquilo que foi gerado para consumo a partir de Gasparzinho encalhou nas lojas, o mesmo ocorrendo com Independence Day. Desafiando as leis mercadológicas, ambas as produções ultrapassaram os 100 milhões de dólares nas bilheterias.
Como, além do design de um novo brinquedo, a sua manufatura passa obrigatoriamente por algum país asiático, é bom acertar os detalhes com antecedência. Por isso, os licenciados já estão trabalhando há meses no mais provável mega-hit do próximo verão americano: a sequela de Jurassic Park, batizada por Michael Crichton como The Lost World. O aval de Spielberg desde já tranquiliza todos os investidores.


