Entre escritores, existem aqueles a quem algumas temáticas são fontes inesgotáveis para sua obra. Costuma-se dizer que o universo deste autor se limita ou é conduzido por tal tema. Pouco ou raramente o universo de um literato se confunde com o próprio universo em si, infindo e atemporal em sua forma e limitação. Isso ocorre com um dos grandes escribas portenhos do século 20, Jorge Luis Borges.
Sob um universo infinitamente amplo, Borges falou de tudo. Essencialmente do concreto e da metafísica. Se tantos temas passaram pela pena do escritor, um país não poderia escapar de seu olhar. Sim, o Brasil também tem relações estreitas com o criador de Pierre Menard, aquele enxadrista que acreditava ser o homem capaz de ter todas as idéias.
Investigando essas relações, o professor titular de Literatura Hispano-Americana da Universidade de São Paulo (USP), Jorge Schwartz, lança em nosso mercado editorial ''Borges no Brasil'' (Editora Unesp, 605 páginas, R$ 40,00), uma coletânea com diversos autores apontando relações entre o escritor e o País. Schwartz, autor de ''Vanguarda e Cosmopolitismo na Década de 20'' (Perspectiva) e ''Vanguardas Latinoamericanas'' (Iluminuras/Edusp), prestou assessoria editorial para a recente edição de ''Obras Completas'', da Editora Globo. Foi também o responsável pela última vinda de Borges ao Brasil em agosto de 1984, dois anos antes da morte do literato.
A coletânea é uma obra minuciosa, fruto de um estudo detalhado de todas as possíveis e (por vezes apenas imagináveis) relações que Borges nutriu com nossa nação. Schwartz reuniu escritos referentes ao argentino de grandes de nossa literatura: Mário de Andrade, Murilo Mendes, Clarice Lispector e Augusto de Campos, além de grandes estudiosos, como Otto Maria Carpeaux, Alexandre Eulalio, Fausto Cunha, Augusto Meyer, Paulo Rónai, Guilhermino César, Lya Luft, Walnice Nogueira Galvão, Bella Jozef, Silviano Santiago e críticos, como Leyla Perrone-Moisés e Davi Arrigucci Júnior.
Mario de Andrade, por exemplo, realça que Borges afirmou em seus primeiros versos a tristeza essencial dos argentinos. ''Jorge Luis Borges tirou dos estudos uma fadiga contemplativa e condescendente. Então diz: ''El tiempo está viviéndome...''.
Carpeaux, do alto de sua astúcia observadora, encontra no autor de ''El Aleph'' um jogo incessante com a realidade e a irrealidade. ''Seu mundo fantástico é, contra todas as aparências, igual ao nosso''. Perrone Moisés apresenta semelhanças entre Borges e Machado de Assis, já que muitos, como Salman Rushdie, consideram o autor de ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'' um precursor do realismo fantástico. Outro ponto em comum nos direciona à mania dos dois autores em citar euxastivamente, mesmo que essas citações sejam apenas imaginárias, mas terrivelmente reais!
Em breve ensaio, o nosso Murilo Mendes imagina um encontro com Borges em biblioteca acerca do Oriente. Após o relato, dispara com exímia exatidão: ''Borges é seu próprio texto, seu teatro giratório, seus atores e sua representação; diretor da ''pantomina cósmica''. Ele sofre por ser sujeito ao tempo circular, à criação recorrente; insiste na similitude da vida e da morte, é obsedado pela idéia do labirinto de épocas fabulosas e de hoje mesmo'', pelos jogos de simetria e de espelhos, sabe que já 'leu' muitas outras existências''.
Alguns desses textos não são inéditos, já conhecidos de jornais e outras publicações. Mas há preciosas análises nesse selecto organizado por Schwartz. O escritor argentino Ricardo Piglia, autor de ''A Cidade Ausente'' e ''Dinheiro Queimado'', um dos altos nomes das letras portenhas da atualidade, mostra como Borges era um mestre na arte de narrar. Piglia utiliza o sua bagagem de grande leitor para supor como Kafka, Calvino ou Hemingway conduziriam tal trama. Para ele, a arte de narrar em Borges gira sobre o duplo vínculo de ouvir e ler. ''Ouvir um relato que se possa escrever, escrever um relato que possa contar em voz alta''.
Há também apreciações aos contactos de Borges com a sétima arte. No artigo ''J.L. Borges, o último criador de mitos'', Bella Jozef mostra a trajetória do Borges crítico de cinema. À época ele escrevia para a revista ''Sur'', aquela em que junto a Adolfo Bioy Casares, Victoria e Silvana Ocampo lançou as bases do realismo fantástico. Em síntese, gostava de alguma coisa em Hollywood por preservar o tom épico no século 20. Notou já em 1941 a grandiosidade de Orson Welles em ''Cidadão Kane'' e elogiava os diretores que se agarravam à imagem como suporte essencial para se contar uma história.
Sobre o Brasil, sabe-se que Borges admirava Euclides da Cunha, principalmente pelo potencial linguístico evidenciado em ''Os Sertões''. Em entrevista ao jornalista Roberto D'Ávilla (em que o cinegrafista foi Walter Salles, isso nos anos 80), Borges disse que lembrava de um verso sobre o sabiá: ''Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá... Eu os ouvi em 1014, passando pelo Rio de Janeiro, indo à Europa; alguém cantou estes versos, que me ficaram na cabeça, não sei por quê''. Em momento revelador da ironia de Borges, D'Ávilla comenta que o escritor é um homem que leu milhares de livros - ''Não, não li. Li muito pouco, sempre releio os mesmos livros, e, ultimamente, a literatura contemporânea, não a conheço''.
Em dois contos de ''Ficciones'', Borges também menciona costumes dos brasileiros que viviam próximos aos gaúchos da Argentina, mas nunca se aprofundou em caracteres de nossa alma nacional (aliás, ela existe?).
Após 1914, Borges veio mais duas vezes ao Brasil. Em agosto de 1970, para receber homenagens em São Paulo, e quatorze anos depois, em dois dias de agosto de 1984, novamente para receber de escritores e acadêmicos as honras a sua imensurável imaginação. Ao se despedir, lembra Schwartz, Borges prometeu um poema sobre o Brasil, o qual nunca foi escrito. Ao menos em letras impressas, já que, seguindo os raciocínios borgeanos, poderíamos afirmar que os versos não se constituem de vocábulos impressos, e sim, de concretudes do imaginário...

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